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Correio da Manhã

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Acordo entre Bolsonaro e ministros militares mantém ministro da saúde no cargo

Demissão já estava pronta, mas titular da pasta da Saúde era elogiado por todos menos pelo chefe de Estado.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 7 de Abril de 2020 às 14:46
Luiz Henrique Mandetta
Luiz Henrique Mandetta
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Luiz Henrique Mandetta
Luiz Henrique Mandetta
Luiz Henrique Mandetta

No final de uma segunda-feira extremamente tensa e com o Brasil em suspenso, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que até já tinha esvaziado as suas gavetas no ministério pela certeza de que seria demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, crítico das orientações dele em defesa do isolamento da população contra o coronavírus, anunciou que, afinal, ficaria no cargo. A inesperada reviravolta, fruto de um acordo político costurado pelos ministros militares que cercam Jair Bolsonaro pode, no entanto, custar milhares de vidas nos próximos meses.

Pelo acordo entre os generais, Bolsonaro desistiu de demitir Mandetta, cuja demissão já estava pronta para ser assinada pelo presidente, mas, em contrapartida, o titular da pasta da Saúde, que era elogiado por todos menos pelo chefe de Estado, aceitou flexibilizar as orientações de isolamento que defendia até agora. No final da conferência de imprensa que todos os dias anuncia os números actualizados da pandemia de coronavírus, e mesmo antes de se saber que o ministro ficava no cargo, um dos secretários de Mandetta avançou a mudança, fortemente criticada por médicos e cientistas pois já foi tentada em outros países e fracassou.

Mandetta comprometeu-se a flexibilizar as medidas de quarentena adotadas por governadores de estado e autarcas de cidades por todo o Brasil, permitindo a volta ao trabalho e a reabertura de lojas e indústrias em cidades onde metade da capacidade hospitalar esteja vaga. Ou seja, cidades onde os hospitais ainda tenham metade das camas disponíveis e possam receber um grande número de pacientes de Covid-19 vão poder reabrir lojas, fábricas e empresas de todo o tipo, mantendo em isolamento apenas pessoas com mais de 60 anos.

Era o "isolamento vertical" que Bolsonaro queria impor ao Brasil desde o início, isolando apenas idosos e pessoas com doenças pré-existentes, para retomar ao menos parte da actividade da economia. Mandetta sempre resistiu, mas ante a iminência da demissão por Bolsonaro, que já tinha até convidado o deputado Osmar Terra para lhe suceder no comando do Ministério da Saúde, resolveu ceder.

Assim que os contornos do acordo, não reconhecido oficialmente por nenhuma das partes, foi divulgado pela imprensa, infectologistas, médicos que estão na linha de frente do combate ao coronavírus e cientistas ligados à pesquisa da doença vieram a público criticar a mudança e alertar para o elevado número de mortes que esse acordo político pode provocar no Brasil, que ainda está longe do pico da pandemia mas já tem mais de 12 mil infectados e mais de 560 mortos. Esses especialistas lembram que esse tipo de flexibilização já foi tentado na Itália, nos EUA e no Reino Unido, cujos governos depois foram obrigados a recuar e a promover isolamentos rigorosos, mas quando já milhares de pessoas inocentes tinham morrido por causa da experiência que agora Bolsonaro e Mandetta querem impor ao Brasil.
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