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Correio da Manhã

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ELE QUER MUDAR A FRANÇA

Foi o “delfim” de Jacques Chirac e chegou a namorar a sua filha. Mas um passo em falso – apoiou um rival na corrida à presidência – fez de Nicolas Sarkozy o “inimigo de estimação” do presidente francês. Enérgico e incansável, amado pelo povo e odiado pelos políticos, Sarkozy é a estrela maior no firmamento da política francesa, e não esconde a sua ambição de se sentar no lugar de Chirac. Provavelmente já em 2007.
9 de Agosto de 2004 às 00:00
Os apoiantes de Sarkozy gostam de contar a história do seu primeiro encontro com Chirac. Foi em 1975, num comício gaulista em Nice. Chirac deu a Sarkozy, de 20 anos, cinco minutos para aquele que seria o seu primeiro discurso político – Sarkozy falou durante vinte minutos e recebeu a maior ovação da noite. Desde aí, nunca mais perdeu o gosto de discursar... nem de desobedecer.
Sarkozy, actualmente com 49 anos, é o oposto do político francês tradicional. Para começar, não é oriundo da elitista École Nationale d’Administration – o berço de toda a classe dirigente francesa. Também não herdou um ‘feudo’ político regional da família nem uma fortuna dos pais: filho de um imigrante húngaro e de uma francesa, Sarkozy foi abandonado pelo pai em criança e teve de pagar os estudos vendendo flores e gelados nas ruas de Paris.
Entrou para a política aos 17 anos e aos 28 já era presidente da Câmara de Neully, nos arredores de Paris. Impressionado com as qualidades oratórias e o vibrante carisma do jovem político, Chirac fez dele seu ‘afilhado’ e por pouco não o teve como genro, mas em 1995 Sarkozy cometeu a suprema traição política: apoiou o rival de Chirac, Edouard Balladur, na corrida à Presidência. Furioso, Chirac ‘deserdou-o’ e, durante mais de três anos anos, recusou dirigir-lhe a palavra.
Sarkozy não se deixou abater e rapidamente reconstruiu a sua carreira política, tornando-se uma das maiores estrelas do centro-direita francês. A pressão da popularidade de Sarkozy forçou Chirac a chamá-lo para o governo em 2002, mas deu-lhe a pasta mais difícil, a Administração Interna, numa altura em que a falta de segurança estava no topo das preocupações dos franceses.
Sem se intimidar, Sarkozy atirou-se ao trabalho e em pouco mais de um ano fez diminuir o número de crimes e devolveu a noção de segurança às pessoas. Pelo caminho, ainda reduziu a mortalidade nas estradas, tirou as prostitutas das ruas, suavizou a polémica sobre o tratamento dos imigrantes ilegais e, como seria de esperar, fortaleceu imensamente a sua popularidade.
RESULTADOS FALAM POR SI
Incomodado, até porque Sarkozy nunca escondeu a sua ambição de chegar à Presidência, Chirac tirou-o da Administração Interna em Março deste ano e deu-lhe aquela que, no seu entender, seria a pasta que faria estoirar o balão de Sarkozy: a Economia.
Mas, mais uma vez, Sarkozy esteve à altura do desafio e, apesar da recessão, fez crescer a economia francesa contra todas as expectativas, granjeando os aplausos dos patrões e dos trabalhadores.
De vitória em vitória, ‘Sarko’, como é conhecido, vai reforçando as suas ambições presidenciais e atirando indirectas a Chirac, afirmando que está na altura de substituir a “velha França” por uma nova maneira de fazer política. Uma mensagem que encontrou eco junto de um eleitorado cansado da política feita por um “clube” restrito de pessoas que pensam, agem e até vestem da mesma maneira. “Apenas tento encontrar a solução adequada para cada problema. Tento adaptar-me à realidade e não negá-la”, afirmou ‘Sarko’ recentemente.
Os analistas referem ainda outra diferença entre Sarkozy e Chirac: o presidente, como todos os políticos da sua geração, acredita que a França é um país extremamente conservador, onde as mudanças têm de ser feitas lentamente. Sarkozy, pelo contrário, está convencido de que o país anseia pela mudança e que ele é o homem indicado para a fazer. A cem à hora.
SOLTAS
AMBIÇÃO DESMEDIDA
Contam-se em França vários episódios que ajudam a compreender melhor a ambição desmedida de Sarkozy. Um deles ocorreu quando ele tinha 19 anos e um amigo lhe perguntou o que queria ser. “A única coisa que me interessa é ser presidente”, respondeu sem hesitar. “Eu não me ri”, afirma o amigo.
MÉTODO SARKOZY
Segundo o diário ‘Libération’, Sarkozy fixou uma regra para ele próprio - “ir a qualquer lado ou fazer uma declaração pelo menos uma vez por dia, de modo a que não passem 24 horas sem que o seu nome seja falado”.
'DIA SEM SARKO'
A constante presença de Sarkozy em tudo o que é televisão, rádio, jornal ou revista levou já alguns jornalistas de esquerda a sugerirem a criação de um ‘Dia Sem Sarko’, no qual seria rigorosamente proibido mostrar a cara ou falar do popular ministro da Economia.
'ZIDANE' DO GOVERNO
A extrema popularidade e o seu estatuto de ‘indispensável’ no governo levaram um deputado a comparar Sarkozy à estrela maior do futebol francês, Zinedine Zidane. “Ele é o Zidane do governo. Ele organiza o jogo, marca os golos e assegura a vitória da equipa”.
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