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Correio da Manhã

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Al-Qaeda matou Bhutto

Com o país envolvido numa perigosa espiral de violência, o governo do Paquistão afirmou ontem ter provas de que a al-Qaeda é responsável pelo atentado que na quinta-feira ceifou a vida a Benazir Bhutto, cujo corpo foi sepultado junto do pai e dos dois irmãos, igualmente assassinados no passado, no mausoléu da família na província de Sindh, sul do país.
29 de Dezembro de 2007 às 00:00
A onda de revolta causada pelo atentado alastrou e fez ontem pelo menos 34 mortos em incidentes violentos em dezenas de cidades.
“Temos escutas telefónicas da espionagem indicando que Baitullah Mehsud está por detrás do assassinato”, afirmou Javed Iqbal Cheema, porta-voz do Ministério do Interior, referindo um líder tribal do Waziristão relacionado com o movimento fundamentalista taliban do Afeganistão e com a organização de Osama bin Laden.
Refira-se que a mesma fonte adiantou uma nova versão sobre as causas da morte de Bhutto. Ao contrário do que se disse antes, frisou Cheema, não foram os disparos ou os estilhaços da bomba do suicida a matar a líder do Partido do Povo do Paquistão (PPP), mas sim o impacto da explosão: na queda, Bhutto terá partido o pescoço. Em conferência de imprensa, Cheema desmentiu ainda as versões segundo as quais o governo descuidou a segurança no comício do PPP em Rawalpindi. Tudo foi feito para proteger Bhutto, assegurou.
Mas os apoiantes da líder assassinada continuam a responsabilizar o presidente Pervez Musharraf. Durante o cortejo fúnebre, milhares de pessoas gritaram slogans contra o presidente “assassino” enquanto outros choravam a morte da “irmã” e “mãe” dos paquistaneses. O marido de Bhutto, Asif Ali Zardari, acompanhou o féretro, em lágrimas, junto do filho, Bilawal, de 19 anos, e das duas filhas, Bakhtawar, de 17, e Aseefa, de 14.
Na província de Sindh, onde o apoio a Bhutto era mais intenso, dezenas de incidentes violentos fizeram pelo menos 24 mortos. No outro extremo do país, no vale de Swat, uma explosão durante um comício matou pelo menos seis pessoas, entre elas um candidato de um partido pró-Musharraf. Em Lahore pelo menos uma pessoa morreu e em Peshawar foram incendiados dois gabinetes de partidos de Musharraf.
A escalada de violência levou as autoridades a enviarem tropas para a rua com ordem para atirar a matar sobre os manifestantes. Paralelamente, foi ordenado o encerramento preventivo de comércios, escolas e outros edifícios públicos durante os próximos três dias.
No actual estado de caos, a realização das legislativas de 8 de Janeiro está em dúvida, mas o primeiro-ministro interino, Mohammadmian Soomro, afirmou ontem que “a data das eleições se mantém inalterada”.
"OUVI TIROS E ELA DESAPARECEU"
O fotógrafo John Moore, da Getty Images, galardoado com o Pulitzer em 2005 pela cobertura da guerra no Iraque, estava no comício de Rawalpindi quando foi assassinada Benazir Bhutto. Estava próximo do local do atentado e captou as últimas imagens da antiga líder de governo. “Fiquei surpreendido por ela sair do carro”, afirmou, dando conta da decisão de Bhutto de acenar aos seus apoiantes no carro descapotável. De facto, foi quando se colocou de pé no carro blindado, deixando todo o tronco fora da janela do tejadilho, que o terrorista atacou. “Aproximei-me e tirei várias fotos da multidão. [...] De repente ouvi disparos. Ela desapareceu do tejadilho do carro. Levantei a câmara e foi então que se deu uma violenta explosão”, recorda Moore.
MENSAGEM VIA MAIL ACUSA MUSHARRAF
“Se alguma coisa me acontecer no Paquistão, responsabilizarei Musharraf”, escreveu Benazir Bhutto num e-mail enviado ao seu porta-voz norte-americano, Mark Siegel, após o regresso ao Paquistão, em Outubro, após oito anos de exílio. “Os seus homens de mão fazem-me sentir insegura”, afirmou ainda, dando conta de uma série de medidas de segurança que exigiu e não lhe foram concedidas pelo presidente paquistanês. “É impossível que a proibição de utilizar viaturas privadas, com vidros fumados, ou uma escolta de quatro viaturas da polícia, para me proteger de todos os lados, possa ser tomada sem o seu acordo”, afirmou ainda na mensagem, escrita a 26 de Outubro, oito dias após o regresso e outros tantos desde um primeiro atentado terrorista contra a sua vida ter matado mais de 130 pessoas. As acusações têm sido ecoadas pelos seus aliados políticos.
PROTAGONISTAS NUM PAÍS EM CRISE
PRESIDENTE PERVEZ MUSHARRAF
O presidente Pervez Musharraf é a figura mais impopular do Paquistão. Protegeu a sua posição mediante uma série de decretos promulgados antes de levantar o estado de emergência. Pode cair se perder o apoio do Exército.
MILITARES E SERVIÇOS SECRETOS
O Exército é o maior poder no Paquistão, mantendo posições dominantes na política e economia. Paralelamente, os serviços de espionagem são um reduto de fiéis servidores do ditador Zia ul-Haq, responsável pela islamização do país, nos anos 70.
BENAZIR BHUTTO
A morte de Bhutto deixa o Partido do Povo do Paquistão (PPP) órfão. O presumível sucessor será Amin Fahim, que chefiou o partido durante o exílio da líder. Se as eleições decorreram em Janeiro o martírio de Bhutto pode ter impacto na votação.
RADICAIS ISLÂMICOS
Os radicais islâmicos, nomeadamente os inspirados pela al-Qaeda, querem derrubar Musharraf. Controlam áreas junto da fronteira como o Afeganistão e alargaram a sua zona de influência, lançando ataques em Islamabad e Rawalpindi.
NAWAZ SHARIF
Antigo líder de governo, como Bhutto, Sharif, líder da Liga Muçulmana do Paquistão, foi sempre seu adversário político, mas a oposição a Musharraf aproximou-os. Agora promete continuar a luta da adversária pela democratização do país.
COMUNICAÇÃO SOCIAL
As TV, rádios e jornais do país sofrem a censura sempre que dão ‘demasiado’ tempo de antena aos protestos contra o presidente Musharraf. As regras em vigor para a imprensa proíbem a publicação de artigos críticos face ao governo.
JUÍZES E ADVOGADOS
Juízes e advogados são uma importante força no país. Para segurar o poder, Musharraf demitiu o procurador-geral, Iftikhar Mohammad Chaudhry, e remodelou o Supremo Tribunal, dando origem a violentos protestos do poder judicial.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
George W. Bush tentou aliar Musharraf e Benazir Bhutto para bloquear os radicais islâmicos. O presidente, aliado dos EUA no combate ao terror, respeitou as exigências de Bush, deixando, nomeadamente, a chefia do Exército.
SOLTAS
PORTUGUESES
O Governo português informou que se encontram bem os cidadãos portugueses residentes na província natal de Benazir Bhutto, Singh, uma das mais afectadas pelos tumultos após o assassinato da ex-primeira-ministra.
CHINA CONDENA
A China comentou ontem o assassinato de Benazir Bhutto, classificando o atentado suicida de “acto de terror”. Segundo a agência estatal Nova China, o governo de Pequim enviou condolências à família da líder da oposição e aos familiares das outras vítimas do ataque.
EXIGÊNCIAS DE SHARIF
O ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, líder da oposição paquistanesa, voltou ontem a exigir o adiamento das eleições legislativas, marcadas para 8 de Janeiro. Sharif, que tal como Benazir regressou ao Paquistão há escassas semanas após anos de exílio, reiterou as acusações contra o presidente Musharraf.
NOTAS
LIVRO DE CONDOLÊNCIAS
O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, assina o livro de condolências na representação diplomática do Paquistão, em Nova Deli
IRMÃ CHORA LÍDER ASSASSINADA
Sanan Bhutto, irmã de Benazir, rezou junto à urna da líder do Partido do Povo do Paquistão, acompanhada da amiga Samia Waheed
HOMENAGEM EM AREIA
Numa praia da província de Sindh um enorme rosto de Benazir Bhutto foi esculpido em areia e utilizado como memorial à líder assassinada
AS SUSPEITAS DO MARIDO, ASIF
Asif Ali Zardari, marido de Benazir, foi o primeiro a desmentir as versões oficiais do homicídio, afirmando que não foram os disparos a matar Bhutto
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