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Correio da Manhã

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BUSH APOSTA TUDO

A convenção republicana começa hoje na mais cosmopolita cidade dos EUA e uma das mais radicalmente anti-Bush. Mas, como alguns já notaram, o cenário de protestos de grupos representando minorias "esclarecidas" das mais variadas índoles pode beneficiar os republicanos, ao dar à "América profunda" a impressão de que Nova Iorque, uma cidade "sem Deus", está contra o seu presidente e, por extensão, contra os seus valores.
30 de Agosto de 2004 às 00:00
As manifestações anti-Bush concentram as atenções em Nova Iorque, onde decorre a convenção
As manifestações anti-Bush concentram as atenções em Nova Iorque, onde decorre a convenção FOTO: Andrew Combert/EPA
George W. Bush beneficia ainda do efeito teatral de uma convenção realizada na cidade que há três anos sofreu o mais rude golpe de sempre, ao ser atacada no seu coração por suicidas impiedosos. A proximidade do terceiro aniversário do 11 de Setembro determinou, aliás, a escolha da cidade para o evento e quadra na perfeição com o lema da Convenção: "Cumprir a promessa da América: construir um Mundo mais seguro e uma América mais optimista".
Com este cenário de fundo, o presidente dos EUA entrará no Madison Square Garden na quarta-feira - último dia da reunião republicana, que formalizará a sua recandidatura - aureolado com o prestígio de, para o bem e para o mal, ter agido em defesa dos EUA e ter moldado o Mundo segundo as suas convicções. Perante isto, e apesar dos desaires da guerra no Iraque, o seu adversário democrata, John Kerry, pode surgir aos olhos dos americanos como um arrivista, defensor de valores de uma elite culta. Acresce que, no que diz respeito ao Iraque, e apesar das críticas a Bush, não apresentou um plano alternativo, e neste momento já não interessa aos americanos saber se a guerra foi mal iniciada, mas sim como pode ser terminada.
Para dar tom ao que se segue, Nova Iorque acordou ontem com os preparativos de uma imensa manifestação anti-Bush na qual, segundo os organizadores, participaram mais de 250 mil pessoas. Proibidos de reunir no Central Park, os manifestantes planearam um desfile pela Sétima Avenida, com passagem junto ao Garden, onde hoje reúnem os mais de 2500 delegados e cerca de 50 mil militantes e simpatizantes republicanos. "Diz não à economia de guerra", ou "Bush mentiu, milhares morreram", foram algumas frases exibidas em coloridos estandartes.
Talvez mais do que aos republicanos, as manifestações deixam apreensivos os democratas, que temem ser associados a actos violentos e a manifestantes radicais, sejam eles ambientalistas, defensores do aborto ou da comunidade "gay".
O imenso dispositivo policial - quase 40 mil agentes fortemente armados - entrou já em acção e prendeu mais de 300 pessoas no fim-de-semana, depois de sexta-feira prender também dois bombistas que planeavam rebentar uma estação de metro. As autoridades afirmam não haver relação entre os detidos e a al-Qaeda, mas o clima de tensão foi aumentado com a notícia. Quando Bush chegar, estará ao rubro, e os republicanos podem acabar beneficiados com isso.
OS PROTAGONISTAS DOS QUATRO DIAS DA REUNIÃO REPUBLICANA
HERÓI DO 11 DE SETEMBRO
O primeiro dia será marcado pelo discurso de Rudolf Giuliani. O antigo ‘mayor’ de Nova Iorque simboliza a reacção ao 11 de Setembro e, por extensão, o orgulho da América ferida.
O SONHO AMERICANO
A política interna é o tema da segunda jornada. Os ‘louvores’ a Bush têm ponto alto na alocução de Arnold Schwarzenegger, emigrante austríaco que realizou o ‘sonho americano’.
O ROSTO OCULTO DO PODER
O vice-presidente, Dick Cheney, é o homem-forte do terceiro dia. Dele se espera que defenda os pontos-chave da política interna e externa da administração Bush, na qual é o n.º2.
UMA GUERRA DE SUCESSO?
Bush chega no dia de fecho para ser “coroado” candidato oficial republicano à presidência. Espera-se que resuma a política externa afirmando que a guerra ao terror está a resultar.
FACTOS E NÚMEROS
A ‘CATEDRAL’
Madison Square Garden, pavilhão de Nova Iorque com capacidade para quase 20 mil espectadores. Situado na Oitava Avenida, é um imenso complexo que alberga ainda estações de camionagem, metro, e um terminal de caminhos-de-ferro.
50 MIL VÃO APOIAR
Para além dos 2509 delegados republicanos que votarão formalmente a nomeação de Bush como candidato do partido, são esperados cerca de 50 mil filiados e simpatizantes republicanos.
18 MIL QUARTOS
O aparato da organização exigiu a reserva de mais de 18 mil quartos em 40 hotéis da cidade. Para auxiliar o aparelho do partido estima-se que tenham contribuído com os seus serviços 15 mil voluntários.
150 MILHÕES DE CUSTOS
Os números exactos são sempre ocultados, mas as estimativas do ‘NYC Host Committee’ apontam para um investimento de 91 milhões de dólares. Há ainda a contabilizar os custos da segurança, estimados em 15 milhões de dólares por dia, ou seja, cerca de 60 milhões para os quatro dias da Convenção.
MILHARES CONTESTAM
A polícia emitiu autorizações para 29 manifestações, que vão desde o desfile de ontem, que terá reunido 250 mil pessoas, até uma vigília junto ao local da Convenção, na qual deverão participar apenas 40 pessoas. Grupos de defesa do aborto, activistas de direitos dos homossexuais, sindicatos e outros grupos anti-Bush integram os protestos autorizados.
40 MIL POLÍCIAS
O aparelho mobilizado não tem precedentes, ultrapassando mesmo os cuidados adoptados aquando do primeiro aniversário do 11 de Setembro. Quase 40 mil agentes da Polícia estão convocados, devendo 10 mil ficar junto do local da reunião e os restantes distribuídos por pontos-chave de Nova Iorque. Sete helicópteros e 26 lanchas farão patrulhas, enquanto na busca de bombas colaborarão 181 cães treinados para a detecção de explosivos.
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