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CRISE NA LIDERANÇA PALESTINIANA

O primeiro-ministro palestiniano, Mahmoud Abbas, cancelou esta terça-feira uma reunião com o seu homólogo israelita, Ariel Sharon, justificando a sua decisão com uma crise política interna. Horas antes, uma explosão matou duas pessoas na vila israelita de Yabetz, fazendo tremer ainda mais a aplicação do Roteiro da Paz.
8 de Julho de 2003 às 15:01
A posição de Mahmoud Abbas na liderança palestiniana está comprometida
A posição de Mahmoud Abbas na liderança palestiniana está comprometida FOTO: d.r.
A explosão ocorreu de madrugada, numa vila israelita muito próxima da fronteira com o território autónomo palestiniano da Cisjordânia. A deflagração destruiu por completo uma casa, matando o homem e a mulher que estavam no interior, e feriu três crianças na casa ao lado. As autoridades israelitas começaram por avançar como teoria de causa uma eventual fuga de gás, mas quando descobriram que as vítimas mortais eram uma mulher israelita e um homem palestiniano colocaram a hipótese de se tratar de um atentado suicida.
A confirmar-se a hipótese de atentado, não deixa de ser um ataque muito atípico, mais facilmente justificado pela deflagração acidental de uma bomba a ser fabricada, ou por razões mais pessoais que políticas. Ainda assim, começou de imediato a circular a notícia de que um movimento palestiniano tinha reivindicado o suposto ataque, o que o grupo já negou. O porta-voz do primeiro-ministro israelita aproveitou também para declarar que as tréguas assinadas pelos palestinianos nada valem, colocando pressão política na aplicação do Roteiro da Paz.
ABBAS AMEAÇA DEMITIR-SE
Como se não bastassem os efeitos da desconfiança mútua e endémica e das pressões políticas colocadas sobre os planos de paz, a posição do primeiro-ministro Mahmoud Abbas na liderança palestiniana ficou ontem comprometida, depois de acesas discussões numa reunião do Comité Central da Fatah, facção do presidente Yasser Arafat na Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e onde Abbas tem assento.
Esta crise acaba por constituir a mais séria ameaça ao processo de paz, uma vez que Abbas é o interlocutor palestiniano aceite por Sharon. E o primeiro-ministro israelita poderá aproveitar a eventual demissão do seu homólogo palestiniano para declarar nulos os esforços de paz. Ainda por cima, os problemas de Abbas estão directamente relacionados com as negociações de paz com os israelitas.
Durante a reunião do Comité Central da Fatah, ontem à noite, Abbas foi duramente criticado por alguns delegados, que contestaram a sua estratégia de negociações com os israelitas. Os desentendimentos foram de tal forma agudas que resultaram em discussões aos gritos e levaram Abbas a entregar duas cartas a Arafat. Na primeira carta, Abbas pede demissão do seu cargo no Comité Central da Fatah. Na segunda, pede ao presidente e ao comité que lhe dêem instruções claras sobre como negociar com os israelitas, ressalvando que se demite do cargo de primeiro-ministro caso não concorde com as instruções recebidas.
Em consequência desta crise interna, que poderá mesmo provocar a sua demissão da chefia de governo, Abbas cancelou a reunião prevista para hoje com Sharon e não inventou desculpas politicamente correctas, justificando o cancelamento com a crise interna criada durante a reunião do Comité Central da Fatah.
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