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É preciso que a GNR venha rapidamente

A madrugada e manhã de ontem em Díli foram uma vez mais marcadas pela violência, havendo notícia de casas atacadas e incendiadas, comércios saqueados e viaturas destruídas por bandos de civis armados. As residências de dois membros do governo e as de pelo menos dois deputados da Fretilin estão entre as incendiadas durante incidentes nos bairros de Surik Mas, Becora, Pité e Delta-Comoro.
29 de Maio de 2006 às 00:00
Os soldados australianos têm sido incapazes de evitar os actos de vandalismo de grupos rivais
Os soldados australianos têm sido incapazes de evitar os actos de vandalismo de grupos rivais FOTO: Adrees Latif/Reuters
Aliás, a onda imparável de ataques gerou um coro de críticas à actuação das tropas australianas, acusadas de passividade, e levou populares e membros do governo a pedir a presença urgente da GNR no terreno.
Os bandos envolvidos nos ataques são vistos a percorrer a cidade armados de catanas, espadas, arcos e flechas e, por vezes, com armas de fogo semelhantes às das forças da ordem. “A situação piorou desde que os australianos entraram. Eles assistem, vêem o que se passa e não actuam. As pessoas são perseguidas e atacadas à sua frente e os australianos não fazem nada”, afirmou fonte anónima do governo de Díli, considerando necessário “que a GNR venha rapidamente”. A ministra de Estado, Ana Pessoa, tem opinião idêntica. “As tropas australianas apenas patrulham as estradas, e, quando entram nos bairros, assistem impávidos aos saques”, afirmou.
Nas ruas a população repete as mesmas críticas. “Os australianos só estão a ajudar os criminosos”, afirmou Inácio Moreira, professor universitário de 44 anos, morador do bairro Delta-Comoro, onde foram queimadas pelo menos três casas.
Como se sabe, a GNR vai enviar 120 militares para Timor-Leste. Ontem chegaram ao território os três oficiais a quem cabe avaliar as necessidades para instalação da força, cujos primeiros elementos deverão chegar durante a semana. Com os três efectivos da GNR chegaram também ontem oito elementos dos GOE (Grupo de Operações Especiais da PSP), que reforçam o grupo de oito elementos já ao serviço na capital timorense.
ALKATIRI EXCLUI DEMISSÃO
O primeiro-ministro de Timor-Leste, Mari Alkatiri, reuniu-se ontem com o presidente Xanana Gusmão e afirmou, após o encontro, que está fora de causa a sua demissão. “Tornou-se claro que não há nenhuma intenção de demitir o governo”, afirmou, escusando-se a revelar pormenores sobre o encontro, mantido, a sós, na residência de Xanana em Balibar, arredores de Díli.
“Foi um encontro para quebrar o gelo. Dialogámos muito bem e há uma aproximação de posições. Não tenho dúvidas de que há sinais de que se poderá estabelecer um clima de estabilidade política”, afirmou, considerando a reunião preparatória de hoje do Conselho de Estado e do Conselho Superior de Defesa e Segurança.
Apesar do optimismo do líder de governo, Gastão Salsinha, exigiu ontem, em nome de um grupo de líderes militares contestatários, a demissão de Alkatiri e de todo o seu governo. Salsinha considerou que a dissolução do governo se deve seguir à recolha das armas ilegais e ao desarmamento geral, tarefa que, em sua opinião, cabe “ao presidente Xanana Gusmão e às tropas internacionais”.
PROFESSORES SAEM AMANHÃ
Os professores portugueses a trabalhar em Timor-Leste poderão começar a abandonar o país amanhã ou quarta-feira, afirmaram vários docentes. O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) negou, no entanto, que vá ser realizada uma evacuação e que tenha sido ordenado o regresso a Portugal.
Outra fonte do governo frisou que o que vai ser feito é permitir, a quem o deseje, abandonar o país. Aliás, recorde-se, mais de 20 portugueses já partiram. “A evacuação só se verificará se, e quando o Governo português o entender”, afirmou Carneiro Jacinto, porta-voz do MNE. Entretanto, fontes contactadas pelo Correio da Manhã afirmam que vários professores querem sair há muito e não tiveram qualquer apoio da embaixada de Portugal, tendo alegadamente sido pressionados a permanecer.
Fonte próxima do primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou desconhecer as queixas e frisou que “pelo contrário, a maioria dos portugueses tem manifestado a vontade de ficar”. O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, pediu ontem a permanência dos portugueses.
DESENVOLVIMENTOS
GOE PROTEGE ONU
Portugal acedeu ontem ao pedido da ONU para que garanta a segurança do chefe da sua Missão em Timor-Leste. Dois elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP vão passar a fazer a segurança pessoal de Sukehiro Hasegawa, japonês que lidera o gabinete da ONU em Díli.
50 MIL DESALOJADOS
Cerca de 50 mil timorenses foram forçados a abandonar as suas casas e vivem agora em abrigos precários, de recurso, anunciou a Cruz Vermelha australiana (CVA).
SEM ÁGUA E COMIDA
O encerramento do comércio e de dois dos três maiores supermercados de Díli causou uma escassez de alimentos e água potável. Devido à insegurança, o único supermercado aberto apenas deixa entrar 10 pessoas de cada vez por uma porta das traseiras.
REFORÇO DE TROPAS
A Austrália vai aumentar de 1300 para 1800 o total do seu contingente em Timor-Leste, número superior ao que aquele país enviou para o Iraque. Os australianos já ao serviço em Díli criaram postos de controlo de viaturas para acelerar o desarmamento dos bandos que têm semeado o caos na cidade.
CHINA RETIRA
A China anunciou ontem que vai retirar todos os cidadãos chineses de Timor-Leste. Para o efeito será enviado hoje um avião fretado, que leva a bordo uma equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros encarregada de apoiar a evacuação.
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