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Cimeira entre Biden e Erdogan entre a desconfiança e a aproximação

Irão, a Síria e o Nagorno-Karabakh vão ser temas de topo na reunião que o Presidente dos EUA, Joe Biden, mantém segunda-feira com o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan.
Lusa 12 de Junho de 2021 às 11:19
Joe Biden
Joe Biden FOTO: Getty Images
O Irão, a Síria e o Nagorno-Karabakh vão ser temas de topo na reunião que o Presidente dos EUA, Joe Biden, mantém segunda-feira com o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, à margem da cimeira da NATO em Bruxelas.

Um encontro "amplo e extenso", como sugeriu no início desta semana Jake Sullivan, assessor de segurança nacional da Casa Branca, durante uma conferência de imprensa em Washington, e uma "oportunidade" para rever as relações bilaterais.

Os líderes dos dois maiores exércitos da NATO vão encontrar-se pela primeira vez pessoalmente desde a tomada de posse de Biden em janeiro passado, mas o seu primeiro contacto, por telefone, não foi auspicioso e confirmou os momentos de tensão que ambos mantiveram nos últimos anos, para além das divergências que se têm acumulado entre estes dois tradicionais aliados.

Biden esperou até abril para telefonar a Erdogan pela primeira vez na qualidade de Presidente, após a renhida eleição presidencial de novembro de 2020 em que acabou por derrotar Donald Trump, que não garantiu a renovação do mandato.

Nesse contacto, Biden informou o líder turco que iria reconhecer formalmente que as mortes sistemáticas de deportações de centenas de milhares de arménios pelo Império otomano no decurso da I Guerra Mundial eram "genocídio", um termo para as atrocidades e que os seus antecessores na Casa Branca evitaram durante décadas, receosos pela reação da aliada Turquia.

Apesar de manter uma política externa que tem colidido com a estratégia norte-americana, incluindo as relações com a Rússia, com o Irão e com a causa palestiniana -- em 17 de maio, e na sequência dos intensos ataques israelitas à Faixa de Gaza, Erdogan acusou Biden ser ter "sangue nas mãos" por apoiar Israel --, a diplomacia turca também emitiu recentes sinais de viragem, com as tentativas de reaproximação do Egito do general Al-Sissi, e à Arábia Saudita do príncipe herdeiro Bin Salman, dois rivais regionais.

A função que a Turquia poderá desempenhar para impulsionar as negociações e a diplomacia no Afeganistão, onde os Estados Unidos e a NATO prosseguem até setembro a retirada das suas tropas após 20 anos de intervenção militar, também deverá ser abordada pelos dois líderes.

O recente conflito em torno do enclave do Nagorno-Karabakh entre a Arménia e o Azerbaijão, um aliado da Turquia, e as negociações sobre o programa nuclear do Irão, e um eventual regresso dos EUA ao acordo de 2015, serão outros temas em análise.

No entanto, uma das questões mais sensíveis do encontro, como sugeriu Sullivan, consistirá na abordagem das principais diferenças entre os EUA e a Turquia em torno dos "valores e direitos humanos".

Estas declarações sugerem que a eleição de Joe Biden para a presidência poderá implicar um "endurecimento" nas relações turco-norte-americanas, e quando Erdogan também se confronta no plano interno com um crescente isolamento, tendo como único aliado os ultranacionalistas do Partido ação nacionalista (MHP) para as decisivas eleições de 2023.

No atual contexto, o Presidente turco pode recear que a política norte-americana no Médio Oriente se torne agora mais incómoda para Ancara face à protagonizada por Donald Trump.

Uma das primeiras medidas de Joe Biden foi designar Brett McGrurk conselheiro da Casa Branca para o Médio Oriente. Em 2015, McGrurk era o supervisor da coligação militar internacional na Síria, mas demitiu-se do cargo em 2018 após a decisão de Donald Trump de retirar as tropas norte-americanas da Síria, permitindo que o exército turco atacasse os curdos. O seu regresso à ribalta não agradou a Ancara.

Diversos analistas também têm assinalado que o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o partido no poder na Turquia e liderado por Erdogan, não manifestou particular entusiasmo pela vitória de Biden, e o chefe de Estado turco foi um dos últimos líderes a enviar-lhe uma mensagem de felicitações.

Para mais, a família de Trump e de Erdogan mantinham relações comerciais, e o próprio Trump possui interesses económicos pessoais na Turquia, com dois enormes edifícios em Istambul.

Erdogan receia agora que o Biden não lhe permita efetuar novas operações militares da Síria, no Iraque, na Líbia ou no Nagorno-Karabakh, após o novo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, ter declarado numa mensagem que Washington estaria do lado "dos cipriotas, dos gregos e dos curdos", também numa alusão às tensões no Mediterrâneo Oriental pelo controlo de recursos energéticos.

No caso da Síria, a "parceria" entre os EUA e os curdos sírios enfureceu Erdogan, que começou a jogar a "cartada" da Rússia contra Washington. Após a sua aproximação a Moscovo, que permitiu as intervenções turcas na Síria, e a compra do sistema de defesa antiaéreo russo SS-400, muito criticada pelos norte-americanos que retaliaram a nível militar, o líder turco necessita de um reequilíbrio nas suas relações com estas duas superpotências, e iniciou uma nova aproximação ao Ocidente.

Esta recente estratégia pode significar que a aliança da Turquia com os EUA na NATO permanecerá determinante, mesmo que a intervenção turca na Síria apenas tenha sido possível com a autorização da Rússia.

Nesse devastado país do Médio Oriente, em guerra desde 2011, o objetivo estratégico de Ancara consiste em impedir que os curdos sírios estabeleçam um "corredor" que una os seus territórios no norte da Síria.

Neste aspeto, diversos analistas têm sublinhado que o cálculo de Erdogan é simples: se melhorar um pouco a relação entre a Turquia e a Rússia, poderá fazer "chantagem" com os Estados Unidos e a União Europeia devido à importância geoestratégica do seu país, mesmo que não se preveja que Erdogan deixe "cair" os EUA em favor da Rússia

A confirmação dos sinais de reaproximação entre Washington e Ancara poderá assim constituir um dos resultados deste encontro bilateral, na sequência da primeira viagem internacional de Biden desde que assumiu o cargo.

O Presidente dos EUA iniciou este périplo na quarta-feira (vai prolongar-se até quinta-feira da próxima semana), com a primeira etapa na Cornualha (Reino Unido) onde participou na reunião do G7, seguindo-se a reunião da NATO em Bruxelas e um encontro com o homólogo russo, Vladimir Putin, em Genebra.

Para além da reunião bilateral prevista com Erdogan, o Presidente dos EUA também se reuniu na quinta-feira com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

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