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Correio da Manhã

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ANULADA EXPULSÃO DE JORNALISTA DO BRASIL

O governo brasileiro anulou a ordem de expulsão emitida contra o correspondente do jornal norte-americano “The New York Times” no Brasil, Larry Rother, indicando que este pediu desculpa por um artigo no qual sugeria que o presidente brasileiro, Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva, tem problemas com a bebida.
15 de Maio de 2004 às 17:35
No passado dia 9, o “The New York Times” publicou um artigo assinado por Larry Rother, no qual era sugerido que o presidente ‘Lula’ consumia demasiado álcool. Apesar de ser publicamente conhecido o gosto do presidente ‘Lula’ por uma bebida, este terá considerado que o correspondente do jornal norte-americano ultrapassou os limites da liberdade de informação e deu ordem para que o jornalista fosse expulso do Brasil.
Hoje, o ministro brasileiro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, anunciou a revogação da ordem de expulsão do jornalista, revelando que este – através de carta emitida pelos seus advogados - tinha garantido não ser sua intenção ofender o presidente ‘Lula’ e que lamentava qualquer mal que para ele tivesse resultado a partir do artigo que escreveu. O ministro disse que a carta constitui uma “retracção” e que, como tal, considera o assunto encerrado.
O “The New York Times” congratulou-se com a decisão do governo brasileiro mas garantiu que o seu correspondente não se retractou, ou pediu desculpa pelo artigo em causa. O jornal “Folha de São Paulo” publicou, na sua edição electrónica, a alegada carta expedida pelos advogados do jornalista. A carta é dirigida ao ministro de Estado e da Justiça e nela não existe, de facto, qualquer pedido de desculpa.
A carta pede ao destinatário que suspenda o cancelamento do visto do requerente, alegando que o mesmo é um jornalista premiado, que há 32 anos trabalha sobre a América Latina, e que este – citamos – “jamais (teve) a intenção de ofender a honra do Excelentíssimo Senhor Presidente da República” brasileira, acrescentando que o jornalista “lamenta” o “constrangimento” que “as repercussões e polémicas posteriores à reportagem” possam ter causado ao presidente ‘Lula’. Na missiva, o jornalista salienta ainda que a versão do seu texto traduzida para o português “não é fidedigna”, salientando que isso “pode ter causado a ampliação do mal entendido”.
Apesar de o termo em inglês (“sorry”) ser o mesmo, em português o “lamentar” e o “pedir desculpa” são dois conceitos distintos e facto é que o jornalista não pediu desculpa, apenas lamentou os efeitos que o seu trabalho possa ter tido, garantindo ainda que se limitou a veicular comentários, sem qualquer juízo de valor próprio, ou intenção de ofender o presidente brasileiro. O governo brasileiro demorou apenas um dia a decidir a favor do requerimento que ontem recebeu.
A situação é mais complexa que a simples reacção a uma notícia. Esta seria a primeira vez desde a ditadura militar (1964-85) que um jornalista seria expulso do Brasil. Muitos comentadores indicaram que o presidente ‘Lula’ poderia ter excedido os limites constitucionais ao tomar uma decisão precipitada em defesa da sua própria honra. A ordem de expulsão, suspensa por ordem de um tribunal, levantou mesmo uma discussão sobre a liberdade de imprensa no Brasil. Anular a ordem poderá ter sido uma solução diplomática, mas pode ter ferido a credibilidade da liderança presidencial. Como sublinhou a Ordem dos Advogados brasileiros, em comunicado, não se corrige um erro com outro erro.
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