A beatificação do cardeal John Henry Newman, anglicano convertido ao catolicismo no século XIX, coroou ontem, em Birmingham, a visita de quatro dias do Papa Bento XVI ao Reino Unido, mas a nota mais saliente da jornada foram as palavras dedicadas pelo Papa aos heróis britânicos que combateram "os horrores do nazismo".
"Para mim, que vivi e sofri os dias sombrios do regime nazi", afirmou, "é profundamente comovedor estar entre vós neste dia e recordar os vossos compatriotas que sacrificaram a vida com valentia para resistir às forças dessa ideologia do mal". O Santo Padre assinalou assim os 70 anos que ontem se cumpriam dos bombardeamentos alemães a cidades britânicas na Segunda Guerra Mundial.
Mas a homenagem serviu, simultaneamente, para responder às críticas que lhe foram endereçadas na manifestação de sábado, em Londres, na qual milhares de manifestantes ostentaram cartazes a insultar o ‘Papa nazi’.
Bento XVI centrou depois a sua homilia na figura e na vida de Newman, cuja beatificação foi o selo final de uma visita considerada pelo Vaticano "um grande êxito".
"Passou anos a visitar os doentes e os pobres", referiu o Santo Padre, elogiando o professor e teólogo por defender "o lugar vital da religião revelada na sociedade civil".
Refira-se que a beatificação de Newman é a primeira celebrada por Bento XVI, o que conferiu especial significado à cerimónia, realizada em missa campal em Cofton Park, perante mais de 50 mil fiéis.
As polémicas que rodearam a visita, criticada pelos gastos que implicou e pela alegada cumplicidade do Papa com os padres pedófilos, não ensombraram o sucesso dos encontros com a comunidade católica. "Não é tanto pelos números", frisou o porta-voz da Santa Sé, reconhecendo que não compareceram tantos peregrinos quanto o esperado aos eventos da visita, "mas pelo facto de a mensagem do Papa ter sido recebida com respeito e com alegria pelos fiéis".
"CRISTÃOS RIDICULARIZADOS"
A anteceder o último dia da sua visita de Estado de quatro dias ao Reino Unido, Bento XVI denunciou, no sábado, durante uma vigília de oração em Hyde Park, Londres, que os cristãos são hoje ridicularizados por uma sociedade ameaçada pelo relativismo moral e intelectual.
Naquele que foi o seu primeiro banho de multidão nesta deslocação, o Papa afirmou que o preço que os cristãos pagam pela fidelidade ao Evangelho "já não é serem enforcados ou esquartejados, mas sim excluídos e ridicularizados". "E, no entanto, a Igreja não pode subtrair--se à missão de anunciar Cristo e o seu Evangelho como verdade salvadora e fundamento de uma sociedade justa e humana", acrescentou.
Perante as 80 mil pessoas presentes na vigília motivada pela beatificação do cardeal John Henry Newman, o Sumo Pontífice aludiu à actual crise de fé e referiu que "ninguém que contemple com realismo o mundo de hoje pode pensar que os cristãos podem dar-se ao luxo de continuar a viver como se nada se passasse, ignorando a profunda crise de fé que impregna a nossa sociedade, ou confiando que o património de valores transmitido durante séculos de cristianismo continue a inspirar e a configurar o futuro".
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