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Correio da Manhã

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Criador da política brasileira de combate ao coronavírus demite-se do Ministério da Saúde

Medidas que criou permitiram ao SNS brasileiro preparar-se para receber milhares de infetados por covid-19, mas Bolsonaro sempre atacou as suas opções.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 25 de Maio de 2020 às 14:25
Secretário de Estado de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira
Secretário de Estado de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira FOTO: Getty Images

O secretário de Estado de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, deixa esta segunda-feira o Ministério da Saúde brasileiro por discordância insuperável com as ordens do presidente Jair Bolsonaro sobre o combate à pandemia de Coronavírus. Wanderson, um epidemiologista reconhecido internacionalmente, estava há 16 anos no Ministério da Saúde e foi o braço-direito do ex-ministro da pasta Luiz Henrique Mandetta, demitido em 17 de Abril por Bolsonaro por contrariar a posição do presidente quanto ao fim do isolamento social e do uso de Cloroquina como formas de combater o Coronavírus.

O secretário, que já tinha apresentado demissão no final da gestão de Mandetta mas aceitou ficar no cargo temporariamente para ajudar o novo ministro, Nelson Teich, que também se demitiu dias atrás, foi o criador da política brasileira de combate à pandemia que deu tão certo até Bolsonaro tomar o Ministério da Saúde de assalto e nomear para a pasta mais de duas dezenas de militares sem qualquer experiência na área. Wanderson desenvolveu uma política de Saúde baseada em soluções não farmacológicas e no distanciamento social como principais formas de reduzir o ritmo de propagação do Coronavírus no Brasil.

Essa política deu muito certo e permitiu ao SUS, Sistema Único de Saúde, o equivalente no Brasil ao SNS português, preparar-se minimamente para receber os milhares de infectados pela Covid-19, apesar dos ataques cerrados de Jair Bolsonaro a essas orientações, principalmente às medidas de quarentena adoptadas por governadores e autarcas por todo o país. Após a saída de Luiz Henrique Mandetta, e, um mês depois, de Nelson Teich, a curva de propagação do Coronavírus teve uma ascensão descontrolada, e as mortes diárias, que no tempo de Mandeta raramente chegavam às 200, passaram para mais de mil a cada periodo de 24 horas, levando os hospitais públicos ao colapso e custando muitas vidas de cidadãos inocentes.

Formado em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil, Wanderson de Oliveira fez doutorado na área em famosas universidades dos EUA e da Europa e tornou-se um dos mais respeitados especialistas brasileiros no combate a grandes epidemias. Apesar da permanente falta de recursos na área da Saúde e do gigantismo do Brasil, o agora ex-secretário de Estado de Vigilância em Saúde já tinha conseguido excelentes resultados no controle das epidemias de h1n1, de Zika e de Chigungunya que assolaram o Brasil na última década, e estava a alcançar resultados muito positivos também com o Coronavírus, mas considerou que não dava para continuar a lutar quando o próprio presidente da República boicota o trabalho que ele e toda a esforçada equipa do ministério faziam.

Com a propagação do Coronavírus totalmente fora de controle, e com os militares que agora controlam a pasta sem saberem o que fazer, o Brasil ultrapassou este domingo a marca de 350 mil infectados por Covid-19, chegando a mais de 360 mil casos e tornando o país o segundo do mundo com mais registos. O número de mortes confirmadas pela doença também disparou, aproximando-se este domingo das 23 mil.
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