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Correio da Manhã

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EUA e Alemanha espiaram aliados

Secreta americana considerou a operação como “o golpe de espionagem do século”.
Ricardo Ramos 13 de Fevereiro de 2020 às 08:40
Sede da CIA em Langley, Virginia
Boris Hagelin
Sede da CIA em Langley, Virginia
Boris Hagelin
Sede da CIA em Langley, Virginia
Boris Hagelin

Durante quase cinco décadas, mais de uma centena de países, incluindo Portugal, usaram dispositivos de fabrico suíço para encriptar as suas comunicações governamentais, diplomáticas e militares sem saberem que as mesmas estavam a ser intercetadas pela CIA e pelo BND, os serviços secretos alemães, que controlavam em segredo a empresa que vendia os dispositivos.

Digno de uma novela de John Le Carré, o "golpe de espionagem do século", como foi considerado pela CIA, foi agora revelado numa investigação do ‘Washington Post’ e da televisão alemã ZDF.

Sediada num país neutral, a Suíça, a empresa Crypto AG, fundada pelo inventor russo Boris Hagelin, vendeu milhares de máquinas de encriptação a inimigos e aliados dos EUA entre a década de 50 e 2018. O que os clientes não sabiam é que a CIA e o BND conseguiam intercetar e desencriptar as mensagens transmitidas através destas máquinas.

Desta forma, os EUA e a Alemanha conseguiram ter acesso a comunicações secretas de países como o Irão, a Índia e o Paquistão, mas também de aliados como Espanha, Portugal e até Vaticano. Durante os anos 80, em plena Guerra Fria, 40% das mensagens intercetadas pela CIA eram provenientes de dispositivos Crypto adulterados. Como se não bastasse, a CIA e o BND ganharam milhões com a venda das máquinas.

Aperto de mão selou acordo em 1951
O inventor da Crypto, Boris Hagelin, foi convencido a trabalhar para a CIA pelo mestre de encriptação americano William Friedman. O acordo foi selado com um aperto de mão no Cosmos Club de Washington em 1951. Nos anos 70, a CIA e o BND compraram secretamente a companhia.

Noriega ‘traído’ por mensagem do Vaticano
Em 1989, durante a invasão americana do Panamá, o ditador Manuel Noriega refugiu-se na nunciatura apostólica, mas a sua localização foi traída pelas mensagens encriptadas trocadas entre a nunciatura e o Vaticano através de uma máquina Crypto. A CIA usou ainda os dispositivos para espiar as comunicações iranianas durante a crise dos reféns de 1979 e para intercetar as comunicações argentinas durante a guerra das Malvinas.

PORMENORES
140 mil
máquinas de encriptação portáteis criadas por Hagelin foram usadas pelos soldados americanos na II Guerra. Medo de que a tecnologia caísse em mãos erradas levou a CIA a fazer acordo com inventor russo.

Descodificar mensagens
As máquinas de encriptação substituem uma letra por outra ao acaso. A mensagem só pode ser decifrada por uma máquina idêntica. A CIA possuía a chave da encriptação, o que tornava fácil descodificar as mensagens depois de intercetadas.
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