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Especialistas estudam primeiro caso no mundo de um menor hospitalizado durante dois meses por vício a videojogo

Isolamento em casa, rejeição de interações sociais que incluíam recusa em ir aos serviços de saúde e inflexibilidade pessoal persistente eram sintomas.
Correio da Manhã 15 de Setembro de 2021 às 17:23
Criança a jogar Fortnite
Criança a jogar Fortnite FOTO: Getty Images
Está a ser estudado em Espanha aquele que poderá ser o primeiro caso do mundo de um menor que teve de ser hospitalizado durante dois meses em Castellón por grave adição ao popular videojogo Fortnite. 

O Hospital Provincial de Castellón, a Universidade Jaume I e o Hospital Geral Universitário publicaram este caso clínico na Revista de Psiquiatria Infanto-Juvenil fazendo referência ao facto de o uso generalizado de novas tecnologias na vida quotidiana poder criar a necessidade de tratamento especializado devido a vício comportamental. 

Os especialistas implicados no estudo advertem para a necessidade de prestar atenção ao comportamento dos mais novos devido ao consumo crescente das novas tecnologias ocorrer em idades cada vez mais jovens cujas funções executivas e cognitivas ainda não estão desenvolvidas.  

Os investigadores recomendam que este tipo de casos seja transferido para centros de saúde para que seja feita uma avaliação mais adequada. No caso deste menor, foi detetada uma "difícil desabituação dos ecrãs e a necessidade de um acompanhamento exaustivo prolongado após a retirada total para superar o risco de recaída". Perante este caso, os especialistas defendem que devem ser criados limites claros e bem definidos no uso destas tecnologias pelos adolescentes "fomentando a prática de outras fontes de satisfação". Recomendam ainda a criação de espaços de interação familiar para realizar atividades de grupo e restrição de dispositivos nas casas para os menores. 

Para enquadrar este caso clínico, a equipa de investigadores fez a revisão de publicações científicas sobre vícios comportamentais, em concreto, em relação ao videojogo Fortnite.

Sintomas que levaram menor ao internamento
Os sintomas que levaram à decisão de internar o jovem por dois meses passavam pelo isolamento em casa, rejeição de interações sociais que incluíam recusa em ir aos serviços de saúde, inflexibilidade pessoal persistente, pouco interesse pelo ambiente e muito seletivo nos gostos e com atividades restritivas.

Também as atividades básicas diárias e ritmo de sono estavam comprometidos. O menor tinha ainda um desempenho escolar "muito alto", facto que mudou conforme o vício foi aumentando. 

Após a avaliação, os profissionais afirmam que o vício no videojogo atuou como um regulador do desconforto provocado pela perda de um familiar e a ansiedade pelo aumento do nível de exigência na escola. 

O tratamento passa por uma abordagem cognitivo-comportamental, trabalhando tanto com o paciente quanto com a família.São ainda implementadas estratégias de intervenção como reestruturação cognitiva, desenvolvimento de habilidades pessoais, e estabelecimento de metas diárias. O tratamento levou-o a "ser capaz de avaliar as repercussões que o uso do videojogo estava tendo em seu dia a dia", segundo a equipa de investigação.

"O jogo começou como um refúgio para seu sofrimento emocional", explicam ainda os especialistas. 

O vício à Internet foi proposta como um 'transtorno de comportamento' em 1995 e em 2010 foi definida como a "perda do controlo que gera a aparição de condutas adversas".
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