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Cessar-fogo é prioridade

A cessação imediata das hostilidades no Líbano é o principal objectivo da reunião que hoje juntará em Roma os representantes de 14 países e instituições internacionais, mas um consenso parece, à partida, difícil de alcançar. Se existe unanimidade quanto à necessidade do envio de uma força multinacional de interposição para o Sul do Líbano, o mesmo não se pode dizer em relação aos moldes em que será aplicado um eventual cessar-fogo, com Israel e os EUA a continuarem a insistir na libertação prévia dos dois militares judaicos sequestrados pela guerrilha e no recuo do Hezbollah para longe da fronteira.
26 de Julho de 2006 às 00:00
Militares israelitas exibem uma bandeira do Hezbollah capturada
Militares israelitas exibem uma bandeira do Hezbollah capturada FOTO: Ronen Zvulun, Reuters
Quer o país anfitrião do encontro, a Itália, quer os países árabes presentes, incluindo o Líbano, já fizeram saber que vão fazer pressão para tentar obter um cessar-fogo imediato, mas essa determinação irá decerto esbarrar na posição dos EUA, que alinha com Israel na exigência de retirada do Hezbollah e devolução dos dois soldados israelitas capturados no passado dia 12 como condição prévia para qualquer trégua.
A secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice, que ontem se reuniu em Telavive com o primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, pretende que no encontro de Roma seja discutida não apenas uma solução a curto prazo, mas também que sejam delineadas as linhas-mestras daquilo que afirma que será “o novo Médio Oriente”. “Uma solução duradoura será aquela que reforçar as forças da paz e democracia na região”, afirmou ontem, num claro recado ao Hezbollah e aos seus ‘patronos’, a Síria e o Irão.
Israel, que não foi convidado a estar presente em Roma, espera que da reunião saia uma clara condenação do Hezbollah como ‘grupo terrorista’, designação que não reúne consenso entre os países europeus.
Outros assuntos em cima da mesa da cimeira – no qual o Vaticano foi convidado a estar presente – serão a assistência humanitária aos refugiados libaneses e, em terceiro lugar na lista de prioridades, a criação de uma força multinacional de interposição, para a formação da qual vários países, incluindo Portugal, já manifestaram vontade de contribuir.
Israel disse ontem que essa força deverá envolver entre dez a 20 mil homens e levar cerca de duas semanas a seguir para o terreno, isto partindo do princípio de que existe um acordo de cessar-fogo. E é aqui que reside a principal dificuldade, já que nem Israel nem o Hezbollah parecem dispostos a recuar nas condições que impuseram para aceitar uma trégua.
FAIXA DE SEGURANÇA
O ministro israelita da Defesa, Amir Peretz, anunciou ontem que Israel pretende ocupar uma ‘zona de segurança’ de três a quatro quilómetros de largura junto à fronteira e mantê-la até à chegada da força multinacional, para proteger as suas forças e a zona norte de Israel dos ataques do Hezbollah. Telavive anunciou ainda a abertura de um corredor aéreo humanitário para permitir o envio de ajuda urgente para o Líbano.
ISRAEL CERCA 'CENTRO DO TERROR'
Tropas e tanques israelitas estavam ontem envolvidos em violentos combates com guerrilheiros do Hezbollah na aldeia de Bint Jbeil, considerada por Israel como a principal base da guerrilha no Sul do Líbano. O Exército israelita afirma ter abatido entre 20 a 30 guerrilheiros nos últimos combates e adiantou que o objectivo da ofensiva é expulsar o Hezbollah da localidade, a quatro quilómetros da fronteira. Com a intensificação das movimentações com vista a um cessar-fogo, Israel intensificou também os bombardeamentos, atingindo vários alvos nos arredores de Beirute e matando pelo menos 12 civis. O Hezbollah disparou 16 rockets contra Haifa, ferindo cinco pessoas.
RIADE ALERTA PARA 'GUERRA REGIONAL'
O rei Abdullah da Arábia Saudita afirmou ontem que a “arrogância israelita” ameaça mergulhar todo o Médio Oriente numa “guerra regional”. Numa declaração extremamente dura para um dos principais aliados dos EUA na região, o monarca saudita alerta que “se a opção da paz falhar” não haverá outra solução “senão a guerra”, num comentário que foi interpretado como uma forma de pressão sobre Washington para travar os ataques de Israel e alcançar um cessar-fogo.
Já o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que “quem colhe ventos semeia tempestades” e avisou que “um enorme furacão varrerá todo o Médio Oriente” se não for encontrada uma solução para o conflito.
MOVIMENTO PORTUGUÊS DE APOIO
A delegada-geral da Palestina em Portugal, embaixadora Randa Nabulsi, voltou a defender um caminho para a paz no Médio Oriente, ontem na sessão da apresentação do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), na Sociedade de Língua Portuguesa, em Lisboa.
O MPPM é uma associação não-partidária, de solidariedade internacional, que visa promover, no plano da opinião pública, a criação nos territórios da Palestina ocupados por Israel, um estado da Palestina, independente e soberano, segundo um comunicado do movimento.
O DRAMA DO MENINO PORTUGUÊS
O pequeno Nahdi Kansoun, filho da portuguesa Pamela Lopes da Silva – recém-regressada a Lisboa na sequência da ofensiva no Líbano –, não vê a hora de reeencontrar a mãe, o que poderá acontecer já hoje, em Paris.
Nahdi, de apenas seis anos e também ele português, ficou separado da família quando começou a guerra. Na sexta-feira, Pamela voltou a Lisboa na companhia de duas filhas e de uma avó, mas sem Nahdi. A criança foi transportada do Sul do Líbano para Beirute e estava ontem prestes a deixar a capital, a bordo de um ‘ferry’ com destino a Chipre, de onde seguirá para França. Informações posteriores davam conta de que Pamela deveria partir, ainda ontem, rumo a Paris, onde reencontrará o filho, hoje ou amanhã.
A desafortunada criança, que tem estado ao cuidado de uma cidadã francesa, encontrava-se num mosteiro, com outros franceses. Mas o drama do corajoso Nahdi, que diz não ter sentido medo da guerra, pode ter hoje um fim, quando a mãe, por fim, o abraçar. “Estou cheia de saudades e não vejo a hora de o ter nos braços”, afirmou Pamela, acrescentando que se preparava para viajar para Paris, onde se dará o feliz reencontro. “Ainda não tenho bilhete, mas a assistente social contratada pelo Governo português está a tentar arranjar um voo”, afirmou, acrescentando que deverá reencontrar o filho hoje ou amanhã e trazê-lo consigo para Lisboa.
NOTAS
EGELAND ACUSA
O secretário-geral adjunto da ONU para as questões humanitárias acusou o Hezbollah de se misturar cobardemente entre civis libaneses.
MÉDICOS EM GAZA ALERTAM
Os Médicos do Mundo denunciaram que Israel está a utilizar em Gaza armamento que provoca feridas diferentes causadas por armas convencionais.
RÚSSIA APELA À SÍRIA
Moscovo pediu à Síria que não use mísseis russos para retaliar se for atacado por Israel. Note-se que Síria tem mísseis mais sofisticados.
PERES E A OFENSIVA
A ofensiva no Líbano “é uma questão de vida ou de morte”, declarou o vice-primeiro-ministro israelita.”Seremos nós ou o Hezbollah”.
CONCENTRAÇÃO EM LISBOA
O Conselho Português para a Paz e Cooperação convocou uma concentração para hoje em frente à embaixada de Israel em Lisboa pelas 18H30.
DOIS MILHÕES DE CRIANÇAS
Segundo a ONU, dois milhões de crianças morreram en conflitos nos últimos 10 anos, enquanto desenas de milhares de outras tiveram de abandonar as casas.
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