Pode a escolha de um nome influenciar toda uma vida? Pode uma infância infeliz, marcada pelo abandono e pelos maus tratos, transformar uma criança num monstro sanguinário responsável pela morte de milhares de pessoas? No caso de Saddam Hussein, o antigo ditador iraquiano que agora responde em Tribunal por crimes contra a Humanidade, a resposta é claramente afirmativa.
Nascido em 1937 – a data precisa é desconhecida devido à inexistência de registos oficiais – numa pequena aldeia do norte do Iraque, Alaw-Awjaba, nos arredores de Tikrit, o ‘Leão de Bagdad’ teve um início de vida difícil. O pai, Hussein Abd al-Majid, morreu ainda antes de ele nascer. Poucas semanas depois, um cancro levou o outro filho do casal, de 12 anos. Abalada pelas duas perdas quase simultâneas, a mãe, Subha al-Mussallat, entrou em profunda depressão e chegou a correr pelas ruas com uma faca na mão a pedir para lhe matarem o ‘diabo’ que trazia no ventre. Se Saddam chegou a nascer pode agradecê-lo – ironia das ironias – a uma família judia que vivia na mesma rua e que socorreu Subha quando ela se tentou matar atirando-se para debaixo de um camião.
Quando o bebé nasceu, a mãe, num acto quase profético, decidiu chamar-lhe Saddam, que em árabe significa ‘aquele que enfrenta’. Foi o único gesto maternal que teve para com o filho recém-nascido. Logo de seguida entregou-o aos cuidados de um tio, Khairallah Talfah, oficial do Exército, fervente nacionalista árabe e admirador dos nazis, com quem Saddam viveu até aos três anos, altura em que o tio foi preso por envolvimento num golpe de Estado falhado. O pequeno Saddam regressou a casa da mãe, que entretanto voltara a casar, e foi forçado a conviver com três meio-irmãos e com os maus tratos do padrasto, que o espancava frequentemente. Em vez de ir à escola, passava os dias no campo com as cabras e era obrigado pelo padrasto a roubar galinhas para vender. O pesadelo durou até aos dez anos, altura em que fugiu de casa e foi viver com o tio, entretanto libertado da prisão.
Tudo indica que a brutalidade e o abandono a que foi votado em criança terão contribuído para a criação de uma personalidade sádica e vingativa. Não tardou muito para que fizesse correr sangue pela primeira vez. O seu físico imponente e a natureza violenta tinham feito dele um dos ‘homens de mão’ do Partido Baas, ao qual se juntara em 1955, e três anos depois foi encarregado do seu primeiro assassinato político: um militante comunista, que Saddam abateu friamente com um tiro na cabeça.
OBRIGADO A FUGIR
O crime levou-o, também pela primeira vez, à cadeia, mas foi libertado ao fim de seis meses por falta de provas. Logo recebe nova missão: assassinar o primeiro-ministro Abdel Karem Qassim. À frente de um comando de dez homens monta uma emboscada, a qual falha porque alguém – diz-se que o próprio Saddam – se enerva e dispara cedo demais. Na troca de tiros, Saddam é ferido numa perna mas consegue fugir. Conta a lenda que extraiu ele próprio a bala com uma lâmina de barbear antes de fugir para a Síria e daí para Egipto.
Sob a protecção do seu ídolo, o presidente Gamal Abdel Nasser – pioneiro do panarabismo, que Saddam mais tarde viria a adoptar como filosofia política –, junta-se à oposição no exílio e aproveita para estudar Direito na Universidade do Cairo.
Em 1963, um golpe de Estado liderado por Ahmed Hassan al-Bakr, alto dirigente do Baas e parente afastado de Saddam, derruba o governo de Qassim e Saddam regressa ao Iraque para se colocar ao serviço das novas autoridades. É encarregado da segurança interna do partido e trabalha como interrogador e torturador no infame ‘Palácio do Fim’, a cave do palácio do antigo rei Faisal II transformada em calabouço do regime, mas acaba por ser preso quando o novo governo é derrubado poucos meses depois.
Consegue escapar da prisão com a ajuda dos guardas e passa à clandestinidade, onde ajuda a organizar um novo golpe de Estado que repõe al-Bakr no poder. Nomeado vice-presidente do Comando do Conselho Revolucionário, Saddam começa meticulosamente a consolidar o seu poder, mandando eliminar inimigos e potenciais opositores, e rapidamente chega a vice-presidente.
Num relatório escrito em 1969, a embaixada britânica em Bagdad descreve Saddam como um “jovem apresentável, com um sorriso cativante”, embora “reservado”. “Formidável, teimoso e determinado, mas alguém com quem será possível negociar”, conclui o relatório.
REPRIMIR E MODERNIZAR
Com o Iraque profundamente dividido – sunitas contra xiitas, árabes contra curdos, chefes tribais contra comerciantes urbanos – Saddam percebequesóumprofundo desenvolvimento socioeconómico, aliado a uma dura política de repressão, poderá manter o país unido. Nacionaliza a indústria petrolífera, moderniza a economia e cria aquilo que de mais parecido existiu com um Estado-Providência no mundo árabe, com ensino gratuito até à universidade, serviços médicos grátis e subsídios à agricultura. Deu liberdade às mulheres e adoptou um sistema legal ocidentalizado, fazendo do Iraque o único país do Golfo não governado pela Sharia.
O desenvolvimento económico e social foi de tal dimensão que o Iraque chegou a importar mais de dois milhões de imigrantes para dar resposta à crescente oferta de emprego e o próprio Saddam recebeu um galardão da UNESCO como prémio de boa governação.
Há muito considerado o poder de facto no país, Saddam ‘convenceu’ al--Bakr a abdicar a seu favor em 1979, oficialmente por motivos de saúde – na verdade, Saddam pretendia travar os planos de al-Bakr para unir o Iraque à Síria, que afastariam o ‘Leão de Bagdad’ do poder num novo país dominado pelo próprio al-Bakr e pelo presidente sírio Hafez al-Assad.
O seu primeiro acto oficial como presidente foi reunir a cúpula do Baas e denunciar uma alegada conspiração. Um a um, foi lendo os nomes dos ‘conspiradores’, que iam sendo levados para fora da sala e executados. Terminada a lista, congratulou os poucos que restaram pela sua lealdade.
A revolução islâmica desse mesmo ano no vizinho Irão deixou Saddam preocupado devido à crescente influência de Khomeini entre os xiitas iraquianos. Uma série de disputas fronteiriças serviu de pretexto para a invasão do Irão, uma aventura militar apoiada pelos EUA que durou oito anos, custou mais de um milhão de vidas de ambos os lados e deixou as economias dos dois países em ruínas.
Sem dinheiro e com milhares de milhões de dólares em dívidas por pagar, Saddam começou a olhar com cobiça para o vizinho do lado, o pequeno Koweit, rico em petróleo. Convencido de que os EUA e a comunidade internacional – que tinham deliberadamente fechado os olhos ao uso de armas químicas durante a guerra com o Irão – iriam mais uma vez ficar em silêncio, invadiu o emirado.
Mais uma vez, enganou-se. Uma forte coligação internacional liderada pelos seus antigos aliados dos EUA expulsou as tropas iraquianas do Koweit e avançou pelo Iraque dentro em poucos dias. Obrigado a capitular e aceitar os termos impostos pelas Nações Unidas, incluindo um humilhante embargo, Saddam rapidamente recuperou e, fazendo jus ao seu nome, continuou a jogar ao gato e ao rato com o mundo por mais 12 anos. Ainda agora, sentado no banco dos réus, Saddam continua a ser ‘aquele que enfrenta’.
DO EXÍLIO AO PODER E À CADEIA
Nascido numa família camponesa, órfão de pai, foi rejeitado pela mãe e maltratado pelo padrasto. Viveu vários anos no exílio até regressar ao Iraque e iniciar uma rápida ascensão ao poder. Formado em Direito, mandou alterar a sua árvore genealógica para provar que era descendente do profeta Maomé e casou com três mulheres – duas delas depois de ‘convencer’ os respectivos maridos a pedirem o divórcio – das quais teve cinco filhos.
Liderou o Iraque com ‘mão de ferro’ durante mais de duas décadas, período durante o qual fomentou um enorme culto de personalidade. O seu ‘reinado’ chegou ao fim com a invasão liderada pelos EUA em 2003. Preso após vários meses em fuga, está a ser julgado por crimes de guerra.
DIREITO POR LINHAS TORTAS
Saddam Hussein só começou a ir à escola quando foi viver com o tio, aos dez anos, mas só aos 18 anos conseguiu completar o ensino primário. Era um aluno medíocre e quando chegou ao secundário estava mais interessado na política do que em estudar. Aproveitou o exílio no Cairo para começar a tirar o curso de Direito, mas só se formou em Bagdad, quando já era uma figura destacada no Baas.
Reza a lenda que, no dia do exame, apareceu fardado e pousou uma pistola sobre a secretária, ‘convencendo’ desta forma os professores. Aliás, o próprio facto de aparecer fardado é outras das farsas de Saddam: o ditador nunca foi à tropa. Foi recusado pela Academia Militar devido ao seu fraco registo académico, o que não o impediu de ostentar várias patentes militares ao longo da carreira e de comandar exércitos.
Foram, aliás, os seus erros estratégicos que ditaram em grande parte o autêntico desastre que foi a guerra com o Irão. Começou a guerra sem ter a ideia de como terminá-la, subestimou a determinação do inimigo e, ainda por cima, mandava fuzilar quem se atrevesse a contestar as suas ordens.
APANHADO NUM BURACO
Para um ditador habituado à opulência dos seus palácios, as circunstâncias em que foi capturado, a 14 de Dezembro de 2003, não poderiam ter sido mais humilhantes. Sujo, com a barba por fazer e o cabelo desgrenhado, estava escondido num buraco nos arredores de Tikrit, a pouco quilómetros do local onde nasceu. A versão oficial conta que, apesar de estar armado, não ofereceu resistência quando os soldados – alertados por um informador – chegaram para o prender.
As palavras de Paul Bremmer, o administrador norte-americano no Iraque, ao anunciar a captura – “Senhoras e senhores, apanhámo-lo” – ficaram para a História e foram profusamente repetidas nas televisões, rádios e jornais de todo o mundo, juntamente com as fotografias do ditador com ar alucinado e confuso. A humilhação seria repetida mais tarde, quando foram divulgadas fotos do ditador em cuecas. Um triste fim para alguém tão orgulhoso como Saddam.
VINGATIVO E SANGUINÁRIO
Saddam Hussein não perdoa e não esquece. Que o digam os habitantes de Dujail. Em 1982, horas depois de ter sido alvo de uma tentativa falhada de assassinato durante uma visita à pequena localidade a norte de Bagdad, as forças de segurança iraquianas entraram na aldeia, executaram mais de 140 pessoas e prenderam e torturaram mais de 1500 outras, incluindo mulheres e crianças. De seguida, incendiaram as casas e salgaram os campos para garantir que ninguém ali conseguia viver –– nada de mais para quem mandou gasear cinco mil curdos.
EX-DITADOR DESAFIA TRIBUNAL
Quem é você? O que está aqui a fazer? Alguma vez foi juiz antes? – (para o juiz).
Não responderei perante este tribunal – (sobre o julgamento).
Bush é um vilão, tudo isto é um teatro para a sua reeleição – (sobre o julgamento).
Porque é que não pega no martelo e bate com ele na sua cabeça? – (para o juiz).
Só regressei ao Koweit porque os koweitianos estavam a comprar mulheres iraquianas por dez dinares. Os koweitianos são uns cães – (sobre a invasão do Koweit).
Este é um tribunal americano com regras americanas. Você não pode forçar-me a permanecer no tribunal – (para o juiz).
Fui espancado em todas as partes do meu corpo e as marcas são visíveis – (denunciando maus tratos).
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