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Correio da Manhã

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CIENTISTAS FRANCESES EM GUERRA

Mais de dois mil cientistas do sector público francês apresentaram, esta terça-feira, a sua demissão como protesto contra a redução do orçamento para a investigação científica, que consideraram ser uma “asfixia financeira”.
9 de Março de 2004 às 17:43
Os cientistas reuniram-se hoje, em assembleia magna, num hotel em Paris, para debater a escassez de fundos estatais concedidos à investigação. Durante o plenário, segundo relata o jornal "Le Monde", os patrões de laboratórios propuseram a demissão dos responsáveis das suas equipas e submeteram à apreciação dos presentes um boletim de voto secreto. Mais de dois mil cientistas (976 directores de unidade e 1.110 chefes de equipa) votaram pela demissão, anunciou o porta-voz da associação francesa Salvemos a Investigação, Alain Trautmann.
O primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, anunciou no passado sábado que seria fornecida uma ajuda suplementar de três mil milhões de euros para a investigação até 2007 e que iria desbloquear créditos imediatos no valor de 300 milhões de euros. "Se esses três mil milhões se concretizassem, ficaríamos muito contentes", disse ontem Alain Trautmann. Mas os cientistas entenderam a oferta como a reformulação de uma promessa antiga que nunca se materializou (a oferta para investigação de 3% do PIB francês, garantida em 2000 pelo presidente Jacques Chirac), pelo que entenderam não valorizar o anúncio de Raffarin.
Além dos cortes orçamentais, os cientistas contestam também as reduções de pessoal, as condições de trabalho, os salários baixos, e o facto de serem apenas concedidos contratos a prazo aos estudantes de ciências em início de carreira. Os cortes no financiamento chegaram a atingir os 85 por cento em alguns sectores, obrigando ao encerramento de diversos laboratórios.
Sem que a recente oferta de Raffarin tivesse tido o efeito apaziguador desejado pelo primeiro-ministro francês, os cientistas responderam com a mobilização para uma luta que, na prática, vai paralisar a investigação científica em França. Os cientistas marcaram já uma manifestação para o próximo dia 19, criaram uma espécie de Estados Gerais, para acompanhamento contínuo da situação, e enviaram uma carta de apelo a Jacques Chirac.
No vazio ficam as palavras de Raffarin que, antecipando-se à declaração de luta por parte dos cientistas, disse, em entrevista a um jornal, que demissões nada resolvem e acusou a Oposição parlamentar de instrumentalizar o sector com vista às eleições regionais de 21 e 28 deste mês.
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