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Correio da Manhã

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Existem lacunas graves no processo eleitoral

Isaías Samakuva, presidente da Unita, está em Portugal para contactos políticos e empresariais e encontros com a comunidade angolana. Samakuva participa amanhã num debate, em Lisboa, sobre ‘Angola e Democracia’.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Correio da Manhã – Como é que está a decorrer o processo eleitoral em Angola?
Isaías Samakuva – Não estamos satisfeitos com a forma como está a decorrer o processo eleitoral, nomeadamente o início do registo eleitoral anunciado para o próximo dia 15. Esperamos que as nossas vozes sejam ouvidas porque há necessidade de uma maior transparência no processo e de participação de outros actores políticos. Os nossos pontos de vista não têm sido acolhidos e nem tudo está claro. Por exemplo, a constituição de brigadas para fiscalização do processo eleitoral não está clara, não sabemos onde é que essas brigadas vão exercer as suas actividades e quantas poderão ser distribuídas pelos municípios e províncias. Existem lacunas graves que não podemos aceitar.
– Mas a Unita tem tido reuniões com o MPLA...
– Enquanto maior partido da oposição, procuramos junto do MPLA fazer sentir que é importante que questões relevantes da vida nacional sejam também conhecidas e discutidas pelos partidos políticos da oposição, uma vez que o MPLA precisa de ser mais aberto, mais dialogante, no sentido de encontrar o contributo de outros actores políticos. Os resultados dessas reuniões, por enquanto, são tímidos. Nós gostaríamos que o MPLA acabasse com os actos de intolerância porque os militantes da Unita e de outros partidos continuam a ser perseguidos. O MPLA não deixa os outros partidos desenvolverem as suas actividades políticas livremente no país.
– O MPLA apresentou publicamente uma agenda nacional de consenso...
– O que consideramos ser hoje uma agenda de consenso é a estabilidade do país e realização de eleições. Enquanto não houver estabilidade no país, qualquer outra agenda que surja não terá viabilidade porque, acima de tudo, nós defendemos um país estável e, para que isso aconteça, é preciso que o país seja democrático e que respeite os direitos fundamentais do cidadão. É preciso que o angolano perceba que o país é de todos e não de meia dúzia de pessoas que tudo têm e tudo fazem em detrimento da maioria. Defendemos uma agenda que nos conduza à estabilidade, para uma real e efectiva reconciliação nacional e para a realização de eleições.
– Existem rumores de que vai receber ‘favores’ do presidente Eduardo dos Santos em troca da alteração da data de eleições?
– Só em Angola é que é possível que os encontros do presidente da República com o líder do maior partido da oposição sejam alvo de especulações. Quando não se conversava dizia-se que não havia diálogo. Agora, há diálogo e especula-se. Desminto e lamento estas especulações. Em Maio deste ano, apresentámos ao presidente José Eduardo dos Santos uma proposta sobre o processo de reconciliação e as eleições gerais. Na sequência dessa proposta, temos mantido, de facto, reuniões com o presidente. Mas a verdade é que até hoje ainda não obtive respostas. Não sabemos, nomeadamente, quando se vão realizar as eleições. A guerra já acabou há cinco anos. É tempo de se realizarem as eleições, mas ninguém sabe explicar porque é que elas não se efectuam.
– Como vê o investimento português em Angola?
– É preciso acabar, como disse o primeiro-ministro José Sócrates, quando em Abril deste ano visitou Angola, com a ‘política do contentor’ que continua ainda a fazer-se sentir. Não defendemos que se vá a Angola vender apenas e partir depois. Queremos sim projectos empresariais portugueses de grande porte e a longo prazo, investimentos estratégicos para o desenvolvimento do país.
PERFIL
Isaías Samakuva, de 60 anos, nasceu no Bié. É casado com Albertina Inês Satuala Samakuva (hoje são pais de cinco filhos). Em 1985, partiu para a Jamba (Quartel General da UNITA) nomeado director do gabinete de Jonas Savimbi. Em 1992, integrou a delegação para as negociações com o governo junto da ONU e a Troika de observadores que resultaram, em 1994, com a assinatura do ‘Protocolo de Lusaka’.
Em 1998, depois de uma série de intimidações, irregularidades, incidentes e eminência da ruptura do processo de paz, partiu para Londres, mas as autoridades britânicas negaram-lhe a entrada, acabando por ficar em França.
Em 2000, chefiou a Missão Externa. Em 2002, a direcção da UNITA foi decapitada no interior do país. Face à esta situação, Samakuva considera terminado o seu tempo fora do país. Decidiu voltar a Angola para de perto poder dar o seu contributo na reorganização do partido e na democratização do país.
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