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Correio da Manhã

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Chefe do MI5 alerta britânicos

Num raro discurso público, a chefe dos Serviços Secretos britânicos deu a conhecer a actividade terrorista que a organização tem sob mira para que os seus conterrâneos se convençam de que a ameaça existe, é grave e está a crescer e que, apesar dos esforços e do incremento dos meios, não será possível investigar todos as suspeitas. Contrariamente ao que é habitual, Eliza Manningham-Buller, de 58 anos, avançou pormenores, esclarecendo que o MI5, em coordenação com a Polícia, está a investigar mais de 1600 suspeitos, que estarão a preparar actos terroristas no Reino Unido e noutros países. E adverte: “No futuro eles poderão usar agentes químicos, bacteriológicos, materiais radioactivos e tecnologia nuclear.”
11 de Novembro de 2006 às 00:00
“Não falo enquanto figura política nem como estudiosa, mas sim como alguém que tem servido nos Serviços Secretos há 32 anos. Que não haja dúvidas sobre isto: o terrorismo internacional neste país não é novo. Ele começou antes de Iraque, antes do Afeganistão e antes de 11 de Setembro”, começou por dizer a chefe dos Serviços Secretos britânicos perante uma pequena audiência em Londres, fazendo questão de recordar que desde os atentados de Londres, em Julho de 2005, foram frustrados cinco conspirações, que salvaram centenas ou mesmo milhares de vidas.
Falando num tom franco, que aliás é característica sua – na escola a sua frontalidade valeu-lhe a alcunha de ‘a intimadora’ –, Eliza Manningham-Buller alertou que a actual ameaça terrorista “irá perdurar uma geração” e que, apesar do rápido crescimento dos serviços que dirige (50% desde 11/9), não será possível investigar um número suficiente de actividades terroristas.
Conhecida pela sua qualidade de guardar segredos – durante a sua carreira integrou o hiper-restrito círculo de pessoas que sabiam os segredos mais bem guardados da Grã-Bretanha, como por exemplo quem eram os agentes duplos na altura da Guerra Fria –, a ‘dama de ferro’ dos Serviços Secretos fez, no entanto, questão de revelar que o MI5 tem conhecimento de cerca de 30 ameaças terroristas, grande parte das quais relacionadas com grupos ligados à al-Qaeda no Paquistão. E avisa: “O alvo não é só o Reino Unido. Os terroristas têm na mira outros países, desde Espanha a França, passando por Canadá e Alemanha.”
Motivações
Com o estilo professoral que lhe ficou dos tempos em que deu aulas na prestigiada Queen’s Gate School antes de ter sido recrutada para o MI5, Buller referiu-se ainda à preocupante radicalização de crescente número de jovens muçulmanos. “Os meus serviços precisam de compreender as motivações subjacentes ao terrorismo para serem bem sucedidos a combatê-lo. Os extremistas são motivados pelo sentimento de injustiça contra os muçulmanos e interpretam a política externa como sendo antimuçulmana”, concluiu, alertando que é preciso compreender o estilo de vida ocidental e não ocidental.
PERFIL
Elizabeth Lydia Manningham-Buller nasceu em 1948 e estudou no prestigiado colégio feminino Benenden, onde foi contemporânea da princesa Ana. É casada com David – cujo apelido nunca foi revelado por razões de segurança –, que tem cinco filhos de um anterior casamento. O seu pai, ‘sir’ Reginald, foi procurador-geral e ministro das Finanças nos governos de Harold Macmillan e Alec Douglas-Home. A mãe treinava pombos-correio para levar mensagens durante a II Guerra. Foi condecorada Dame em 2005. Faz questão de fazer o jantar aos domingos.
EM DESTAQUE
BLAIR SUBSCREVE
D primeiro-ministro britânico subscreveu o discurso da chefe do MI5. “Há anos que digo que a ameaça terrorista é real, que tem vindo a crescer. Tony Blair adianta que concorda que ela perdurará uma geração.
SECRETA CRESCEU
Desde os atentados de 11 de Setembro o MI5 cresceu 50% em recursos humanos. Por volta de 2008 terá o dobro do que tem hoje, mas o trabalho também terá aumentado nessa proporção.
OPÇÕES DIÁRIAS
Todas as semanas, o MI5, em coordenação com a Polícia, tem de decidir a que investigações vai dar prioridade. A nível quotidiano tem de tomar decisões sobre como aplicar os recursos ou que telefones deve pôr sob escuta. Em alguns casos, faz-se vigilância 24 horas por dia.
RADICALIZAÇÃO
Especialistas em terrorismo internacional reunidos num seminário em Madrid alertam sobre o aumento da radicalização de muçulmanos entre os 16 e os 25 anos devido à propaganda terrorista na internet e advertem que é preciso reagir a ela.
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