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Correio da Manhã

Mundo
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Disputa eleitoral sem emoção

São presidenciais com desfecho conhecido as que hoje se realizam na Rússia. Impedido pela Constituição de concorrer a um terceiro mandato, o todo-poderoso Vladimir Putin deixa o Kremlin ao seu ‘delfim’, Dmitry Medvedev, e leva o poder para a Casa Branca, a residência oficial do primeiro-ministro.
2 de Março de 2008 às 00:30
Indiferentes ao défice democrático, investidores aplaudem aquela a que chamam ‘dream team’, mas os mais cautelosos alertam que a lua-de-mel pode acabar.
É uma disputa sem emoção, em que os rivais de Medvedev que conseguiram entrar na corrida – houve os que foram simplesmente afastados – não têm a menor hipótese de lhe fazer sombra, razão por que a campanha nem sequer chegou a aquecer. As sondagens davam-lhe um score esmagador de 70%, cinco vezes mais do que o seu adversário mais próximo.
Ninguém parece, por isso, ter dúvidas de que Medvedev, que aos 42 anos será o mais jovem líder russo desde o czar Nicolau II, é uma mera peça de um jogo que Putin manipulará a seu bel-prazer. Mas alguns analistas avisam que as relações da dupla podem azedar e gerar instabilidade. Com a inflação a ameaçar ficar fora de controlo e o orçamento vulnerável à descida dos preços de petróleo, o mal-estar pode manifestar-se mais cedo do que se julga.
Esta é a única incógnita que fica após estas eleições não monitorizadas por observadores internacionais que deixam ainda mais debilitada a democracia russa, ferida pelo regime ditatorial de Putin, em que as vozes críticas são silenciadas sem pudor.
CANDIDATOS
- Candidato do Partido da Rússia Unida, foi escolhido por Putin, que o conhece já há 17 anos. Formado em Direito, desempenha as funções de primeiro vice-primeiro-ministro.
- Aos 63 anos, o candidato do Partido Comunista é um veterano da política soviética e russa. Defende a renacionalização dos recursos e das indústrias estratégicas do país.
- Líder do Partido Liberal Democrata, defende uma ideologia ultranacionalista, anti-ocidental e anti-sionista. Com 61 anos, só em 2001 admitiu que o pai era judeu.
- Com 37 anos, o candidato do Partido Democrático é um desconhecido. Colocou no seu blogue fotos que tirou em férias em fato de banho. É acusado de ser apoiado pelo Kremlin para dividir o voto da oposição.
A DUPLA PREFERIDA DOS RUSSOS
Ex-agente da KGB, Putin conquistou os compatriotas ao fazer regressar a Rússia ao palco do Mundo, regenerando o patriotismo ferido na era pós-soviética. Jogou a seu favor o boom económico que o país conheceu após anos de ‘fome’ sob o regime de Ieltsin, mantido graças ao aumento recorde dos preços do petróleo e do gás. A maioria vê na dupla Putin-Medvedev o prolongamento desta prosperidade.
EXCLUÍDOS
MIKHAIL KASYANOV
Com 50 anos, foi excluído da corrida presidencial em Janeiro sob o argumento de que a sua lista tinha muitas assinaturas inválidas. Foi ministro das Finanças sob Ieltsin e Putin nomeou-o primeiro-ministro em 2000. As relações azedaram e foi demitido quatro anos depois. Seria um sério adversário de Medvedev.
GARRY KASPAROV
Com 44 anos, é conhecido por ter sido o grande campeão mundial do xadrez. Abandonou a corrida em Dezembro alegando dificuldades em encontrar apoiantes suficientes para o seu partido, A Outra Rússia. É dos mais acérrimos críticos de Putin e já foi detido pelo menos duas vezes por ter integrado manifestações contra o regime.
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