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Correio da Manhã

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BUSH, O AFRICANO

George W. Bush iniciou esta terça-feira uma viagem de cinco dias por cinco países africanos. O presidente norte-americano fez-se anunciar em África com o envio de uma unidade militar para a Libéria, na véspera, e na ‘bagagem’ levou consigo um milionário programa de combate à SIDA em África e a promessa de que, a partir de agora, ninguém pode duvidar do seu interesse no Continente Negro... sobretudo os eleitores afro-americanos.
8 de Julho de 2003 às 16:19
Bush, na Ilha Goree, olha o mar, na direcção que tomaram inúmeros escravos a caminho da América.
Bush, na Ilha Goree, olha o mar, na direcção que tomaram inúmeros escravos a caminho da América. FOTO: d.r.
Bush lançou a sua campanha africana na semana passada, quando convidou o presidente da Libéria, Charles Taylor, a demitir-se, revelando estar a ponderar o envio de uma força militar norte-americana de estabilização para aquele país africano. No domingo, Taylor aceitou uma oferta nigeriana de asilo, mas insistiu em como vai permanecer no cargo até que chegue à Libéria uma força internacional de paz. Ontem, 20 militares norte-americanos, com equipamento completo de combate, chegaram de helicóptero à Embaixada dos EUA na capital da Libéria, Monrovia. A sua missão é avaliar as condições no terreno. No mesmo dia , Bush abria nos corredores políticos em Washington a polémica sobre um programa federal de apoio a crianças desfavorecidas. O presidente ameaçou retirar o financiamento a esse programa: “Não gastamos dinheiro em boas intenções, gastamos dinheiro para ver resultados”, declarou Bush.
Em teoria, este princípio de consciência orçamental deve acompanhar Bush em África, mas os resultados devem ser apurados nos EUA, mais que em África, onde a execução de projectos é sempre uma incógnita. Segundo alguns analistas políticos, Bush tem como principal objectivo nesta viagem africana seduzir os eleitores afro-americanos com vista às eleições presidenciais do próximo ano. De acordo com esta teoria, a contagem desses votos constituirá o resultado do ‘dinheiro que Bush vai agora gastar em África’.
‘O DEFEITO DE NASCIMENTO DA AMÉRICA’
Em escassos cinco dias, Bush vai visitar o Senegal, a África do Sul, o Botswana, o Uganda e a Nigéria. O presidente norte-americano – o segundo a visitar África em primeiro mandato – chegou esta manhã a Dacar, capital do Senegal, onde manteve curtas conversações com dirigentes locais. Ponto alto desta visita, que durou apenas algumas horas, foi o discurso proferido na Ilha Goree, entreposto de tráfico humano durante a escravatura, um dos principais pontos de partida de escravos para o continente americano. Esperava-se que Bush pedisse desculpa pelo passado esclavagista norte-americano – “o defeito de nascimento da América”, como lhe chamou a conselheira nacional de segurança norte-americana, Condoleezza Rice – mas o presidente não foi tão longe. Bush disse que, naquele local, a liberdade e a vida foram roubadas, considerou a escravatura como um dos maiores crimes da História e até referiu que a luta dos negros pelos direitos cívicos nos EUA constitui um importante despertar da consciência na nação norte-americana... mas não pediu desculpa.
Bush viajou pouco depois para a África do Sul, onde dá início à segunda etapa desta sua viagem relâmpago. Em solo sul-africano, Bush vai promover o fortalecimento dos laços económicos bilaterais, mas não vai avistar-se com Nelson Mandela, talvez, o mais importante e carismático de todos os líderes africanos. Mandela teceu-lhe duras críticas pela guerra no Iraque e ficou de fora da agenda de Bush, optando até por se ausentar da África do Sul enquanto dura a vista do presidente Bush.
15 MIL MILHÕES CONTRA A SIDA
Da África do Sul Bush viaja para a chamada África profunda, com paragens em países menos desenvolvidos, terminando na Nigéria, onde havia uma ameaça de greve geral – já desconvocada – que não o incomodava. “Se for preciso, faço a minha cama no hotel”, comentou Bush. Os homens do presidente apresentam esta viagem como uma iniciativa estratégica, destinada a promover o desenvolvimento em terrenos onde a pobreza e as crenças religiosas podem facilitar a entrada de organizações terroristas. Bush vai promover os laços comerciais com os países que visita, vai discursar sobre os méritos da democracia e vai anunciar dois programas principais: uma iniciativa para combater o terrorismo na África Oriental, financiada com 100 milhões de dólares, e um ambicioso programa de combate à SIDA em África, avaliado em 15 mil milhões de dólares, para gastar em cinco anos, mas cuja totalidade ainda não está alocada pelo Congresso dos EUA.
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