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Correio da Manhã

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Avaria faz avião voltar para trás

O avião C130 que ontem saiu de Lisboa rumo ao Haiti com mais de 30 elementos integrados na missão humanitária portuguesa voltou para trás devido a uma avaria no motor. "Um dos motores não estava a ter um desempenho de acordo com o planeado. Como medida de precaução, o piloto teve de regressar para analisar a extensão do problema", explicou ao CM o tenente-coronel Paulo Gonçalves, porta-voz da Força Aérea Portuguesa.
16 de Janeiro de 2010 às 00:30
A falta de estruturas organizadas atrasa a distribuição de ajuda humanitária
A falta de estruturas organizadas atrasa a distribuição de ajuda humanitária FOTO: Logan Abassi/Reuters

A avaria no avião, que tinha descolado do aeródromo militar de Figo Maduro pouco depois das 17h00, foi detectada três horas depois, numa altura em que o C130 se encontrava a voar entre Portugal e Cabo Verde, onde deveria fazer a primeira escala. Às 23h10, a aeronave aterrou na base aérea do Montijo e os passageiros e tripulantes saíram do avião para descansar.

De acordo com o porta-voz da Força Aérea, o avião iria seguir de imediato para a manutenção para ser vistoriado. O tenente-coronel Paulo Gonçalves adiantou ao CM que a missão poderá ainda durante esta manhã voltar a partir com destino ao Haiti.

A missão humanitária portuguesa era integrada por mais de 30 elementos: cinco médicos, cinco enfermeiros, quatro técnicos de ambulância, 12 elementos da Força Especial de Bombeiros, uma médica-legista, quatro elementos de comando e coordenação da Autoridade Nacional de Protecção Civil e um responsável pela logística dos elementos da AMI. No aparelho seguia também material de apoio, como tendas, casas de banho portáteis, chuveiros, lençóis, geradores, cobertores, kits de cozinha e kits de higiene pessoal.

Recorde-se que a operação foi montada em apenas 12 horas e envolvia um custo de cerca de 400 mil euros, que agora deverá aumentar: estava previsto gastar-se 200 mil euros em combustível e ordenados, enquanto a outra metade se destinava a equipamentos e ajuda humanitária. O C130 foi requisitado pelo Ministério da Defesa. Deveria ter partido na quinta-feira, mas só descolou ontem à tarde, acabando por regressar.

"MISSÃO ATÉ 22 DE JANEIRO"

O comandante Elíseo Oliveira, da Autoridade Nacional de Protecção Civil, é o chefe da missão de bombeiros que iam para o Haiti. Em declarações prestadas na base aérea de Figo Maduro, o responsável explicou que a missão portuguesa se vai fixar na capital do país, Port-au-Prince, e passará pela instalação de tendas para 750 deslocados: "A missão é para manter até dia 22 de Janeiro."

"ABSOLUTA DESCRIÇÃO"

A Assistência Médica Internacional (AMI) manda cinco técnicos na missão portuguesa para ajudar as vítimas do Haiti. José Luís Norte chefia estes operacionais e assegurou ontem aos jornalistas que o quadro a encontrar no país das Caraíbas "é de absoluta destruição". "O país não tem infra-estruturas, nem logística para fazer chegar ajuda às zonas mais remotas", explicou.

PORMENORES

MODERNIZAÇÃO

A Força Aérea tem-se batido com o poder político para que sejam desbloqueadas verbas para a modernização dos C130. O programa está adiado devido à não revisão da Lei de Programação Militar.

C130 DESDE 1956

O Lockheed C130 Hercules é um avião militar produzido desde 1956, um recorde de longevidade. A Força Aérea Portuguesa possui seis, que foram adquiridos em 1977.

MODELO MAIOR

O avião que ia para o Haiti é um modelo maior que o original, designado C130/H-30. O original tem 29,79 m de comprimento e o H-30 34,36 metros.

MORTOS USADOS COMO ARMA

Port-au-Prince, capital do Haiti, é, desde o sismo de terça-feira, uma ruína gigante onde o caos, o desespero e a fome estão a trazer ao de cima o melhor e o pior da natureza humana. Enquanto equipas de salvamento lutam contra o tempo para resgatar sobreviventes, cujos gritos se ouvem nos escombros, pessoas em desespero usam cadáveres para bloquear ruas e parar camiões de ajuda humanitária. Grupos de vândalos recorrem à mesma arma para montar barreiras e afastar a polícia de locais a saquear.

Há gritos sob as ruínas, crianças a dormir entre os mortos e muitas outras em risco de morrer de desidratação e fome. A ajuda enviada de todo o Mundo tarda a chegar à população e o desespero dá lugar à revolta. A violência estala sempre que são encontrados alimentos entre as ruínas. "Estamos à espera há três dias e ninguém fez nada por nós", afirmou Pierre Jackson, que sozinho trata da mãe e da irmã, gravemente feridas. Dezenas de sobreviventes usam as mãos para escavar os destroços. No país falta equipamento para remover os pesados blocos que impedem o acesso aos soterrados, e no aeroporto a falta de coordenação impede a descarga dos contentores de ajuda. Muitos aviões foram desviados para a Florida e Santo Domingo. "Sabemos que a situação está tensa", afirmou David Wimhurst, porta-voz da missão de paz da ONU, casado com uma portuguesa, acrescentando: "As pessoas estão fartas por não verem chegar ajuda."

DUAS CRIANÇAS SALVAS

Redjeson, de dois anos, passou dois dias soterrado enquanto os pais, torturados pelos gritos do menino, faziam tudo para chegar até ele. Ontem equipas belgas e espanholas encontraram-no ileso. No mesmo dia foi salvo um bebé de três meses.

SOBREVIVEU COM BOLACHAS

Até ao momento há registo de 55 pessoas encontradas vivas nas ruínas, entre elas Sarlah Chand, de 65 anos, e outras cinco pessoas, que passaram mais de 50 horas soterradas. Sarlah comia tranquilamente uma bolacha quando o socorro chegou.

MENINA NÃO RESISTE

Os salvadores nem sempre chegam a tempo. Haryssa Clerge, de nove anos, pediu ajuda durante dois dias. Amigos e vizinhos ouviam os gritos, mas nada puderam fazer. Quando as equipas de peritos chegaram depararam--se com um corpo inanimado.

NOTAS

EUA: DEZ MIL TROPAS

Até segunda-feira, estarão no Haiti cerca de dez mil soldados norte-americanos, que ajudarão a distribuir a ajuda e a evitar que a população se revolte. Ontem chegaram os primeiros militares

PT: SOLIDARIEDADE

A PT lançou uma Campanha de Solidariedade, na qual desafia os clientes a mobilizarem-se para ajudarem o Haiti. Basta uma chamada para 760 206 206, que custa 0,60 euros mais IVA

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