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Correio da Manhã

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ENTERRO EM NEGOCIAÇÃO

Apesar de publicamente se insistir que Yasser Arafat está em coma, ganha consistência a tese de que estará clinicamente morto. Correm rumores de que a sua morte será anunciada depois de acordado local de enterro. Israel não vai permitir que ele seja sepultado em Jerusalém e Gaza não agrada aos palestinianos.
6 de Novembro de 2004 às 00:00
A situação clínica do presidente palestiniano, internado no Hospital Militar Percy em Paris, não piorou. Laconicamente, Christian Estripeau, porta-voz daquele estabelecimento hospitalar, deu conta do estado de saúde de Yasser Arafat sem avançar pormenores. Leila Shahid, enviada da Organização de Libertação da Palestina em Paris, foi um pouco mais clara:“Yasser Arafat está em coma reversível, entre a vida e a morte. Posso assegurar-vos que não está clinicamente morto. Os médicos ainda não fizeram um diagnóstico. Todos os seus órgãos vitais estão a funcionar. Ele pode ou não acordar”. Embora publicamente conselheiros palestinianos insistam na possível reversibilidade do coma, correm rumores que em privado Arafat está dado como clinicamente morto, estando a decorrer negociações sobre o local onde será enterrado, estando Jerusalém fora de questão.
Tal como na quinta-feira, líderes palestinianos não falavam ontem a uma voz. Contrariando as declarações de Shahid, Mohammed Rachid, um dos colaboradores do presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, negava mesmo o coma. “Ele não precisa de qualquer aparelho de ventilação e esperamos que o seu estado de saúde melhore nos próximos dias”.
No entanto, a versão que parece ganhar cada vez maior consistência é a avançada ontem por dois representantes da administração norte-americana, segundo os quais Yasser Arafat está a ser mantido vivo artificialmente porque ainda não foi definido o local onde vai ser enterrado. Sendo um muçulmano, o corpo do líder palestiniano tem de ser enterrado dentro de 24 horas após a morte, pelo que oficialmente a mesma não será declarada enquanto não estiver acordado o local onde será enterrado.
Nestas negociações, em que estarão envolvidos representantes franceses e egípcios, Israel deixou claro que está fora de questão o líder palestiniano ser sepultado em Jerusalém ou mesmo no subúrbio de Abu Dis, num terreno em que a Esplanada das Mesquitas é visível.
O primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, recusou-se a fazer comentários antes de uma comunição oficial da morte de Arafat, mas o seu titular da Defesa, Yosef Lapid, não se absteve de usar uma linguagem ofensiva neste momento delicado: “Ele não será sepultado em Jerusalém porque nesta cidade são sepultados reis judeus e não terroristas árabes”. Israel pretende que Arafat seja enterrado em Gaza, hipótese que não agrada aos palestinianos.
‘UMA PÁGINA NOVA’
Enquanto decorrem as negociações nos bastidores, os militares israelitas estão em alerta máximo e Sharon mandou apertar o cerco de segurança em redor de Cisjordânia e Gaza e ultimar o plano ‘Uma Página Nova’, que será accionado no dia em que for anunciada a morte do líder palestiniano.
Assim, todos os homens palestinianos com menos de 50 anos e mulheres com menos de de 35 anos estão proibidos de entrar em Israel, mesmo que tenham o documento de permissão. Também na Esplanada das Mesquitas, onde milhares de pessoas rezaram por Arafat ontem, a presença militar foi reforçada.
No âmbito da ‘Uma Página Nova’ estão previstos todos os cenários possíveis, estando em preparação a segurança de dignitários estrangeiros que assistirão ao funeral. Israel dispõe-se a garantir a segurança apenas dos líderes aliados.
Também em Ramallah, líderes palestinianos estão já discutir questões de segurança, de forma a manter os territórios calmos caso seja anunciada a morte de Arafat. O primeiro-ministro palestiniano, Ahmed Qorei, que assumiu alguns dos poderes de Arafat e juntamente com o número dois da OLP, Mahmud Abbas assegura a gestão dos territórios, reuniu-se com responsáveis da Segurança e hoje, irá encontrar-se em Gaza com os líderes das 13 facções palestinianas para discutir não só a segurança, mas também os passos da sucessão.
CEM MIL REZAM POR ARAFAT EM JERUSALÉM
Num ambiente de enorme pesar, cerca de cem mil palestinianos, reunidos na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém Oriental, rezaram ontem, na quarta sexta-feira do Ramadão, pela saúde do líder palestiniano, Yasser Arafat. Após a prece, e perante um aparatoso dispositivo de segurança que envolveu polícias e soldados israelitas, os fiéis muçulmanos dispersaram calmamente pelas ruelas da Cidade Santa, sem que se tivesse registado qualquer incidente.
Apesar de o governo e o Exército israelitas terem pedido contenção face às notícias que dão conta do estado crítico do presidente da Autoridade Palestiniana, na quinta-feira à noite, pequenos grupos de colonos ultranacionalistas festejaram na parte ocidental da Cidade Santa as notícias da alegada morte de Yasser Arafat. Uma ‘festa’ que foi imediatamente repudiada pelas autoridades municipais de Jerusalém.
Recorde -se que Israel decretou o estado de alerta máximo e o Exército apertou o cerco aos territórios palestinianos numa tentativa para evitar novos confrontos. Mesmo assim, e segundo fontes hospitalares palestinianas, mais duas crianças terão sido mortas, ontem, em Khan Younes, na Faixa de Gaza, por disparos israelitas.
As vítimas, de sete e oito anos, terão sido “despedaçadas” pela explosão de um projéctil lançado de um blindado israelita. No entanto, um porta-voz do Exército de Telavive desmentiu categoricamente qualquer disparo naquele sector.
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