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Bilhetes de despedida

O mais surpreendente de tudo é termos sobrevivido”, afirma ainda não totalmente refeito Joe Sharkey. O jornalista do ‘The New York Times’ estava a bordo ‘Legacy 600’, que na passada sexta-feira colidiu no ar com o Boeing 737-800, da Gal.
4 de Outubro de 2006 às 00:00
Familiares das vítimas vão chegando a Peixoto de Axevedo
Familiares das vítimas vão chegando a Peixoto de Axevedo FOTO: Fernando Bizerra/EPA
Ainda transtornado, conta os momentos terríveis que viveu. Adianta que a certa altura todos a bordo acreditaram que iam morrer e alguns decidiram escrever bilhetes de despedida para os seus entes mais queridos.
“Com o estore corrido, eu estava recostado numa das cadeiras de couro do jacto executivo de 25 milhões de dólares quando este sobrevoava a floresta amazónica a 37 000 pés de altitude. Estávamos sete a bordo e todos em silêncio. De repente, senti um fortíssimo solavanco e ouvi um estrondo ensurdecedor. Foi então que ouvi as três palavras que jamais esquecerei: “Fomos atingidos”. Era Henry Yandle, um dos passageiros, que estava junto ao cockpit e fazia a avaliação do que tinha acabado de suceder.
Sharkey ficou estupefacto: “Atingidos? Por que coisa?”. Narrando a sua experiência na primeira pessoa no ‘The New York Times’, o jornalista conta que levantou o estore para ver o que se passava. “O céu estava limpo e o sol a pôr-se. Reparei que havia alguma coisa rachada na asa.” O jornalista recorda que perguntou aos pilotos Joe Lepore e JanPaladino se era grave. “Não sabemos”, terão respondido.
“Surpreendentemente ninguém a bordo ficou em pânico. Mas à medida que os minutos passavam, o avião ia perdendo velocidade. A certa altura, acreditámos que íamos morrer. Como os telemóveis não funcionavam, alguns de nós escrevemos bilhetes às nossas mulheres ou familiares e colocámo-los nas carteiras, na esperança de irem parar às suas mãos. Afinal sobrevivemos. Foram os 30 minutos mais assustadores da minha vida”, conta Sharkey, que só horas depois de ter aterrado soube que tinha havido uma colisão com o Boeing 737-800, que se teria despenhado na selva amazónica com 155 a bordo.
CEM CORPOS
As investigações sobre a colisão ainda estão em curso, esperando-se que a comparação dos dados das caixas negras do Boeing com a do ‘Legacy’ possa trazer alguma luz, já que há várias dúvidas ainda por esclarecer.
Refira-se que os sete norte-americanos que iam a bordo do ‘Legacy’ já foram interrogados pela Polícia. Um Tribunal apreendeu os documentos dos dois pilotos.
Entretanto, no local onde caiu o avião, em Peixoto de Azevedo, prossegue a operação de recolha dos corpos. Na tarde de segunda-feira as equipas de resgate encontraram cerca de cem corpos junto à parte traseira do avião. Como ainda não foi feita a identificação das vítimas, não se sabe se entre os corpos encontrados está o do empresário português António José Armindo, que ia a bordo. Ontem foram descobertos os corpos do piloto e co-piloto do ‘Boeing’ na própria cabine do avião.
Refira-se que as autoridades admitem a possibilidade de não serem encontrados todos os corpos.
UMA SUCESSÃO DE ERROS
Uma sucessão de erros terá provocado o mais trágico acidente aéreo da história do Brasil, segundo o jornal ‘Folha de São Paulo’. Apesar de estarem identificados os erros no controlo aéreo e na comunicação por rádio, ainda não é possível apontar culpados.
O jacto ‘Legacy’, da Embraer, descolou de São José dos Campos (S. Paulo) rumo aos EUA. Segundo o plano de voo, o jacto deveria ter usado o corredor aéreo designado por UZ6 e baixar para 36 mil pés logo após a descolagem. Não foi isso que aconteceu. Ao passar por Brasília, os controladores aéreos deveriam ter entrado em contacto com o ‘Legacy’ para confirmar a redução do nível de voo. Também este procedimento não foi efectuado.
Quinze minutos depois da descolagem do ‘Legacy’, o radar de Brasília indicava apenas um ponto sem identificação, isto é, o transponder (antena que transmite os dados do avião) não funcionou ou o equipamento estava desligado. Um operador tentou contactar via rádio com o jacto. Em vão.
O avião poderia estar numa área conhecida por ‘buraco negro’ em que normalmente se verifica ‘blackout’ total. As dúvidas poderão ser esclarecidas pela caixa negra do ‘Legacy’ e pela comparação com as caixas negras do Boeing 737, encontradas na segunda-feira.
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