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Correio da Manhã

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Fretilin decide crise

O primeiro-ministro de Timor-Leste, Mari Alkatiri, confirmou ontem a sua disponibilidade para abandonar o governo, mas salientou que há outras soluções possíveis e, que, tendo sido designado pela Fretilin, “cabe ao partido decidir sobre isso”. O Comité Central (CCF) deveria ter debatido o assunto ontem, mas a reunião foi adiada para hoje devido “à falta de condições psicológicas e de segurança”, como explicou o presidente do partido, Francisco Guterres, aludindo à pressão causada pelas manifestações que tiveram lugar uma vez mais no sábado para exigir a demissão de Alkatiri.
25 de Junho de 2006 às 00:00
A GNR garantiu a segurança junto à sede do Comité Central do partido do poder em Díli
A GNR garantiu a segurança junto à sede do Comité Central do partido do poder em Díli FOTO: Antonio Dasiparu, Epa
O líder do governo afirma ter transmitido ao presidente Xanana Gusmão a disponibilidade para abdicar do cargo e salientou: “Estou sempre disponível para tomar qualquer decisão que evite um eventual banho de sangue”. Alkatiri admitiu ainda que Ana Pessoa, actual ministra de Estado, é um nome possível para a sucessão. Mas não deixou de criticar Xanana, salientando que a situação actual, na qual os timorenses são colocados na necessidade “de escolher entre um ou outro”, foi criada pelo presidente quando “ameaçou demitir-se se eu não me demitisse”.
Alkatiri mostrou-se ainda desagradado com a frase de Xanana, quando sexta-feira considerou que a esperteza dos timorenses venceu a guerra. “Se tivesse de comentar essa frase utilizaria mais adjectivos”, frisou, quando confrontado com as reacções de outros membros da Fretilin, que classificaram a frase de “provocação” e “humilhação”.
Entretanto, junto à sede do CCF, do governo e frente ao Parlamento, centenas de pessoas mantiveram a pressão, afirmando que só irão para casa quando for formado novo governo e novo Parlamento.
GNR SEGURA MULTIDÃO
A GNR controlou o protesto junto à sede da Fretilin e cabe-lhe fazer o mesmo durante a reunião de hoje, da qual pode sair uma solução para a crise. O capitão Gonçalo Carvalho, comandante do contingente luso, frisou que “serão utilizados os efectivos necessários ao cumprimento da missão”.
A INSPIRAÇÃO DA ESQUERDA PORTUGUESA
A Fretilin nasceu em 1974 a partir da Associação Social Democrata Timorense (ASDT). Inspirado por um credo marxista-leninista, o partido teve a influência directa do MRPP e de alguns escritores da esquerda portuguesa, entre eles Soeiro Pereira Gomes. Roque Rodrigues e Vicente Reis foram dois dos estudantes e fundadores da Fretilin a buscar inspiração e ajuda em Portugal.
O próprio Xanana Gusmão revela, na sua autobiografia, que em 1976, numa altura em que era muito influenciado pelo pensamento de Mao Tse Tung, procurou esclarecer aspectos da teoria em Lisboa, junto do MRPP. “Passei boa parte do meu tempo a pintar slogans nas paredes com membros do partido”, conta Xanana, um dos líderes timorenses a ‘estagiar’ em Lisboa no pós 25 de Abril.
SAMPAIO PRESSIONOU ONU
Quando, em 2003, a ONU reduziu o seu contingente em Timor e antecipou a sua saída para 2004, o ex-presidente Jorge Sampaio defendeu perante o Governo português da altura e mesmo em reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional a necessidade de Portugal pressionar para retardar a retirada.
“A posição do presidente foi sempre a de que a ONU deveria ficar o tempo necessário”, frisou ao CM Helena Barroco, assessora de Sampaio, lembrando que “após a visita de Fevereiro passado, ele escreveu ao secretário-geral da ONU, alertando-o para a necessidade de uma presença consistente em Timor”.
Quanto à possibilidade de Sampaio poder mediar a actual crise, como Mari Alkatiri afirmou desejar, a acessora esclarece que “até ao momento não houve nenhum contacto nesse sentido”.
ENTREGA DE ARMAS
O presidente Xanana Gusmão assistiu ontem à entrega de um conjunto de armas alegadamente compradas e distribuídas por ordem do ex-ministro do Interior Rogério Lobato. Foram entregues sete armas automáticas de fabrico austríaco, uma ‘shot gun’ e uma dezena de caixas de munições.
Esta devolução de armas integra-se no processo accionado por Xanana e supervisionado pelas tropas australianas. Lobato, recorde-se, está em prisão domiciliária por ter desencadeado o processo de que alegadamente Alkatiri tinha conhecimento.
CAVACO SILVA PREOCUPADO
O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, reafirmou ontem preocupação com a situação em Timor-Leste. Questionado sobre as notícias que dão conta do desejo do primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, ver como mediador o antigo chefe de Estado português, Jorge Sampaio, Cavaco Silva considerou que “ele conhece bem o país e deve estar também imensamente preocupado”.
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