As primeiras equipas de ajuda humanitária começam a chegar ao Haiti. As ruas da capital, Port-au-Prince, começam a ficar silenciosas, 30 horas depois do sismo de grau 7 que atingiu a região.
“Não se ouve um ruído, só há silêncio”, declarou a jornalista Mariana Palavra à agência Lusa.
A jornalista de 31 que trabalha para a rádio das Nações Unidas no Haiti, diz que se encontra actualmente na base logística da ONU situada junto ao aeroporto da capital do Haiti, depois de ter conseguido abandonar a sede da organização, 'a única parte do edifício que se manteve de pé'.
'Já fui a uma das zonas mais afectadas. Há construções no chão, mas já não se ouve nada e isso significa alguma coisa', relatou, numa alusão ao facto de, nas horas posteriores ao sismo, 'ouvirem-se gritos por toda a cidade' e, depois, 'cânticos religiosos'.
De acordo com o relato de Mariana Palavra, os corpos das vítimas continuam “espalhados pelas ruas” de Port-au-Prince.
'Existem pessoas sem tratamento médico no meio da rua. Os mortos continuam espalhados, uns em cima dos outros. Não há meios para recolher os cadáveres', relatou, recordando que no Haiti não existem equipas de bombeiros e que as únicas ambulâncias existentes pertencem às Organizações Não Governamentais (ONG) que se encontram naquele país. A jornalista acrescenta ainda que os poucos meios existentes estão concentrados nos escombros do Palácio Nacional, onde se 'presume que estejam soterrados três ministros'.
Entretanto, alguns grupos privados começaram já a 'distribuir tendas e mantas' entre os sobreviventes que se encontram 'a viver nas ruas', uma iniciativa de um grupo de pessoas que está a recorrer às redes sociais da Internet para pedir ajuda.
'Vários aviões com ajuda humanitária aterraram hoje [quinta-feira], sobretudo franceses e chineses, com comida e cães para detectar as pessoas soterradas'.
A quase ausência de assistência médica e de comida é outro dos problemas que afecta os sobreviventes do sismo, uma situação que levou as autoridades do país a recear o aparecimento da instabilidade social motivada pela fome. Ainda assim, Mariana Palavra afirma 'não existirem pilhagens'.
Questionada sobre o número perspectivado de vítimas mortais, a portuguesa sublinhou ser 'muito difícil' avançar com dados.
'Não vejo muitos meios no terreno para poder ter uma perspectiva mais ou menos real do número de vítimas', declarou, acrescetando ainda que a população, depois do 'susto e choque inicial', está agora numa fase em que se questiona sobre o ”porquê disto ter acontecido outra vez'.
'Em 2009, os indicadores eram favoráveis para o país, o número de afectados pela insegurança alimentar tinha diminuído. Para este ano, estavam previstas as eleições legislativas, em Fevereiro, e as presidenciais, no final do ano. Por isso, o pensamento geral dos haitianos com quem falei foi: Porquê? É o voltar à estaca zero', disse, recordando que em 2008 ocorreram naquele país dois sismos, que 'provocaram milhares de mortos'.
Apesar do clima de terror que se vive no país depois da catástrofe, a jornalista portuguesa afirma que irá permanecer no Haiti para saber o que aconteceu aos amigos e porque não faz sentido sair numa altura em que 'os haitianos mais precisam de ajuda'.
'A contribuição será mínima, mas é importante que eles sintam que não estão sós', frisou.
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