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Caos total em Díli

Pelo segundo dia consecutivo, grupos de civis armados, ou militares à paisana, segundo algumas fontes, semearam o pânico na capital timorense. Os últimos números dão conta de pelo menos uma dezena de feridos nos últimos actos de violência. As autoridades militares afirmam ter identificado os líderes de dois desses grupos, que segundo alguns foram armados pelas próprias Falintil-Forças de Defesa de Timor Leste (F-FDTL).
28 de Maio de 2006 às 00:00
Grupos de civis armados dominam as ruas da capital. Saqueiam e queimam  casas. Forças australianas são barreira precária para deter a barbárie
Grupos de civis armados dominam as ruas da capital. Saqueiam e queimam casas. Forças australianas são barreira precária para deter a barbárie FOTO: Adrees Lafif, Reuters
Os militares afirmam que Oan Kiak e Gil Taekwondo lideram dois grupos de vândalos, armados com armas automáticas, e acusam-nos de responsabilidade pelas tentativas de assalto, na sexta-feira, ao Palácio das Cinzas, residência oficial do presidente Xanana Gusmão, e às instalações da ONU. Em alguns pontos da cidade eram ontem bem visíveis os sinais da violência, com colunas de fumo a sair de casas em bairros como Pité e Balide, no sopé das montanhas a sul e sudoeste de Díli.
A persistência dos ataques a civis levou o presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos-Horta, a enviar para Pité elementos da força especial de Polícia, encarregada da segurança de Xanana. A situação de extrema violêncial que se vive em Díli levou ainda o Hospital Nacional Guido Valadares a solicitar segurança, sendo agora guardado por 30 soldados australianos. António Caleres, director do hospital, fixou em mais de dez o número de feridos dos recontros de ontem.
Refira-se que, em declarações ao Correio da Manhã, Ramos-Horta, afirmou ter cerca de 300 pessoas, na maioria mulheres e crianças, refugiadas em sua casa, nos arredores de Díli.
Entretanto, as tropas australianas afirmam ter desarmado 50 civis de um grupo de 150 que, com machetes, tentavam chegar ao Hotel Timor, em Díli, quando aí fazia uma conferência de Imprensa Mari Alkatiri. Paralelamente, outros quatro indivíduos com catanas foram surpreendidos e desarmados por elementos dos GOE (Grupo de Operações Especiais da PSP) no bairro da Vila Verde, onde estão alojados os professores portugueses.
PORTUGUESES COMEÇAM A SAIR
Os primeiros 15 portugueses a deixar Timor-Leste desde o início dos confrontos saíram ontem de Díli para Darwin, na Austrália, num transporte facilitado pelo Governo português, afirmou fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O Governo “continua a não fazer um apelo para que os portugueses saiam, mas tem todas as condições criadas para que, os que querem sair, o façam”, assegurou a mesma fonte. Os portugueses que ontem saíram “fizeram-no, a seu pedido” e o grupo inclui, pelo menos, uma criança, segundo a fonte.
Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, afirmou ontem, em Viena, que “sem uma crise institucional aberta, não há razão para accionar um plano de evacuação” dos portugueses em Timor. À entrada para a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, Freitas do Amaral admitiu, no entanto, activar este plano, “se a situação evoluir para uma crise institucional grave”. Refira-se que em Timor-Leste estão actualmente cerca de 600 portugueses.
"TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO"
O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, avisou ontem para uma tentativa de golpe de Estado. Durante uma conferência de Imprensa realizada num hotel da capital timorense, Díli, Alkatiri referiu confiar que o presidente Xanana Gusmão “não deixará de respeitar a Constituição que jurou cumprir”. No entanto, considerou que “está em marcha uma tentativa de golpe de Estado”, que garantiu, no entanto, não envolver Xanana. Contudo, afirmou desconhecer os responsáveis.
Alkatiri propôs ainda a convocação urgente do Conselho de Estado e do Conselho Superior de Defesa e Segurança de Timor-Leste. Xanana aceitou, segundo o ministro Timorense dos Negócios Estrangeiros, Ramos-Horta. Os dois órgãos consultivos do presidente da República deverão reunir amanhã, após o qual Xanana, que tem estado em silêncio, falará ao país.
FREITAS ACUSA AUSTRÁLIA
O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Diogo Freitas do Amaral, acusou ontem o governo australiano de “ingerência nos assuntos internos” de Timor-Leste. Freitas do Amaral reagia às declarações do primeiro-ministro australiano, John Howard, que apontou a existência de “um problema significativo de governação” em Timor. “Considero uma ingerência nos assuntos internos de Timor-Leste e, pela nossa parte, discordamos desse tipo de declarações por parte de países estrangeiros”, afirmou Freitas.
NOTAS
GNR CHEGA HOJE
Os três oficiais que vão preparar a chegada dos 120 militares da GNR devem aterrar hoje em Díli, vindos de Bali, na Indonésia.
CARÊNCIA ALIMENTAR
Organizações humanitárias alertam para indícios de carências alimentares em Timor, onde existem milhares de deslocados.
ANARQUIA MILITAR
O coronel português Fernando Reis, na missão da ONU, atribui ao “descontrolo militar” grande parte dos confrontos.
ENVIADO DE ANNAN
O enviado especial da ONU a Timor-Leste, Ian Martin, chega amanhã a Díli para tentar avaliar a situação política no país.
UE APELA AO DIÁLOGO
A União Europeia vai apelar ao fim da violência e ao diálogo numa declaração política que está a ser ultimada em Viena.
XANANA FALA AMANHÃ
O presidente Xanana Gusmão vai dirigir-se amanhã à Nação após as reuniões do Conselho de Estado e Conselho de Segurança.
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