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Correio da Manhã

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Alkatiri não pode continuar

O rapaz com a fisga salta do camião e corre como se fosse chegar atrasado. Lá à frente, à entrada do mercado de Comoro, dezenas de jovens avançam já para destruir um monte de destroços. Pedras voam de um lado para o outro, mais depressa do que os gritos.
7 de Junho de 2006 às 00:00
Milhares de pessoas acorreram a Díli numa megamanifestação contra o primeiro-ministro Mari Alkatiri
Milhares de pessoas acorreram a Díli numa megamanifestação contra o primeiro-ministro Mari Alkatiri FOTO: António Dasiparu/EPA
Há vários dias que as bancadas de madeira cederam à violência e às chamas, mas mesmo assim o local parece ter a força de um buraco negro, a que ninguém resiste. Dois minutos depois, as chamas aparecem e os camiões, mais de cinquenta que vieram desde Ermera com milhares de pessoas para pedir a demissão de Mari Alkatiri, arrancam outra vez em direcção a Díli, capital de Timor-Leste. Xanana Gusmão há-de chorar no fim deste caminho.
A grande ‘demo’, ou manifestação, permaneceu uma incógnita durante grande parte do dia. “Creio que vai haver alguma coisa, mas não sei bem o quê, já que não foi comunicada a realização de qualquer acção desse tipo”, dizia ao CM, a meio da manhã, fonte do governo timorense. Ao início da tarde, nas ruas da capital já se sentia alguma agitação, mas nada de concreto. “Há mais de cinquenta camiões a caminho da cidade”, dizia um morador de Campo Alor. Seguindo a estrada, em direcção a Tibar, os militares da Malásia tinham montado barreiras de estrada, quatro, sendo a última intransponível para quem queria sair de Díli.
Às 15h30, os primeiros camiões carregados de gente fazem a curva na direcção contrária, rumo à cidade. Boromeu vinha num deles, em pé, desde as oito da manhã quando partiu de Ermera. “Alkatiri não pode continuar. O objectivo desta manifestação é tirar Alkatiri. Só assim Timor-Leste pode voltar a ser bom”, diz o rapaz de 21 anos. No seu camião, como em todos os outros, estas palavras são repetidas em jeito de ‘slogan’ e o primeiro-ministro é acusado de ser “comunista” e “terrorista” com ligações à al-Qaeda. Mas as pessoas também gritam por um “Timor melhor”, “sem lutas nem divisões”. E à medida que a enorme e lenta coluna fica mais perto do centro de Díli, centenas de pessoas, à beira da estrada, acenam, sorriem e gritam com os manifestantes.
A seguir à ponte de Comoro, porém, a marcha é interrompida. O mercado fica à esquerda e, ao fundo, por entre os destroços e as casas queimadas, algumas dezenas de pessoas avançam devagar. A ideia do “Timor melhor” desaparece rapidamente. Alguns responsáveis da organização tentam demover os jovens, gritam para que regressem à coluna – o que acaba por acontecer. Mas o fogo já foi lançado e há-de ficar a arder. Com cada vez mais gente na estrada, militares australianos incluídos, a manifestação segue caminho. Com o mar à esquerda, os camiões entram em Díli, passam junto ao Palácio do Governo, viram à direita junto à embaixada de Portugal e tomam a estrada para o Palácio das Cinzas, gabinete de Xanana Gusmão.
Vários responsáveis tomam o microfone, à vez, para discursar. Mas dizem todos o mesmo: Alkatiri tem de sair. A petição que o major Alves Tara, militar rebelde envolvido na manifestação, entregou ao presidente fala de um prazo de 48 horas para a demissão do primeiro-ministro e a nomeação de um governo transitório. Os discursos prosseguem e, no final, Xanana aparece. Um helicóptero sobrevoa a área, os militares da Malásia falam com os soldados australianos. Lá à frente está Xanana Gusmão que não evita as lágrimas ao pedir, uma vez mais, o fim da violência em Timor.
TAXISTA APANHADO PELAS PEDRAS
Domingos Guterres já começou a fazer contas à vida. E o resultado, diz, não é famoso. Uma palavra a mais, um amigo em perigo, dezenas de pedras a voar, dois australianos feridos e um carro inutilizado. “Como é que vou ganhar a vida? Não tenho dinheiro para pagar isto, mas também não há oficinas abertas...”
Ontem de manhã, este taxista de Díli seguia com dois jornalistas da televisão australiana ABC no banco traseiro e um amigo timorense ao seu lado. “Quando chegámos a Comoro, alguns miúdos disseram-me para ir com cuidado porque os lorosae estavam armados. Eu agradeci, mas depois o meu colega disse qualquer coisa e os miúdos logo viram que ele era lorosae.”
Quando percebeu que os jovens queriam retirar o amigo do carro, já depois de o terem agredido, Domingos acelerou o mais que pôde. Mas não foi suficiente para fugir à chuva de pedras que atingiu o táxi. O vidro de trás desapareceu e os dois australianos sofreram ferimentos ligeiros. O carro, esse, não deve voltar à estrada nas próximas semanas.
EM DÍLI PARA AJUDAR
Os militares da GNR que ontem à tarde garantiam a segurança do edifício das Alfândegas, perto do Palácio das Cinzas, tinham vista privilegiada para a última novidade em Díli.
Junto aos camiões da manifestação, os soldados australianos entregavam pequenos folhetos à população. Num deles, em tons de vermelho, lia-se, em tetum e em inglês, que as tropas australianas estão em Timor-Leste para ajudar os timorenses.
O outro, escrito a preto, com imagens de violência a que todos já se habituaram, lembra que “o futuro de Timor-Leste está a ser destruído com actos de fúria, vingança e luta”. E acrescenta: “Os actos de vingança ou represálias são crimes contra o povo timorense.”
A PAZ QUE NASCE DO CAOS
Por Ricardo Marques
O australiano de bigode, que está há meia hora a olhar para o céu, é dono de uma das maiores distribuidoras de gás em Díli, onde vive há mais de trinta anos. “Repare como as nuvens passam na montanha, compactas. A seguir deve haver ventos muitos fortes lá em cima porque, veja, estão todas desfeitas, seguindo em várias direcções. Mas ali à frente quase desaparecem, tranquilas, como a paz que nasce do caos. Gostava de acreditar que aqui em baixo também será assim.”
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