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Correio da Manhã

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Benazir assassinada em comício

Um bombista suicida matou ontem a líder da oposição paquistanesa Benazir Bhutto, de 54 anos, à saída de um comício em Rawalpindi, lançando uma negra incerteza sobre o país e a região. O atentado mereceu reacções violentas dos apoiantes do Partido do Povo do Paquistão (PPP), põe em risco as eleições legislativas de 8 de Janeiro e deixa o Mundo em choque com mais um acto bárbaro de terrorismo.
28 de Dezembro de 2007 às 00:00
“Ponho a minha vida em risco e venho aqui por sentir que o país está em perigo”, afirmou Bhutto durante o que seria o seu último acto político.
“Foi martirizada”, comentou Rehman Malik, do PPP. “O homem disparou primeiro sobre o veículo de Bhutto e depois fez-se explodir”, revelou uma fonte policial, acrescentando que a bomba do suicida matou pelo menos 20 pessoas. No hospital geral de Rawalpindi, onde Bhutto ainda foi assistida, os seus apoiantes partiram vidros e gritaram acusações ao presidente Pervez Musharraf. Na província de Sindh, sobretudo na capital, Carachi, de onde era natural a líder assassinada, apoiantes seus queimaram pneus e vandalizaram edifícios. Em Peshawar, no outro extremo do país, a polícia usou gás lacrimogéneo para dispersar uma manifestação contra o presidente e em Jacobabad, cidade do primeiro-ministro interino, Mohammedmian Soomro, edifícios público foram incendiados. Pelo menos 14 pessoas foram mortas a tiro durante os tumultos.
Musharraf, que durante seis semanas, até 15 de Dezembro, impôs um polémico estado de emergência, pode voltar a essa medida para controlar a onda de contestação e preservar a segurança do arsenal nuclear do país. O adiamento das eleições é igualmente esperado. Ontem o presidente apelou à calma, para “fazer fracassar as intenções diabólicas dos terroristas” e convocou uma reunião de emergência para avaliar as medidas a adoptar. A Polícia e Exército foram entretanto colocados em estado de alerta.
Horas antes do atentado, pelo menos quatro pessoas foram mortas num comício do também ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif. Adversário político de Bhutto, Sharif prometeu manter viva a sua luta. O seu partido vai boicotar as eleições, anunciou, instando Musharraf a demitir-se.
Recorde-se que Bhutto escapou a um atentado em 19 de Outubro, em Carachi, horas após o regresso do exílio. Nessa altura, como agora, muitos apontaram o dedo a homens da espionagem, mas Musharraf disse que teria firmado um acordo de partilha de poder. Esse acordo, à luz do qual Bhutto e outros antigos responsáveis políticos (como Sharif) com processos pendentes em tribunal foram amnistiados, foi entretanto rompido pela líder do PPP.
PERFIL
Benazir Bhutto nasceu em Carachi (1953), estudou em Oxford e Harvard e seguiu os passos do pai, Zulficar Ali Bhutto, acedendo à liderança do governo. Após a deposição e execução do pai por ordem do general Zia ul-Haq (1979) passou cinco anos detida e partiu para o exílio (1984). No regresso tornou-se a primeira mulher eleita para a chefia do governo num país islâmico (1988). Dois anos depois foi deposta por corrupção. Reeleita em 1993, é deposta pelos mesmos motivos em 1996. Exila-se em 1999 após o golpe militar de Pervez Musharraf. Regressou em Outubro, para salvar o país dos radicais, afirmou. Um primeiro atentado falhou, mas ontem os seus inimigos silenciaram-na.
UMA DEMOCRACIA FRÁGIL
1979
A seguir à invasão do Afeganistão, os EUA colocam no Paquistão, país vizinho, mecanismos de apoio à resistência 'mujahedin' na luta contra os soviéticos, na qual se integrou Osama bin Laden.
1985
O Congresso dos EUA aprova a Emenda Pressler, permitindo sanções ao Paquistão para forçar a paragem do seu programa nuclear militar. A administração de Ronald Reagan não consegue impôr as sanções.
1987
O Paquistão contrói a bomba nuclear mas não faz testes.
1988
A morte do ditador militar general Zia ul-Haq num acidente aéreo permite a regresso ao poder civil após 11 anos. Benazir Bhutto torna-se a primeira líder de governo eleita num país islâmico.
1990
O presidente George Bush (sénior) aplica sanções económicas por causa do programa nuclear.
1998
O Paquistão realiza um teste nuclear depois de a Índia fazer testes semelhantes. O presidente Bill Clinton impõe novas sanções.
1999
O general Pervez Musharraf toma o poder num golpe militar em sangue
2001
Após o 11 de Setembro, George W. Bush ameaça arrasar o Paquisão se Musharraf não apoiar a invasão norte-americana do Afeganistão.
2003
Musharraf desloca tropas paquistanesas para áreas tribais a fim de combater os fundamentalistas.
2007
As reopas ao longo da fronteira afegã são aumentadas para 90 mil
JULHO
Tropas especiais invadem a Mesquita Vermelha, em Islamabad, para esmagar um grupo fundamentalista. Nos quatro meses seguintes 800 pessoas morrem em violência radical.
OUTUBRO
Bhutto regressa ao Paquistão após oito anos de exílio. Um dia depois, em Carachi, a sua caravana é atacada por suicidas e cerca de 150 pessoas morrem.
NOVEMBRO
A sombra da guerra civil ameaça o Paquistão. Musharraf declara o estado de emergência.
DEZEMBRO
Um suicida ataca Bhuto a tiro em Rawalpindi, fazendo-se explodir de seguida e matando pelo menos 20 pessoas.
SOLTAS
REGRESSO DO MARIDO
O marido de Benazir Bhutto, Azif Zardari, chegou na noite de ontem a Islamabad para acompanhar o funeral da ex-primeira-ministra. Benazir será sepultada em Larkana, sul do país.
SEM MEDO
A antiga 1.ª ministra paquistanesa tinha afirmado há dois meses – numa crónica no diário francês ‘Le Figaro’ intitulada ‘Os assassinos não ganharão’ – que “já não tinha idade para se deixar intimidar por suicidas”, referindo-se ao atentado contra a sua vida no dia em que regressou ao Paquistão.
LUTO NACIONAL
O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, decretou três dias de luto nacional pela morte de Benazir Bhutto. O chefe de Estado expressou ainda determinação e “pediu a cooperação de toda a nação para eliminar os terroristas e extirpar as suas raízes”.
PRINCIPAIS ATENTADOS NA REGIÃO
A morte de Benazir Bhutto veio confirmar a tradição de atentados contra políticos em países do sub-continente indiano. Nos últimos 25 anos foram assassinados figuras como Indira Gandhi, a primeira-ministra indiana morta em 1984 pelos guarda-costas, o seu filho, o ex--primeiro-ministro Rajiv Gandhi, morto em 1991 por guerrilheiros tamil; Ranasinghe Premadasa, presidente do Sri Lanka, assassinado, em 1993 também pelo tamil; Lionel Dissanayake, líder da oposição do Sri Lanka e candidato presidencial que foi morto pelos tamil em 1994; ou ainda Chandrika Kumaratunga, a presidente do Sri Lanka foi gravemente ferida pelos tamil em 1999.
SAIBA MAIS
- 1947 é o ano da formação do Paquistão, país de maioria muçulmana, a partir da divisão do império britânico na Índia, de esmagadora maioria hindu.
- 6 é o lugar ocupado pelo Paquistão na lista dos países mais populosos do Mundo. Com quase 162 milhões de habitantes, é apenas superado pela China, Índia, EUA, Indonésia e Brasil.
FIMD E UMA DINASTIA
O assassínio de Benazir Bhutto consuma o fim de uma dinastia política marcada pela tragédia. O pai, Zulficar Ali Bhutto, foi executado em 1979 e os irmãos, Shahnawaz e Murtaza, foram assassinados, em 1985 e 1996.
NUCLEAR
O Paquistão é uma potência nuclear desde 1987. A rivalidade com a vizinha Índia, igualmente dotada de arsenal nuclear, fez temer o pior nos anos 90, quando os países exibiram as suas capacidades de forma ameaçadora em testes de bombas e mísseis.
REACÇÕES
GEORGE W. BUSH, PRESIDENTE DOS EUA
"O assassinato de Bhutto foi um acto cobarde. Os terroristas não matarão a democracia no Paquistão"
DURÃO BARROSO, PRESIDENTE DA CE
"Tratou-se de um ataque contra a democracia. Tratou-se de um ataque contra o Paquistão"
MANMOHAN SING, 1.º MINISTRO INDIANO
"A sua morte recorda-nos que a região enfrenta actos cobardes de terrorismo que temos de derrotar"
VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE RUSSO
"Mais um bárbaro acto de terrorismo que desafia toda a comunidade internacional "
BAN KI-MOON, SEC-GERAL DA ONU
"Tratou-se de um crime hediondo e um assalto à estabilidade do Paquistão"
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