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Correio da Manhã

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Foi envenenado

No último episódio do que já parece uma novela sem fim à vista, os médicos da clínica austríaca que tratou o candidato presidencial da oposição ucraniana, Viktor Yushchenko, confirmaram ontem que a doença que lhe desfigurou o rosto foi provocada por envenenamento.
12 de Dezembro de 2004 às 00:00
Na conferência de Imprensa estiveram responsáveis da clínica onde Yushchenko fez as análises
Na conferência de Imprensa estiveram responsáveis da clínica onde Yushchenko fez as análises FOTO: d.r.
O director da clínica Rudolfinerhaus, Michael Zimpfer, escusou-se, no entanto, após as últimas análises, a dar como provado que o envenenamento resultou, como pretende Yushchenko, de uma tentativa de assassinato orquestrada pelos seus rivais políticos. “Não estávamos lá e vamos deixar isso para as autoridades decidirem”, afirmou.
Apesar desta reserva de prudência, Zimpfer sempre adiantou que há fortes suspeitas de que “alguém” tenha deliberadamente causado o envenenamento, abrindo assim a porta à confirmação da tese de atentado. O médico confirmou ainda que a forte intoxicação do sangue de Yushchenko podia ter sido mortal se não tivesse sido tratada e explicou: “Encontrámos altas concentrações de dioxinas, muito provavelmente administradas por via oral.”
Esta substância, como outros médicos já haviam explicado, provoca o tipo de desfiguração por ‘cloroacne’ que o rosto do candidato da oposição revela desde que caiu doente, em Setembro. Uma vez que se trata de uma substância solúvel em água, pode facilmente ter sido misturada numa sopa, por exemplo, para matar o candidato que tanto tem incomodado o regime ucraniano pró-russo e o Kremlin.
As conclusões agora reveladas pelos médicos austríacos foram possibilitadas por novas análises sanguíneas e exame de amostras de tecido. Foi, aliás, a primeira vez que foram feitas biópsias a Yushchenko. Quer as análises quer as biópsias revelaram a presença de dioxinas em mais de mil vezes superior ao normal. Aparentemente os órgãos internos do líder da oposição não sofreram danos graves, mas poderão ser necessários dois anos para que a sua pele volte ao normal.
Entretanto, em entrevista ao jornal ‘Financial Times’, Yushchenko apelou à União Europeia (UE) para que abra as portas à Ucrânia “em resposta ao processo político e democrático em curso”. Anunciou ainda um plano em quatro etapas para possibilitar a adesão. A primeira etapa, e fundamental, será a transformação do país numa economia de mercado. Neste âmbito criticou o presidente cessante, Leonid Kuchma, e o primeiro-ministro Viktor Yanukovich, seu adversário nas presidenciais, que acusa de ter privatizado empresas atribuindo-as a pessoas próximas do regime.
REABERTA INVESTIGAÇÃO
Entretanto, a procuradoria de Kiev anunciou que vai reabrir a investigação ao alegado atentado contra o líder da oposição, Viktor Yushchenko, depois de médicos austríacos terem divulgado que o candidato presidencial foi envenenado. Horas antes, os EUA manifestaram-se “profundamente preocupados”, com o referido relatório médico.
Segundo a agência russa Interfax, a procuradoria quer agora voltar a investigar o alegado envenenamento, depois de ter encerrado o caso afirmando que Yushchenko, de 50 anos, sofria apenas de “febre hepática viral”.
Refira-se que a primeira investigação ocorreu por queixa do líder da oposição que afirmou, a 21 de Setembro, ter sido vítima de envenenamento que lhe desfigurou, de forma súbita, o rosto.
O anúncio da reabertura do inquérito surgiu depois de o governo norte-americano ter apelado às autoridades de Kiev para que investigassem o caso.
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