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Caça-pedófilos relata horror

Até tropeçar em três nomes fictícios que circulavam pelos canais mais secretos da internet, Luis acreditava que já tinha visto tudo. “Qualquer investigação que chega a esta brigada e, especialmente, ao grupo de combate à pornografia infantil de que sou chefe, é, por sua própria natureza, horripilante, mas a de ‘Nanysex’, ‘Todd’ e ‘Aza’, que eram os ‘nicks’ que o trio utilizava na ‘net’ para distribuir os seus vídeos, foi ainda mais longe.”
31 de Maio de 2005 às 00:00
Um dos suspeitos, Eduardo Sánchez Moraques, quando era detido pelas autoridades espanholas
Um dos suspeitos, Eduardo Sánchez Moraques, quando era detido pelas autoridades espanholas FOTO: Albert Olive/EPA
Foi desta forma que Luis, o agente-chefe da brigada da Polícia espanhola que desmantelou, na sequência da ‘operação Kova’, a mais terrível rede de pedófilos, começou por contar ao jornal ‘El Mundo’ a inesquecível experiência por que passou.
“Ver que neles apareciam bebés provocava, desde logo, inquietação. Tudo o que vinha depois, não tem nome. Até a imagem supostamente mais banal, como um homem com um menino nos braços, fazia com que imediatamente viesse à mente um turbilhão com as piores cenas possíveis. Até então, jamais me havia passado pela cabeça que sobre uma criatura de meses, por exemplo, se cometessem esses abusos... Sim, emocionalmente, esta investigação tocou-me. A todos nós.” Luis é um tipo duro, mas todos têm os seus limites. Por exemplo, Isidoro, o decano do grupo comandado por Luis, assistiu aos principais interrogatórios e ficou marcado, pelo que ouviu e, sobretudo, pelo que viu. Não é ‘prato’ apetecido para nenhum polícia, por mais calejado que esteja, encontrar um menino de carne e osso que até então era uma imagem difusa num vídeo para o desfrute de pervertidos. Ele teve que fazê-lo e falar também com os pais. São já nove as vítimas identificadas. É a conta do horror infantil que o Isidoro teve de escutar do próprio ‘verdugo’. Ouviu o principal arguido, Alvaro Iglesias, de 22 anos, que utilizava os nomes de ‘Nanysex’ e ‘Kova’ – nome por que que ficaria conhecida a operação –, queixar-se que o seu colega capturado em Ourense gostava de meninos maiores de “oito ou nove anos”. Ele, pelo contrário, queria-os “menores de três”.
CRIANÇAS ATÉ CINCO ANOS
Numa das mensagens interceptadas pelos agentes, em inglês bastante defeituoso, lia-se: ‘Tenho filmes particulares só com bebés de zero a cinco anos. Interessa-lhe? Contacte-me para fazer negócio...’. Mas o cerco aos pedófilos foi-se apertando.
Dois anos à frente do grupo de combate à pornografia infantil bastaram a Luis, de 46 anos, pai de duas filhas de oito e 15 anos, para conhecer o tipo de pessoas que enfrenta. Para não ir mais longe, refira-se o caso do próprio Alvaro Iglesias, que gravou, em 1999, o seu primeiro vídeo. A vítima era um pequeno de três anos. Sentou-o nas suas pernas e apalpou-o, enquanto se masturbava. Já em 2004, ele e ‘Todd’, de 23 anos, sodomizaram um bebé com menos de dois.
DESCANSAM APÓS ALGEMADOS
Curioso é observar os violadores de crianças quando são detidos. “Como reagem ao verem-se capturados? Muitas vezes com alívio. Os pedófilos estão sempre em alerta, sabendo que a polícia os pode deter a qualquer momento. E parece que descansam ao verem-se algemados. Não é que o verbalizem, mas vê-se-lhes na cara”, concluiu Luis, que já pode dormir descansado. Tranquilo com o que viu, é que não. Seguramente...
GRITOS DAS VÍTIMAS NA MEMÓRIA
A operação concluída na semana passada contra a mais extensa rede de pornografia infantil descoberta em Espanha deixou marcas profundas nos oito agentes da Brigada de Investigação Tecnológica da Polícia.
Foram quatro meses de investigações. No último, ninguém trabalhou menos de 12 a 14 horas diárias. Tudo começou em Fevereiro, com pistas soltas que conduziam a ‘Nanysex’, destacando-se quatro fotografias enviadas do Canadá pela Interpol face a suspeitas de que pudessem ter sido tiradas em Espanha. Entre os caça-pedófilos também há ‘baixas’, abandonos. “Tivemos um colega que pediu transferência. Os outros aprenderam a abstrair-se. Não há outra forma. Como esquecer os gritos das vítimas? É necessário distanciamento e concentração”, afirma Luis. Alguns dos seus subordinados tiveram que examinar até cinco mil fotos ‘nauseabundas’ de sexo com menores para poder desmascarar um pedófilo oculto.
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