Dois casos marcam estes últimos dias da campanha para a eleição do presidente dos EUA: os explosivos desaparecidos no Iraque e os votos que ameaçam ser explosivos com um exército de milhares de advogados à porta dos locais de votação a questionarem legalmente se aquele ou aquela podem votar.
O caso dos explosivos teve outros desenvolvimentos: primeiro, uma pequena estação de Minneapolis, afiliada da ABC, e que tinha uma equipa que acompanhava uma unidade militar, mostrou um vídeo de 18 de Abril de 2003, em que militares americanos em al-Qaqaa inspeccionam caixas de explosivos que podiam ser os desaparecidos. Mas ontem ao princípio da tarde, aqui em Washington, Mark di Ritta, porta-voz do Pentágono, e o major Austin Pearson (que estava em Bagdad na altura e que tinha por missão o armazenamento de explosivos do Exército americano e ver as ameaças que podiam representar os explosivos inimigos que fossem sendo detectados), asseguraram que, na altura, a 13 de Abril, fizeram explodir ou tiraram de lá uma quantidade de explosivos estimada em 250 toneladas mas que não sabe se pertenciam às 380 toneladas de HMX e RDX que tinham sido selados em Março pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA).
Di Ritta mostrou vídeo de partes do campo seladas pela IAEA (um selo no portão preso por cabos) mas reconheceu que “ainda não estão estabelecidos todos os factos – conforme formos sabendo, daremos informações”. Ontem, nas suas primeiras acções de campanha do dia – Kerry em Palm Beach, na Florida, onde gastou o dia, Bush em Manchester, no New Hampshire, antes de voltar ao Ohio, – nenhum dos dois candidatos se referiu ao caso que está a pôr pressão na administração num tópico – Iraque – que era a grande fortaleza de Bush. Mas anteontem à noite, Kerry atacou: “o que podemos concluir é que os militares não tinham as instruções devidas, que eram de tomar conta dos explosivos. Isto não é maneira de fazer a guerra. Isto não é de um comandante-em-chefe preocupado com os seus homens”.
FLORIDA, DE NOVO
Pela mesma hora, Bush insistia, em Makefield, Pensilvânia, que Kerry “dirá qualquer coisa para ser eleito”. Mas a votação já decorre em 30 Estados e na Florida desapareceram 60 mil boletins de voto que deviam ter sido enviados atempadamente, enquanto no Ohio os republicanos dizem que há muitos registos errados. “Normalmente, quando há novos eleitores, mandamos uma carta a dizer bem-vindos, a pedir o voto, e este ano o que aconteceu é que em milhares de casos essas cartas tornaram ao remetente com a indicação que estas pessoas não vivem ali”, explicou um porta-voz dos republicanos. E os americanos começam a ficar preocupados com o sistema democrático, numa eleição que parece muito empatada, segundo todos os estudos de opinião.
Anteontem à noite, a CNN tinha em rodapé um título: “A democracia em risco”. Outro caso a criar alguma tensão é o de uma investigação lançada por um tribunal, depois do testemunho de uma engenheira do Pentágono, a propósito do contrato sem concurso que deu à Halliburton – que o vice-presidente Dick Cheney dirigiu entre 1995 e 2000, até se candidatar com Bush – todo o poder de tratar da reconstrução do Iraque. Ninguém se lembra de uma eleição tão explosiva.
COMÍCIO DE BUSH NA QUINTA
Ao princípio da noite de ontem em Lower Makefield, perto de Filadélfia (Estado da Pensylvânia) George Bush participou num comício numa quinta. A Broadmeadows Farm é uma enorme propriedade no Bucks County a que o Estado deu algum dinheiro para a preservar da especulação imobiliária, onde se criam vacas e se semeia milho.
Bush chegou de blusão cinzento – normalmente começa o dia de fato e acaba-o mais ‘casual’ – fez um discurso a repetir as suas mensagens e a atacar Kerry, meteu-se no avião e foi dormr à Casa Branca, a cerca de uma hora de voo, ou menos. A Pensilvânia é um dos Estados-dançarinos, que pode cair para um lado ou para o outro (Gore ganhou por pouco em 2000) e tem sido visitado por Bush e Kerry repetidamente nas últimas semanas. As medidas de segurança obrigaram a deixar o carro a mais de dois quilómetros de distância da quinta, o que o obrigou a passar pelo meio de uma contra-manifestação de cerca de uns 200 apoiantes de Kerry que gritavam palavras de ordem do género “Bush mentiu, os nossos soldados morreram”. Eram sobretudo jovens.
O recinto estava cheio – 23 mil pessoas, segundo os números oficiais – o que deixou a campanha de Bush satisfeita. O presidente subiu para um estrado enquadrado por um silo e um armazém decorados com as cores americanas e quando saiu teve um enorme fogo-de-artifício.
O senador republicano Rick Santorum fez um discurso a pedir o voto dos subúrbios de Filadélfia para ganhar o Estado e os votos eleitorais. A audiência tinha uma idade média elevada e Bush falou para eles: “Não se pode ser a favor do médico, a favor do doente e a favor do advogado pessoal que litiga pelas coisas mais pequenas, tudo ao mesmo tempo. O meu opositor fez esta escolha e pôs um advogado desses no seu ‘ticket’”, disse o presidente referindo-se a John Edwards, que fez a sua enorme fortuna como advogado litigante em casos médicos.
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