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Correio da Manhã

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CADA VEZ MAIS IRANIANOS ESCOLHEM MUDAR DE SEXO

Amir, de 29 anos, é iraniano e tem toda a aparência masculina: ombros largos, braços musculados, barba negra cerrada voz grossa. Mas Amir nasceu mulher. Há quatro anos fez uma operação que iria mudar a sua vida para sempre: de mulher passou a homem. E tudo em Teerão, capital do repressivo Irão. Algo está a mudar no país dos ‘ayatollahs’.
23 de Agosto de 2004 às 00:00
Após decadas de repressão, alguma coisa parece estar a mudar no profundamente conservador Irão
Após decadas de repressão, alguma coisa parece estar a mudar no profundamente conservador Irão FOTO: Raheb Homavandi/Reuters
Depois de décadas de repressão, o governo islâmico está finalmente a aceitar casos de pessoas que querem mudar de sexo e está a encaminhá-las para que realizem operações e obtenham uma nova certidão de nascimento.
E assim, Amir – que pediu para que não fosse publicado o seu nome completo – já fez 20 cirurgias e aguarda por mais quatro. Enquanto mulher foi casada duas vezes e foi o seu último marido que a ajudou na transição, permanecendo seu amigo. Agora, já homem, está noivo de uma mulher.
“Eu gosto muito de viver e estou muito feliz, desde que ninguém saiba da minha vida passada”, disse Amir ao jornal ‘The New York Times’. “Ninguém me tem ajudado mais que o juiz que assinou a permissão para a minha operação, que já foi clérigo”, afirma.
OPERAÇÕES CARAS
Maryam Molkara é uma defensora dos direitos dos transexuais, ela que já foi um homem chamado Fereydoon. Em 1978, tentou fazer as primeiras operações mas, naquele tempo, não tinha dinheiro para se aventurar numa intervenção clandestina. O governo só o autorizou a mudar de sexo em 1986, mas dinheiro era coisa que não abundava para Fereydoon, que só em 1997 seria operado, em Banguecoque. Em Teerão, a cirurgia inicial de mudança de sexo de homem para mulher, custa perto de 4000 euros.
Antes da Revolução Islâmica de 1979 não havia nenhuma protecção política que resguardasse os transexuais. Só aqueles que tinham dinheiro e influências conseguiam obter o tratamento médico adequado e os papéis com a sua nova identidade. Para dificultar ainda mais, o novo governo religioso classificou transexuais e travestis como ‘gays’ e lésbicas, e condenou-os às chicotadas previstas no novo código penal.
Mas essa mentalidade já está a mudar e, actualmente, alguns clérigos chegam a recomendar a cirurgia àqueles que comprovem o seu desconforto com o próprio corpo. A questão foi mesmo discutida numa conferência em Teerão, em Junho, que reuniu representantes de outros países do Golfo Pérsico.
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