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Ex-espião escapa a envenenamento

Um antigo agente secreto russo exilado no Reino Unido está entre a vida e a morte num hospital londrino depois de ter sido vítima de uma tentativa de envenenamento durante uma refeição num restaurante japonês da capital britânica. As suspeitas recaem sobre os serviços secretos russos, cujos métodos Alexander Litvinenko tinha várias vezes denunciado. O ex-espião estava a investigar a morte da jornalista Anna Politkovskaya, uma incómoda crítica de Putin assassinada em Moscovo no mês passado.
20 de Novembro de 2006 às 00:00
A Scotland Yard afirmou ontem estar a investigar o misterioso envenenamento de Litvinenko, e fontes diplomáticas já admitiram que, a provar-se o envolvimento russo, o caso poderá abrir um sério incidente diplomático entre Londres e Moscovo.
Segundo a Polícia, Litvinenko sentiu-se mal no passado dia 1 de Novembro, após um jantar com um contacto num restaurante de sushi no centro de Londres. Suspeitando ter sido envenenado, o antigo agente secreto conseguiu ainda induzir o vómito, gesto que lhe terá salvo a vida.
O seu estado continua, no entanto, a ser muito preocupante, e os médicos dão-lhe apenas 50 por cento de hipóteses de recuperar. As análises confirmaram que ele foi envenenado com tálio, um metal altamente tóxico – basta uma grama para matar um adulto.
Esta substância ataca o sistema nervoso central, os pulmões, o coração, o fígado e os rins, causando diarreia, vómitos e perda de cabelo. “Ele está com uma aparência terrível, mais parece um fantasma. Perdeu todo o cabelo e parece um velho. Não come há 18 dias”, afirmou um amigo que o visitou no hospital.
O ex-espião é um inimigo de longa data do presidente russo. Tudo começou em 1998, quando Putin foi nomeado chefe do FSB, o sucessor do famigerado KGB. Litvinenko, então um dos principais operacionais da organização, foi ter com ele e denunciou vários crimes cometidos pelo FSB, mas Putin recusou-se a escutar. O agente foi então para os jornais e fez várias denúncias, incluindo a de que o FSB conspirou para assassinar o milionário Boris Berezovsky.
Como resultado, Litvinenko perdeu o emprego e foi acusado de corrupção, chegando a ser preso antes de, em 2000, fugir para o Reino Unido, onde conseguiu asilo político. No ano seguinte publicou um livro comprometedor para o Kremlin, onde denunciava, por exemplo, que o atentado contra um complexo de apartamentos de Moscovo, em 1999, atribuído aos separatistas tchetchenos e que serviu como justificação para a segunda guerra na Tchetchénia, foi obra do FSB.
Segundo vários amigos, Litvinenko estava a investigar a morte de Anna Politkovskaya quando foi envenenado em Londres. O próprio ex--agente terá contado à Polícia que, na noite em que foi envenenado, recebeu de um contacto italiano uma lista com os nomes de quatro agentes do FSB alegadamente envolvidos no assassinato da jornalista. “Ele está convencido que foi envenenado por ordem de Putin”, afirmou ontem ao ‘Daily Mail’ um amigo de Litvinenko.
OUTROS CASOS
VIKTOR YUSHCHENKO
O actual presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko, foi vítima de uma tentativa de envenenamento em 2004, quando era candidato à Presidência. O atentado foi atribuído a adversários políticos próximos do Kremlin. O seu rosto ainda ostenta as marcas do envenenamento.
GEORGI MARKOV
Naquele que foi um dos casos mais famosos da Guerra Fria, o dissidente búlgaro Georki Markov foi assassinado pelo KGB em Londres, em 1978. Os agentes soviéticos usaram a ponta envenenada de um guarda-chuva para picar Markov, num ataque em pleno dia no centro da capital britânica. O dissidente morreu três dias depois.
COMANDANTE KHATTAB
Samir bin Saleh al-Suwailem, um dos principais líderes da guerrilha tchetchena, mais conhecido como ‘comandante Khattab’, foi morto em 2002 após manusear uma carta envenenada.
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