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Correio da Manhã

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Caos reina na capital

A crise na Quirguízia entrou ontem num crescendo de violência que causou a morte a pelo menos três pessoas, levando o Parlamento a pedir ao líder da revolta, Kourmanbek Bakiev, a imposição do recolher obrigatório em Bishkek. O presidente deposto, Askar Akayev, quebrou, entretanto, o silêncio para acusar a oposição de ter realizado “um golpe de Estado” e prometer o seu regresso ao país.
26 de Março de 2005 às 00:00
Durante a noite, o caos instalou-se na capital, com multidões de desordeiros a saquear lojas e centros comerciais e a incendiar viaturas e edifícios. Três mortos e centenas de feridos é o balanço provisório desta maré de violência suscitada pelo vazio de poder provocado pela revolução em curso.
O Parlamento solicitou, por isso, a Bakiev, presidente autonomeado, a imposição do recolher obrigatório e a colocação de tropas de prevenção para evitar o alastrar da violência.
Akayev quebrou o silêncio para responder à autoproclamação de Bakiev, que afirmou aos seus apoiantes ter sido indigitado pelo Parlamento como novo presidente e primeiro-ministro.
“Os rumores sobre a minha resignação são mentiras deliberadas”, afirmou o presidente deposto numa mensagem colocada num ‘site’ da internet, na qual garante ainda que a sua permanência no estrangeiro “é temporária”.
PUTIN TENTA NÃO PERDER O PÉ
Recorde-se que Akayev fugiu do país depois de um levantamento popular encenado pela oposição, após uma semana de manifestações violentas suscitadas pelos resultados das eleições legislativas de Fevereiro e Março, consideradas fraudulentas.
O presidente russo, Vladimir Putin, – a braços com uma acentuada perda de influência nas antigas repúblicas soviéticas, manifestada pelas revoluções na Geórgia e na Ucrânia – criticou a revolta na Quirguízia, considerando-a “ilegal”, mas manifestou disponibilidade para colaborar com o novo poder.
Bakiev, por seu lado, tranquilizou o Kremlin, garantindo que é sua intenção manter “excelentes” relações com a Rússia. “Penso que as nossas relações bilaterais terão um excelente desenvolvimento. Os investimentos russos serão sempre bem-vindos”, afirmou.
A União Europeia, por seu lado, instou os cidadãos a evitar a violência e a restaurar a lei e a ordem. O apelo foi veiculado por Javier Solana, chefe da diplomacia europeia.
Num tom bem menos moderado pronunciou-se o grupo socialista do Parlamento Europeu, que saudou a revolução e instou a UE a colaborar na consolidação “do processo democrático”.
GUERRAS DE PODER NOS BASTIDORES
A revolução na Quirguízia, país com pouco mais de cinco milhões de habitantes, integra-se num movimento de revolta nas antigas repúblicas soviéticas que já levou a reformas na Geórgia, Ucrânia e Moldávia. Segundo alguns, as ‘revoluções populares’ nestes países são fomentadas pelo Ocidente, interessado em disputar o tradicional espaço de influência da ex-União Soviética.
Mas há, no caso da Quirguízia, outros factores de pressão tão ou mais importantes que este.
De facto, situado na zona mais pobre e mais povoada da Ásia Central, o país é solo fértil para grupos de tráfico de droga e de armas, sendo ainda um espaço disputado por grupos radicais islâmicos. Este aspecto é considerado decisivo por alguns analistas, que apontam o risco de conflitos étnicos entre a minoria uzbeque e a maioria quirguize. É, aliás, entre os uzbeques que o extremismo islâmico tem maior implantação, estando por detrás dos violentos confrontos étnicos que no início dos anos 90 fizeram centenas de mortos na cidade de Osh.
Quanto aos traficantes, são grandes beneficiários da situação de caos que se vive, sendo de crer que fomentem o prolongamento da instabilidade política.
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