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Cuba está em guerra

Jorge Castro Benítez, é, aos 62 anos, o novo embaixador de Havana em Lisboa. Estreou-se na diplomacia em 1978 e até 2000 foi embaixador na Turquia. Ao CM explica por que razão Cuba é uma democracia e o comunismo o futuro da Humanidade.
20 de Junho de 2005 às 00:00
Cuba está em guerra
Cuba está em guerra FOTO: Sofia Costa
Correio da Manhã – Cuba é um regime marxista leninista?
Jorge Castro Benítez – Cuba tem uma ideologia marxista leninista e martiana. Julian José Martí foi o herói de Cuba, o inspirador da revolução. Embora hoje se diga que essa ideologia está ultrapassada, acreditamos que é o futuro da Humanidade, não há outra saída. Pode pensar-se que ideologicamente Cuba é dos poucos países que mantém esse pensamento. Mas podemos fazer uma leitura diferente: pode ser que se trate de um pensamento pioneiro do futuro.
– E o fracasso soviético?
– O modelo socialista na Europa de Leste fracassou, mas não por razões fundamentais. Há outras razões, como o distanciamento da realidade, a imposição centralizada de um sistema...
– A centralidade de Fidel não repete o problema?
– É diferente. Fidel liderou a revolução e o país até hoje. Representa o mais importante para os cubanos. Quando caiu o socialismo na Europa apostava-se no fim de Cuba. Mas passaram 12 anos e estamos mais fortes. É, pois, preciso reconhecer que Cuba não era um satélite soviético. Trilhou o seu caminho e aplicou o sistema à sua realidade.
– Cuba é uma ditadura, tem presos políticos.
– Ninguém é preso por dar opiniões. Há dois anos, por exemplo, foram detidos 75 supostos dissidentes. Foram processados e punidos por instigar à desobediência civil a troco de um salário dos EUA. Os cerca de 20 jornais de Cuba são a verdadeira oposição. Mas não há espaço para um jornal que ataque a revolução. É preciso perceber que Cuba está em guerra, pois guerra não é só quando caem bombas. As sabotagens e o bloqueio económico são guerra, e temos de nos defender.
– Deputados e jornalistas europeus foram proibidos de assistir a uma reunião de opositores, porquê?
– Só não se deixou entrar alguns eurodeputados, que iam como observadores. Quanto aos opositores, são grupos ilegais, que têm tolerância. A Europa falou da primeira reunião da oposição em décadas, com milhares de delegados. Mas foi a reunião número cem e contou com cerca de 90 delegados.
– Mas há um só partido.
–Porque não precisamos de mais. Os candidatos são escolhidos pelos cidadãos. Isto é democracia. Como é democracia os cidadãos demitirem deputados e participarem na elaboração das leis. E há eleições abertas, a que podem assistir jornalistas e diplomatas estrangeiros. Mas observadores não. É uma questão de dignidade, de orgulho.
– Foi por orgulho que Fidel recusou a ajuda humanitária europeia?
– Rejeitámo-la porque era condicional, e isso é chantagem.
– E as fugas para os EUA?
– Isso tem de perguntar ao embaixador americano. Cuba deixa partir os que o desejem, os EUA é que não abrem as fronteiras.
– Mas em 2003 foram executados três jovens dissidentes.
– Eram delinquentes. Tinha havido tentativas sucessivas de fuga para os EUA e o governo foi advertido de que a próxima entrada de emigrantes cubanos seria considerada uma ameaça à segurança e que os EUA poderiam intervir em Cuba. Fizémos alertas públicos, mas mesmo assim três delinquentes tomaram um barco e sequestraram turistas. Foram condenados à morte. Tomámos uma decisão politicamente perigosa, mas necessária para a segurança de 10 milhões de cubanos.
– A falta de desenvolvimento económico é só fruto do embargo?
– Não estamos isentos de erros mas o fundamental é o bloqueio. Somos pobres e continuaremos a sê-lo, segundo os parâmetros europeus. Mas temos das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo e nenhuma criança, pessoa da terceira idade ou desempregado é abandonado. Como se pode garantir uma segurança social tão forte sem uma economia sólida?
– A morte de Fidel será um problema?
– Será um duro golpe sentimental. Mas não haverá divisões. Cuba referendou a Constituição e definiu os órgãos dirigentes. O sucessor é Raul Castro.
– Como foi recebida a morte de Álvaro Cunhal?
– Era um fiel amigo de Cuba. Era um homem consequente no seu pensamento e na sua luta. Isto tem sempre um grande impacto. Mas o desaparecimento dos homens não significa o desaparecimento das ideias.
SARAMAGO FAZ AS PAZES COM CASTRO
O Nobel português da Literatura, José Saramago, terminou ontem uma visita a Havana, feita a convite do Ministério da Cultura para o lançamanto da tradução do seu livro ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’. Depois de em 2003 ter declarado a sua ruptura com Cuba depois de atacar o regime de Fidel Castro pela forma como trata a oposição, Saramago esclareceu agora que “é amigo de Cuba em qualquer circunstância”.
Apesar de insistir que as execuções de três jovens foram “um erro” e que “discordar é um direito que não deveria ser negado a ninguém”, o escritor referiu igualmente o escândalo da situação de Posada Carriles, terrorista responsável por um atentado contra um avião civil cubano que os EUA recusam extraditar.
“Estão a tentar impedir que fale”, afirmou. Numa extensa entrevista publicada no site ‘Juventud Rebelde’, Saramago considerou ainda que a sua ruptura com Cuba foi “manipulada e usada”. O Nobel português atacou ainda os erros da democracia representativa ocidental e a submissão dos governos ao poder económico.
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