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Correio da Manhã

Mundo
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ESTAS NÃO FORAM NOTÍCIA

Estas não foram, de certeza, as notícias do ano. O ‘secretismo’ da administração Bush, os interesses das corporações que controlam os meios de comunicação social e o vírus da autocensura, tão difundido entre os jornalistas, impediram que todas estas histórias fizessem a actualidade.
20 de Setembro de 2004 às 00:00
Se agora vêem a luz do dia é graças ao ‘Project Censured’, um grupo de 25 peritos que há três décadas procura nos media independentes as notícias ignoradas pelos grandes meios de comunicação social.
“Não enfrentamos uma censura no sentido tradicional”, adverte Peter Philips, que lidera o peculiar grupo de ‘salvadores’ de notícias. “Não existe uma agência do governo que impeça a publicação destas informações, mas sim métodos muito mais subtis de bloquear o acesso ou de esconder as notícias que mereciam ter tido um impacto muito maior.”
“O resultado é um receio cada vez maior dos grandes media, que oferecem todos os dias lixo noticioso e deixam de lado os assuntos que verdadeiramente importam para o funcionamento da sociedade”, afirmou Philips na apresentação de ‘Censurado 2005: as 25 histórias das quais quase não ouvimos falar’. Eis o ‘Top 5’.
1.ª – As vítimas da guerra no Iraque. Dada a falta de interesse do Pentágono em calcular o número de civis mortos no Iraque, alguns meios de comunicação social fizeram timidamente as suas próprias estimativas. A fonte mais fiável continua a ser o ‘site’ iraqbodycount.com, que calcula o número de mortos em mais de dez mil. O Pentágono tem uma contagem dos soldados mortos (1002 até ontem) mas bloqueou sistematicamente o acesso da Imprensa à base de Dover, onde chegam diariamente os cadáveres. As primeiras imagens dos caixões só vieram a público após um ano de conflito, devido a uma queixa apresentada contra o Pentágono ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação.
2.ª – Altos níveis de urânio nos civis e militares. Como na Guerra do Golfo, o urânio usado nas armas das tropas norte-americanas e britânicas está a causar graves danos à população e aos próprios soldados. Estima-se que mais de 10 mil veteranos morreram na década passada devido aos efeitos da Síndroma do Golfo, relacionada pelos peritos com o uso de urânio empobrecido. Segundo o Centro de Pesquisa Médica do Urânio, desta vez há até provas de uso de urânio ‘não empobrecido’, muito mais radioactivo, nas munições usadas no Afeganistão.
3.ª – O abismo que separa os ricos dos pobres. O fosso entre ricos e pobres nos EUA duplicou nos últimos 30 anos e já é comparado ao dos anos que antecederam a Grande Depressão. Apenas 5% da população controla 60% da riqueza. Os cortes de impostos da administração Bush estão a acelerar vertiginosamente a desigualdade social e económica. Para quando uma série de artigos de investigação intitulada ‘América rica, América pobre?’
4.ª – O assalto ao meio ambiente. A Administração Bush sabotou a Agência de Protecção do Ambiente (EPA) a partir do seu interior, retocou dezenas de leis para servir os interesses da indústria e fez recuar 30 anos os níveis de protecção. A Casa Branca chegou a censurar as palavras “aquecimento global” nos relatórios da EPA. Mais de 60 cientistas, incluindo vários galardoados com o Prémio Nobel, escreveram uma carta a Bush pedindo-lhe para “deixar de distorcer a ciência com fins políticos”.
5.ª – A ‘venda’ do sistema eleitoral. A lei ‘Ajudem a América a Votar’, destinada a evitar fracassos como o das eleições de 2000 na Florida, estipula a mudança para um sistema de voto electrónico até às eleições de 2006. Mais de 50 milhões de votos electrónicos serão já emitidos nas presidenciais de 2 de Novembro: no entanto, três das quatro empresas que controlam os mecanismos são grandes financiadoras do Partido Republicano. Os congressistas e senadores republicanos boicotaram ainda uma lei que pretendia exigir a emissão de comprovativos em papel, para facilitar uma eventual recontagem.
Outras notícias que não chegaram à primeira página: o papel dos EUA no derrube de Aristide no Haiti e na revolta popular contra Chávez na Venezuela; o peso cada vez maior dos juízes ultraconservadores na Justiça americana; a infiltração do FBI nos grupos progressistas e pacifistas; a aliança entre a Administração Bush e os gigantes da biotecnologia para impor o consumo mundial de alimentos transgénicos.
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