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Correio da Manhã

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Desfile da mangueira critica Bolsonaro e fundamentalismo cristão

Cristo foi representado de várias formas distintas por uma das sete escolas de samba.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 24 de Fevereiro de 2020 às 18:44
Bolsonaro
Bolsonaro FOTO: Adriano Machado / Reuters

Num desfile com uma forte mensagem política, a Mangueira, a escola de samba mais tradicional e popular do Rio de Janeiro e campeã em 2019, levou para o Sambódromo da Sapucaí um enredo com críticas incisivas ao presidente Jair Bolsonaro e ao fundamentalismo cristão dos grupos religiosos em que ele assenta o seu governo. O enredo, que pretendeu contar a vida e o legado de Jesus Cristo de uma forma actual, já alfinetava Bolsonaro até no título "A verdade vos fará livres" uma alusão ao lema bíblico incessantemente proferido pelo presidente brasileiro em discursos, "A verdade vos libertará".

No desfile da Mangueira, uma das sete escolas de samba que se apresentaram na primeira noite da disputa oficial do Carnaval do Rio, Cristo foi representado de várias formas, entre elas como negro, como índio com o rosto manchado de sangue e até como mulher. Evelyn Bastos, rainha da bateria (o conjunto dos ritmistas) foi quem interpretou esta representação feminina do filho de Deus e, por isso, não sambou, tendo percorrido a Sapucaí caminhando e exibindo a coroa de espinhos na cabeça e correntes.

Na Comissão de Frente, outros personificavam outra representação de Jesus Cristo, vestido com roupas multicoloridas como um arco-íris, numa alusão ao movimento gay que Bolsonaro tanto critica. Em certa altura, de cubos que os passistas empurravam saía uma favela onde, na visão da escola, o filho de Deus viveria hoje se fosse vivo, para estar junto aos mais humildes.

Várias alas representaram a violência policial no Brasil, que aumentou assustadoramente desde que Jair Bolsonaro tomou posse em Janeiro do ano passado e que tem morto com total impunidade principalmente negros e moradores das periferias. Em vários momentos, pessoas com uniformes de grupos de elite da polícia, nomeadamente o temido BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro, simbolizavam espancar outros componentes da escola representando Jesus e os apóstolos que o cercavam.

Defendendo o diálogo entre religiões e pessoas e criticando, mais uma vez de forma incisiva, a defesa que Bolsonaro faz do uso de armas, a Mangueira cantou na Sapucaí "Não tem futuro sem partilha nem com Messias de arma na mão", num trocadilho com o governante. O nome completo do presidente brasileiro é Jair Messias Bolsonaro.

Entre os muitos famosos que desfilaram pela Mangueira estiveram a cantora Alcione, interpretando Maria, a mãe de Jesus, e o ator Humberto Carrão, representando um Cristo combativo, de cabelo curto, inconformado com a forma como a Fé e o seu legado são verdadeiramente comercializados nos dias de hoje por grupos que se dizem igrejas criadas à sua imagem. Na madrugada desta segunda para terça a Sapucaí vai receber as outras sete escolas de samba do grupo principal do Carnaval da capital fluminense.
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