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Correio da Manhã

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Acusado de genocídio por ajudar Saddam

A atmosfera estava pesada no tribunal de Roterdão. Perante a perturbante presença de quatro sobreviventes do ataque de Halabja, um juiz acusou Frans van Anraat, um empresário de 62 anos, de ter vendido químicos ao regime de Saddam Hussein, que os usou para fabricar um gás tóxico usado na guerra contra o Irão (1980-88) e ainda no ataque contra os curdos em 1988.
19 de Março de 2005 às 00:00
É a primeira vez que um cidadão holandês responde perante um tribunal nacional por crimes de guerra e genocídio.
“Van Anraat estava consciente de que as toneladas de agentes químicos que fornecia eram usadas como armas pelo antigo regime iraquiano. E mesmo depois do ataque contra os curdos em Halabja, que matou perto de 5000 pessoas, ele continuou os fornecimentos”. Foi assim que o procurador público Fred Teeven começou a sua argumentação contra o empresário perante o tribunal, recordando que os inspectores da ONU consideraram o arguido um dos mais importantes mediadores no fornecimento de agentes químicos a Saddam Hussein.
Van Anraat, que ontem ouviu as acusações em silêncio, admitiu numa entrevista que deu à revista ‘Nieuwe Revu’, em 2003, ter vendido químicos, mas negou que soubesse para que eram usados. “As imagens do ataque com gás de mostarda à cidade de Halabja foi um choque. Mas não fui eu que dei a ordem para o ataque. Quantos produtos como balas fabricamos na Holanda?” argumentou.
Os seus advogados afirmam não haver provas convicentes, mas a acusação garante que elas são irrefutáveis e incluem documentos oficiais do governo iraquiano bem como informações obtidas do antigo responsável pelo programa químicos iraquiano, Ali Hassan al-Majid, mais conhecido por ‘Ali, o químico’.
Van Anraat foi preso pela primeira vez em Milão, em 1989, a pedido dos EUA. Acabou por ser libertado e fugiu para o Iraque, onde esteve até 2003. Após a invasão americana, regressou à Holanda, onde foi detido em Dezembro do ano passado. O tribunal marcou uma nova audiência para Junho, mas o julgamento só deverá iniciar-se em Novembro. Se for condenado, pode ter de passar o resto da vida na prisão.
TRIBUNAL LUSO JULGA GUERRA
O governo de Durão Barroso está no banco dos réus na Torre do Tombo. Um grupo de individualidades portuguesas participa numa espécie de julgamento do Estado português, acusado de ser cúmplice e co-participante na guerra contra o Iraque.
No evento, que começou ontem e termina amanhã, uma equipa de juristas da Comissão Organizadora da Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque vai apresentar depoimentos sobre crimes cometidos contra o povo iraquiano. O programa está disponível no http://tribunaliraque.no.sapo.pt/
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