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Correio da Manhã

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CURDOS INTENSIFICAM LIMPEZA ÉTNICA NO NORTE

Encoberto pelo inferno em que Bagdad se converteu, pelas sangrentas emboscadas do triângulo sunita ou pela desesperada rebelião dos xiitas do Sul, o Curdistão raramente aparece nos jornais.
24 de Junho de 2004 às 00:00
Só quando os terroristas atacam o oleoduto que leva petróleo ao porto turco de Ceyhan, ou, em Kirkuk, combatem a tiro turcomanos, curdos e árabes ou, ainda, quando os ‘kamikazes’ cobrem de cadáveres a sede de algum partido, as terras do Norte do Iraque voltam a ser notícia. No entanto, em silêncio, longe das câmaras de televisão, ganha ali forma uma enorme tragédia.
O drama começou há 15 meses, no mesmo dia em que os ‘marines’ deitaram abaixo a gigantesca estátua de Saddam Hussein que presidia à praça situada frente aos dois hotéis onde, nós jornalistas, nos entrincheirámos, e não cessou desde então. Cada dia, centenas de camponeses árabes – que o tirano transferiu há dez anos para norte e a quem entregou parcelas de terreno no seu afã de “arabizar” a região e acabar com as veleidades independentistas dos curdos – são expulsos de suas casas e empurrados até ao Sul.
Não há números oficiais, mas calcula-se que são já mais de 100 mil os refugiados que se amontoam em barracas e tendas de campanha, em acampamentos espalhados pelo centro do país. Os curdos argumentam que as terras são suas, que foi o ditador quem as arrebatou e que lhes assistem a História e o direito, mas actuam sem piedade.
A PRIMEIRA VAGA
No início dos anos 90, logo que terminou a primeira Guerra do Golfo, as tropas de Saddam entraram a matar nas aldeias que salpicam a planície verde encravada entre Kirkuk e Erbil. Bombardearam as casas e obrigaram os habitantes a fugir. Foi uma limpeza étnica feroz, que os curdos tratam agora de inverter com idêntica ferocidade.
Não usam aviões nem ‘napalm’. De vez em quando matam alguém mas nem sequer necessitam de combater. Basta a sua presença ou o rumor de que estão a chegar para que surja o terror e famílias inteiras fujam em debandada.
Os árabes do Norte não são os únicos deslocados do novo Iraque. A mesma ou pior sorte tiveram dezenas de milhares de palestinianos, descendentes dos que chegaram ao país após a proclamação do Estado de Israel em 1948. Todos os dirigentes árabes manipularam à sua vontade a causa palestiniana, mas ninguém levou tão longe a sua aversão a Israel como o ditador iraquiano. Não se limitou a criar uma milícia dedicada, em teoria, a recuperar Jerusalém para os árabes e a instituir um prémio de 25 mil dólares para a família de qualquer um disposto a imolar-se.
Saddam abriu campos de treino para terroristas, enviou voluntários para as guerras contra Israel e até implantou por lei uma renda mínima só aplicável aos palestinianos. Não lhes permitia adquirir como propriedade uma casa ou um veículo, mas podiam residir gratuitamente no apartamento de um iraquiano, normalmente de um grupo não ligado ao governo, a quem o Estado pagava como compensação o equivalente a cinco euros. Foi este último detalhe que causou a ruína de muitos palestinianos.
SENHORIOS XIITAS
Logo que entraram as tropas dos EUA em Bagdad, centenas de senhorios, quase sempre xiitas, foram visitar os seus inquilinos palestinianos. Os afortunados tiveram um mês de prazo para desalojar; os desafortunados umas horas e um pau a persegui-los.
Na fronteira com a Jordânia vivem centenas de famílias palestinianas expulsas de suas casas em Bagdad e às quais ninguém, nem a ONU, nem Arafat, nem os países árabes parecem prestar a mínima atenção. A diferença entre estes refugiados e os árabes que fogem do Norte iraquiano são os números. Os palestinianos eram apenas umas dezenas de milhar. Os árabes deslocados são centenas de milhar. Outra diferença, no caso destes últimos, é que a sua expulsão se faz com o apoio secreto mas evidente das autoridades políticas do Curdistão. Um apoio que inclui o plano de recolocar – a bem ou a mal – em Kirkuk 10 mil curdos forçados a fugir há 13 anos.
A ‘LINHA VERDE’
A coligação afirma que a ‘linha verde’, que após a revolta de 1991 marcou o limite entre as províncias controladas por Saddam e a zona autónoma curda sob protecção da ONU, é inviolável. Reitera que os curdos têm direito a retornar às suas terras ancestrais, mas que os movimentos migratórios devem fazer-se de forma ordenada e respeitando as pobres famílias nelas instaladas desde há mais de uma década. São palavras sensatas, com escasso eco num país como o Iraque, onde não há varão que não tenha uma espingarda.
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