Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
8

CRÍTICAS INADMISSÍVEIS

O presidente russo Vladimir Putin considerou ontem “inadmissíveis” as críticas da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) à forma como decorreram as eleições na Ucrânia, e lembrou que não se podem tirar conclusões enquanto não forem publicados os resultados oficiais.
24 de Novembro de 2004 às 00:00
Putin, que falava em Lisboa durante uma curta visita oficial ao nosso país, apelou ainda à calma naquele país e frisou que a situação tem que ser resolvida no campo da legalidade e do direito.
“Os observadores da OSCE têm de ter mais cuidado e responsabilidade no seu trabalho”, afirmou o presidente da Federação Russa após um encontro com o primeiro-ministro português, Pedro Santana Lopes, na residência oficial de São Bento. Frisando que cabe à Comissão Eleitoral ucraniana validar os resultados eleitorais – o que ainda não foi feito – Putin lembrou que “não podemos reconhecer nem protestar” enquanto isso não acontecer, e criticou a OSCE pela sua tomada de posição, que considerou “inadmissível”.
“Se alguém continuar a tentar utilizar a OSCE como instrumento da sua política, essa organização, infelizmente, continuará a perder autoridade e prestígio internacionais”, afirmou o presidente russo, que criticou ainda a forma como a disputa eleitoral ucraniana foi referida no Ocidente – como um confronto entre “o candidato pró-russo e o candidato pró-ocidental”. “Pintar o mundo a duas cores é uma forma primitiva de o ver”, alertou o presidente russo, que apelou as todos os envolvidos no processo eleitoral para que mantenham a situação “no campo da legalidade”.
Refira-se que os EUA exortaram Kiev a não aceitar os resultados até serem investigadas as acusações de fraude.
APROFUNDAR LAÇOS
Nesta sua curta passagem por Portugal – chegou ao final da manhã e partiu à noite – Putin esteve reunido com o primeiro-ministro Santana Lopes e com o presidente Jorge Sampaio, tendo em ambos os encontros manifestado a vontade de aprofundar os laços bilaterais, intenção que encontrou total receptividade por parte dos dirigentes nacionais. As relações Rússia-UE, o combate ao terrorismo e a situação no Iraque e no Médio Oriente foram outros dos assuntos em cima da mesa, tendo Sampaio sublinhado o importante papel da Rússia como garante de estabilidade na Europa e na Ásia.
Recorde-se que Putin cancelou a sua visita no ano passado devido ao sequestro no teatro Dubrovka.
SECRETISMO NA SEGURANÇA
“Não há interesse em revelar pormenores sobre aquilo que a PSP está a fazer para garantir a segurança do presidente da Rússia”. Foi desta forma que uma fonte oficial da Direcção Nacional da PSP se pronunciou sobre a visita a Lisboa de Vladimir Putin.
A necessidade de “preservar o secretismo da operação”, está, ao que referiu o mesmo informador, na base desta atitude. De facto, o CM apurou, junto de outras fontes policiais, que a deslocação do presidente russo a solo nacional mereceu da PSP um “forte empenhamento operacional”.
Para além de elementos do Corpo de Segurança Pessoal, especializado na protecção a altos dignitários estrangeiras, a PSP destacou cerca de 50 agentes da Divisão de Trânsito que, das 10h00 às 23h00 de ontem, abriram caminho à caravana presidencial de Putin. Com o intuito de evitar desordens, agentes do Corpo de Intervenção da PSP foram colocados em locais estratégicos da capital.
ENCONTROS
SIGNIFICADO HISTÓRICO
O presidente Jorge Sampaio fez questão de sublinhar a importância histórica desta visita de Vladimir Putin, que foi a primeira de um chefe de Estado russo a Portugal e que coincide com o 225.º aniversário do início das relações diplomáticas entre os dois países. Putin respondeu afirmando que esta “não foi uma mera visita protocolar”, mas antes uma excelente oportunidade para fortalecer as relações bilaterais.
SANTANA EM MOSCOVO
O primeiro-ministro português, Pedro Santana Lopes, aceitou um convite do presidente russo para se deslocar a Moscovo em Maio do próximo ano, para assistir às comemorações do 60.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.
PERFIL
Restaurar a ordem na Rússia e recuperar o papel de Moscovo no plano internacional é a missão de Vladimir Putin. Uma missão que cumpre com mão firme, por vezes autoritária, e com uma determinação que não vacila perante as dificuldades, sejam elas a debilidade da economia russa ou as bombas dos terroristas tchetchenos.
Defensor daquilo que gosta de chamar como a ‘Ditadura da Lei’, Putin saltou para as luzes da ribalta política em 1999, quando foi escolhido por Boris Ieltsin para o cargo de primeiro-ministro. O seu passado como espião rodeou-o de uma aura de autoridade e mistério que agradou aos russos e manteve a sua popularidade em alta através dos anos. Reservado sobre a sua vida privada, fala pouco da mulher e proibiu a Imprensa de publicar fotos das suas duas filhas.
Ver comentários