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Correio da Manhã

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Ele já prepara festa, ela hesita

Após sensivelmente um mês de campanha, que devolveu à França o gosto pela batalha política, mais de 44,5 milhões de eleitores decidem hoje quem vai ser o sexto presidente da V República. Sarkozy confiae Ségolène ainda sonha.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Dia D. Os franceses decidem hoje se querem no Eliseu a socialista Ségolène ou o conservador Sarkoz
Dia D. Os franceses decidem hoje se querem no Eliseu a socialista Ségolène ou o conservador Sarkoz FOTO: Philippe Wojazer / Reuters
Venha cedo porque a sala vai encherlogoàs 16h00”, avisou-me um segurança de serviço na centenária Salle Gaveau, onde Nicolas Sarkozy deve festejar a partir das 20h00 (menos uma hora em Portugal) a sua eleição como sexto presidente da V República. Salvo um improvável sobressalto dos eleitores ao apelo de Ségolène Royal para “fazerem mentir as sondagens” é aquilo que deve acontecer. O circunspecto e pró-socialista ‘Le Monde’ titulava ontem à tarde “Sarkozy dado como vencedor no final da campanha” e a realidade é que ninguém espera a repetição do maior suspense de sempre quando, há 33 anos, em 1974, os ecrãs de televisão mantiveram durante vinte minutos as fotos de Giscard e Mitterrand, lado a lado, com a referência 50% para cada.
Após uma campanha com final desastroso para a candidata, a quem até parece escapar a vantagem na redistribuição do votos Bayrou da 1.ª volta, Ségolène e as suas hostes tentaram tudo para inverter tendências. Sarkozy foi abertamente tratado como ‘homem perigoso’, invocou-se o perigo de revolta dos jovens dos arredores de Paris, onde valha a verdade o candidato da Direita ficou à frente em seis dos sete departamentos e durante a noite foram colados em Paris milhares de papéis brancos impressos a preto com a frase “Ségolène será boa presidente”.
A ideia não deu, contudo, alento às hostes socialistas. Há muitas indecisões quanto ao programa da ‘festa da vitória da França presidente’ e a meio da tarde, na tenda de plástico montada no átrio do portão n.º 12 da rua Solférino, uma dúzia de pessoas sentadas com a mão a segurar o queixo esperavam ordens.
Na rua Solférino estavam já estacionados alguns camiões dos canais de televisão, mas os polícias deixavam circular o trânsito tranquilamente. Uma enorme diferença entre o se passava já antes à volta da Salle Gaveau, onde assisti às 14h30 ao fecho da circulação no quarteirão da avenida Delcasse, onde se situa a entrada de serviço daquele espaço de espectáculos musicais. Ali, Sky News, RTL e France 2 estavam já prontas a transmitir com parabólicas montadas no meio do asfalto.
Na entrada principal da sala estava um segurança atento e experimentado que já controlou tudo no princípio da noite de há 15 dias. Quando soube que eu era jornalista português mudou o estilo de conversa. Goran Prokopovic é emigrante sérvio, empregado numa empresa de segurança e admirador do futebol português. E não só porque a Sérvia está no mesmo grupo de qualificação de Portugal para o Europeu de 2008. Ele também viu os desafios do Benfica na Taça UEFA e formou uma opinião inabalável: “É Simão e não Ronaldo o melhor futebolista português. Simão é muito bom jogador e mostra que sabe o que pretende fazer, enquanto Ronaldo é só um tipo de explosões.” Ficámos de continuar a discussão durante a longa espera pelos resultados. É que há mais de mil jornalistas acreditados na sede do UMP e o sérvio Prokopovic avisou-me para estar muito mais cedo porque a sala enche logo às 16h00 e depois já não entra mais ninguém.
COMERCIANTES TURCOS CERCAM SEDE DE SARKOZY
“Sabe que mesmo muitos políticos desconhecem que já não se cobram taxas aduaneiras na importação e exportação de produtos para a Turquia?”, perguntou-me Okur Ibrahim, um turco de 49 anos, atrás de uma secretária que lhe serve também de balcão numa loja de CD, DVD e livros, com o nome de Virtuelle Dimension, aberta há ano e meio em frente à sede de campanha de Nicolas Sarkozy, na rue d’Enghien.
Por entre restaurantes, minimercados, barbeiros-cabeleireiros e até um controverso Centro Cultural Curdo – que dão um ar de Istambul à rua onde está o estado-maior de Sarkozy – encontrei um interlocutor disposto a falar. O factor decisivo foi Okur, emigrante há 27 anos, já ter passado quatro vezes férias em Portugal e conhecer bem a costa marítima de Lisboa até Faro. “Os portugueses têm um aspecto físico muito parecido com os turcos”, disse.
Okur fala como quem sabe muito das coisas políticas e até tem explicação para o ‘não’ de Sarkozy a uma futura entrada da Turquia na UE: “Com 80 milhões de habitantes a Turquia passaria a ser o segundo maior país no Parlamento Europeu, atrás da Alemanha. Aí a França passava logo para terceiro.”
Mas a grande queixa dos turcos da rue d’Enghien contra Sarkozy é o arraial de segurança que fecha frequentemente os acessos e provoca forte quebra nos negócios: “Uma desgraça porque a polícia não deixa passar quem vem comprar aqui nas lojas turcas.”
Nos comércios da rua nota-se uma divisão em pró e contra (Sarkozy) sem grandes explicações: “O meu pai é religioso e vai à mesquita na Turquia, mas isso não me interessa. Vim de um país laico e sou assim”, garante ainda Okur, que responde pronto à questão do fundamentalismo: “Existe em todas as religiões e não só nos muçulmanos. Também há cristãos fundamentalistas e eu não penso proibi-los.”
OS GRANDES TEMAS
AS PRINCIPAIS PROPOSTAS
Economia e impostos
- Ségolène
Cortar a dívida pública concedendo benefícios fiscais a exportadores e empresas que criem emprego
- Sarkozy
Reduzir o défice, impor um tecto máximo de 50% nos impostos, aumentar o IVA
Emprego e salários
- Ségolène
Aumentar o salário mínimo em 20% para 1500 euros. Pagamento de 90% do salário durante um ano em caso de despedimento
- Sarkozy
Abolir impostos sobre as horas extraordinárias. Acabar com a semana das 35 horas
Saúde e pensões
- Ségolène
Abolir impostos sobre as horas extraordinárias. Acabar com a semana das 35 horas
- Sarkozy
Aumentar as taxas moderadoras na saúde. Reformar o generoso sistema de pensões da Função Pública
Imigração, lei e segurança
- Ségolène
Restabelecer o direito de cidadania após dez anos de residência. Criação de campos para jovens delinquentes
- Sarkozy
Criar Ministério da Imigração e Identidade Nacional. Reduzir a imigração. Serviço comunitário para jovens delinquentes
UE e política externa
- Ségolène
Submeter a Constituição Europeia a novo referendo. Defende adesão da Turquia à UE. Posição crítica face aos EUA
- Sarkozy
Constituição da UE aprovada no Parlamento. Contra adesão da Turquia. Defende amizade com os EUA
Custo das políticas
- Ségolène
35-63 mil milhões de euros
- Sarkozy
32-74 mil milhões de euros
NOTAS
ULTRAMAR JÁ VOLTOU
Os eleitores dos territórios ultramarinos franceses votaram durante o dia de ontem
UM MILHÃO NO EXTERIOR
O número de franceses que votam no estrangeiro é ligeiramente superior a um milhão
'SARKO' EM VANTAGEM
As últimas sondagens davam uma vantagem de entre seis a nove pontos a Nicolas Sarkozy
FESTA MARCADA
Os apoiantes de Sarkozy já marcaram a festa da vitória para a Place de la Concorde, no centro de Paris
SOLTAS
RESPOSTA
Nicolas Sarkozy acusou ontem a sua adversária de usar “linguagem de guerra” contrária “às mais básicas regras democráticas”, por ter afirmado que, em caso de vitória do candidato da Direita, os motins voltariam aos arredores de Paris. “Ela está claramente desmoralizada”, acrescentou ainda Sarkozy, referindo-se a Ségolène Royal.
ESTUDANTES
Os alunos da prestigiada Universidade da Sorbonne, epicentro do Maio de 68, apoiam maioritariamente a socialista Ségolène e garantem que os estudantes voltarão a sair à rua em protesto se Nicolas Sarkozy vencer as eleições.
JORNALISTAS
Mais de mil jornalistas estão acreditados para cobrir a noite eleitoral na sede de Nicolas Sarkozy, sendo esperados outros tantos na sede da socialista Ségolène Royal.
SAIBA MAIS
- 44,5 milhões de eleitores são hoje chamados às urnas nesta segunda volta das eleições presidenciais.
- 83,7por cento foi taxa de participação na primeira volta das eleições presidenciais, há duas semanas.
BANDEIRA
A bandeira nacional francesa tem três faixas verticais, azul, branca e vermelha. O azul e o vermelho são as cores de Paris, o branco é a cor da monarquia Bourbon.
FESTA NACIONAL
É celebrada a 14 de Julho e comemora a Tomada da Bastilha, em 1789, e a Festa da Federação, realizada um ano depois, quando representantes das várias regiões juraram fidelidade à França unida.
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