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Eleições em Israel: um clamor contra Netanyahu sob o trauma do 7 de Outubro

Manifestação foi realizada no sábado à noite na Praça dos Reféns, palco de outros megaprotestos anteriores, que reclamavam do Governo o resgate das pessoas em cativeiro na Faixa de Gaza.

25 de outubro de 2026 às 18:30

Guerra, corrupção, recuo democrático e aliança com fascistas -- muitas razões levaram largos milhares de israelitas a protestar em Telavive contra o Governo de Benjamin Netanyahu, trazendo a exigência comum de um inquérito aos ataques do 7 de Outubro.

A manifestação foi realizada no sábado à noite na Praça dos Reféns, palco de outros megaprotestos anteriores, que reclamavam do Governo o resgate das pessoas em cativeiro na Faixa de Gaza desde os ataques do grupo islamita Hamas em 7 de outubro de 2023, no sul de Israel.

Mais de um ano passado sobre o cessar-fogo que permitiu a libertação dos últimos reféns, familiares das vítimas do dia mais sangrento da história do país, agrupados no movimento Conselho de Outubro, organizaram esta manifestação a três dias das eleições legislativas, vistas como um referendo à atuação do atual primeiro-ministro.

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A organização estima ter reunido cerca de cem mil pessoas, segundo a imprensa israelita, chamadas pela reivindicação de uma comissão de inquérito independente ao 07 de Outubro, até agora recusada pelo primeiro-ministro, envolvido numa teia de revelações sobre alegados avisos prévios para os ataques do Hamas e acusações de falsificar "a fita do tempo" daquela manhã de 2023.

Netanyahu tem rejeitado todas as alegações, ao mesmo tempo que ordenou uma torrente de processos por difamação contra órgãos de comunicação social israelitas, atribuindo as notícias "a rivais políticos e atores estrangeiros hostis" com o objetivo de o derrubar.

Num protesto que se tornou numa expressão coletiva contra a avaliação do chefe do Governo nas próximas legislativas, autocolantes eram passados de mão e mão, lendo-se a data das próximas legislativas e um apelo sem qualquer assinatura partidária: "Dia da mudança".

De frente para um grande palco, ladeado por ecrãs gigantes, a multidão apinhada agitava milhares de bandeiras nacionais, mas muitos participantes envergavam também símbolos de vários partidos da oposição, que compareceram em peso e ao mais alto nível.

Estava lá o líder do Yashar!, o ex-general Gadi Eisenkot, que é favorito nas sondagens, e os principais dirigentes dos grupos partidários que constituem o chamado bloco da mudança, depois de terem acordado que, no próximo ciclo político, irão aprovar a comissão de inquérito independente reclamada no centro de Telavive.

"Éramos todos membros da comunidade que lutou durante mais de três anos pela libertação dos reféns. Cada uma de nós liderava uma equipa na sua aldeia, na sua cidade ou no seu país estrangeiro", afirma Michal, uma das manifestantes, recordando os amplos protestos realizados até ao ano passado naquele mesmo local.

Agora, volta a emprestar o seu ativismo na exigência do apuramento de responsabilidades, mas não só: "Vamos mudar o governo e acabar a guerra. Já chega!"

Num dos acesos à Praça dos Reféns, uma instalação de cartões replicava centenas de despertadores marcando 06:29, hora do início dos ataques das milícias palestinianas no sul do país e a frase "Hora de Despertar".

Uma faixa de dezenas de metros atravessava o recinto, apenas com a mensagem "Por nós e por elas", em alusão à comissão de inquérito e às 1.200 pessoas mortas naquele dia.

"Quero apoiar a esperança de mudança no governo", afirma Talia, uma das manifestantes comprimidas na multidão, referindo "tantas razões" para estar presente.

Desde logo a corrupção, que atinge o primeiro-ministro em três processos distintos e em julgamento há seis anos, "esta guerra que se prolonga há muito tempo", na Faixa de Gaza, no Líbano e mais recentemente contra o Irão e "o apoio às famílias das pessoas que foram feitas reféns e que foram mortas" no 07 de Outubro.

"Parece que eles não se preocupam realmente com as pessoas", afirma esta israelita, uma das poucas pessoas que, segundo as sondagens, ainda estão indecisas no dia da votação, no seu caso entre a coligação de centro-esquerda Democratas e a Lista Conjunta, uma aliança de partidos árabes, cujo símbolo traz na lapela.

Os estudos de opinião indicam que o Yashar!, de Eisenkot, lidera as preferências, ligeiramente à frente do Likud, de Netanyahu, mas nenhum deles consegue o "número mágico" de 61 lugares para controlar o Knesset (parlamento), nem através das alianças com as forças pró-governamentais ou de oposição, o que coloca os dois grupos árabes concorrentes no papel de potencial fiel da balança.

Talia não é árabe, mas acha "bastante importante mostrar que há quem se preocupe com o que está a acontecer nos territórios ocupados [da Cisjordânia] e em Gaza".

A manifestação atraiu pessoas de todo o país mas também do estrangeiro, onde os israelitas, com exceção de pessoal diplomático e militares, não podem votar.

"Desde janeiro de 2023 que o Governo de Israel declarou guerra à democracia israelita", considera Yael Meroz, que viajou expressamente de Washington para votar no dia 27, aludindo à controversa reforma eleitoral encetada por Netanyahu quando regressou ao poder e que, na altura, gerou protestos semanais em grande escala em todo o país.

Este Governo e o primeiro-ministro "têm sido um desastre absoluto para o Estado de Israel", segundo a residente na capital norte-americana, que traz uma t-shirt com a inscrição "salvem a democracia", lamentando que o seu país "se encontre neste momento numa posição muito mais fraca a nível mundial e em termos de segurança nacional do que no dia 06 de outubro".

Pouco depois destas palavras, as dezenas de milhares de pessoas presentes ligaram e agitaram as luzes dos telemóveis, criando um efeito luminoso ao longo de todo o recinto, enquanto ecoavam gritos a clamar por "democracia".

Antes da grande manifestação na Praça dos Reféns, a coligação Democratas promoveu outro expressivo comício no sábado à noite na praça Yitzhak Rabin, a curta distância no centro de Telavive, que depois se juntou ao evento organizado pelo Conselho de Outubro.

"Estamos aqui para lutar pela democracia liberal israelita e pela identidade deste país. Espero que todos compareçam, que consigamos aumentar a afluência às urnas e que vençamos", declara Rani, uma profissional de alta tecnologia e eleitora da aliança de centro-esquerda (resultante da fusão do Partido Trabalhista com o Meretz) e que se insurge justamente contra a reforma judicial, mas não só.

Ao longo do último mandato, o executivo de Netanyahu em aliança com a extrema-direita foi responsável pelo "retrocesso dos princípios em que Israel foi fundado", acusa a israelita de 36 anos, que espera um novo elenco governativo que traga "paz e que se preocupe mais com os civis, os cidadãos deste país, e não com os seus interesses pessoais".

Para isto, está disposta a aceitar uma aliança com as outras forças de oposição em condições de eleger deputados, e todas de centro-direita ou abertamente de direita, na medida em que "a política é a arte do compromisso" e tudo se resume a "um confronto entre liberais e conservadores".

Trajando uma t-shirt com as palavras "eu também sou democrata" e de bandeira israelita na mão, Amir espera sobretudo que as pessoas respondam ao apelo da oposição e votem no dia 27.

"Normalmente, só nos setores de extrema-direita, nos locais mais conservadores, é que a afluência às urnas chega aos 85%, enquanto em locais como Telavive a afluência é de 55%", comenta o israelita.

Mas, "se as pessoas acreditarem e a esquerda em Israel deixar de ser tão pessimista", talvez seja possível que a oposição consiga os seus 61 lugares para governar, diz, frisando que esta oportunidade "tem de ser agarrada agora ou talvez nunca mais seja possível".

Também este israelita de 60 anos está pronto para aceitar uma aliança dos Democratas com forças de direita, desde que isso implique o afastamento das "pessoas que só pensam nelas próprias", num grupo que coloca à cabeça Benjamin Netanyahu, mas também os seus aliados "extremistas e fascistas" Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, líderes dos dois principais partidos ultranacionalistas e também membros do Governo.

Amir espera ainda que o Presidente israelita, Isaac Herzog, a quem compete indigitar um candidato para formar o executivo, seja travado no que diz ser já "uma tentativa clara de fazer um arranjo" entre o Likud e o Yashar!, para afastar os partidos árabes e a esquerda.

"Na Europa seríamos vistos como um grupo político do centro, mas em Israel não passamos de uns perigosos extremistas", ironiza.

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