Rosa-Maria Cardoso Pinto tinha 17 anos quando se mudou para Cambridge, como parte de uma família numerosa, proveniente de Angra do Heroísmo, na Terceira.
Sessenta anos nos Estados Unidos da América, com um período de adaptação "horrível", poucos apoios aos imigrantes e com alguma discriminação, nunca fizeram a açoriana Rosa-Maria Cardoso Pinto ter menos amor pelas origens.
Homenageada como uma das pessoas "construtoras" dos 50 anos da organização de serviços sociais Massachusetts Aliance of Portuguese Speakers (MAPS), em Boston, Rosa-Maria Cardoso Pinto recordou emocionada o seu percurso de emigração, em entrevista à agência Lusa.
"Eu amo a comunidade portuguesa, eu sou portuguesa, as minhas raízes são portuguesas", disse a emigrante, que chegou aos Estados Unidos no início dos anos 1960.
Tinha 17 anos quando se mudou para Cambridge, como parte de uma família numerosa, proveniente de Angra do Heroísmo, na Terceira.
"Os meus pais eram educados", disse Rosa-Maria, emocionada. "Financeiramente eles estavam bem, o meu pai tinha um bom trabalho a minha mãe era professora de piano", continuou.
As coisas ficaram mais complicadas para a família devido a um sócio de negócios: "O meu pai tinha uma loja para além do seu emprego e, infelizmente o sócio do meu pai não foi... não foi honesto. De maneira que tivemos de vender as nossas casas", lamentou a emigrante.
Rosa-Maria recordou também que o pai fez uma candidatura para ir para os Estados Unidos quando ainda estava a estudar, aos 16 anos, mas "nunca ouviu [nenhuma resposta] do consulado, nem de ninguém", até que aos 48 anos essa resposta chegou.
"Mandaram-lhe uma carta do consulado americano perguntando se ainda estava interessado em vir para os Estados Unidos (...) e ele disse que sim", contou Rosa-Maria, acrescentando que tinha um tio que vivia em Rhode Island.
"Viemos em 60, foi uma transição horrível", relembrou a mais velha de seis filhos, frisando que na altura "não havia realmente muita ajuda aos imigrantes" e que, para dificultar, sentia-se também bastante discriminação nos Estados Unidos contra as comunidades estrangeiras.
"Foi extremamente difícil. Eu andava no colégio, estava no quinto ano (...) e na altura não havia ensino bilingue", disse, em referência às escolas norte-americanas que agora incluem português no currículo, e escolas portuguesas nos EUA, que estão cada vez mais reforçadas.
Segundo dados da Coordenação do Ensino do Português nos Estados Unidos, em 2020/2021, a língua portuguesa estava a ser ensinada em 189 estabelecimentos de ensino dos EUA, por 386 professores, com um total de 20 mil alunos inscritos a aprender a língua.
Rosa-Maria sublinhou que apesar das dificuldades com o ensino norte-americano, "queria estudar" e assim conseguiu fazer, mas com trabalho árduo.
"Consegui estudar, consegui ir para a universidade e acabar o meu curso, mas foi a trabalhar sempre e estudar ao mesmo tempo", afirmou.
Rosa-Maria completou o curso em serviços sociais e começou a trabalhar com entidades portuguesas nos EUA, entre as quais a Cambridge Organization for Portuguese Americans (COPA), organização criada em 1970, onde foi secretária e membro do conselho diretivo.
Em 1993, a COPA e a antiga Somerville Portuguese American League (SPAL) fundiram-se para formar a Aliança para Falantes de Português de Massachusetts, MAPS na sigla em inglês, que celebrou 51 anos no último sábado, com uma gala com 300 pessoas, em Boston.
"Foi uma experiência muito boa, aprendi imenso. O facto de que ajudámos tantas pessoas e de que [a organização] cresceu tanto, nunca antecipei uma coisa tão maravilhosa, já temos ramos [escritórios] em todo o lado", disse.
As origens portuguesas nunca enfraqueceram para Rosa-Maria Cardoso Pinto, que continuou "sempre a falar português" em casa.
O marido, também emigrante, é proveniente de Trás-os-Montes e era vice-cônsul de Portugal em New Bedford no início dos anos 1980, quando os dois se conheceram durante um evento cultural para portugueses nos EUA.
Passados 60 anos desde a mudança de país, Rosa-Maria Cardoso Pinto garantiu que, aos poucos, a família ultrapassou a difícil adaptação à emigração.
"Eu estou dividida, realmente estou dividida. (...) às vezes sinto-me um bocadinho sem saber onde estou. Quando vou a Portugal, vou a casa. Quando venho aqui [Estados Unidos], volto a casa", concluiu.
No Estado de Massachusetts, na costa leste dos EUA, vivem mais de 300 mil pessoas de origem portuguesa, 67 mil pessoas de origem brasileira e 60 mil de origem cabo-verdiana, segundo estimativas de 2014, da pesquisa American Community Survey.
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