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Gado que deambula em Cabo Verde é abatido e vendido na rua e um risco para a saúde

"Os animais são abatidos em qualquer canto. É quase uma questão cultural matar bois ou cabras no meio da rua", disse Elisângelo Monteiro.
Lusa 6 de Julho de 2019 às 15:21
ilha de Santiago
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A maioria do gado que deambula pela ilha de Santiago, Cabo Verde, acaba abatida e vendida no meio da rua, situação que põe em risco a saúde pública e que as autoridades se preparam para combater com maior intensidade.

O inspetor-geral das Atividades Económicas de Cabo Verde, Elisângelo Monteiro, disse à agência Lusa que a preocupação com esta prática tem anos e que se tem traduzido no encerramento de alguns matadouros ilegais.

"Os animais são abatidos em qualquer canto. É quase uma questão cultural matar bois ou cabras no meio da rua", disse, sublinhando que se trata de uma "má prática" que, além de representar um "risco enorme" para a saúde pública, "afugenta o consumidor responsável".

Além da questão cultural, que leva a que muitos cabo-verdianos não estranhem que os animais, alguns de elevado porte, como vacas e bois, mas também cabras e ovelhas, sejam abatidos e desmembrados no meio da rua, há a vertente económica.

Na cidade da Praia, capital do país, existe um matadouro. O abate e tratamento da carne para posterior venda pode custar ao proprietário do animal até 8.000 escudos cabo-verdianos (cerca de 73 euros).

Os proprietários "preferem fugir a este custo", disse Elisângelo Monteiro, para quem é preciso resolver esta questão e tornar o matadouro "mais viável" para mais proprietários de gado.

O foco das autoridades, nomeadamente a Inspeção-Geral das Atividades Económicas (IGAE), a Polícia Nacional, que, entretanto, recebeu formação nesta área, e as câmaras municipais, está também virado para a conservação da carne e a manutenção da cadeia de frio.

Isto porque, além dos animais serem abatidos nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a sua carne que não é vendida no local é depois transportada em carrinhas de caixa aberta, sujeitando-se ao calor e expondo-se a todo o tipo de micro-organismos.

"A nossa intenção é resolver a questão do abate ilegal e fomentar o negócio dos talhos legais e do transporte de carne em condições. Fazer as coisas como deve de ser, o que é bom para a saúde pública, mas também para a economia nacional", disse.

Para já, as situações mais preocupantes registam-se na ilha de Santiago, nomeadamente na capital, Praia, e em Santa Catarina, mas o inspetor-chefe das Atividades Económicas reconhece que este é um problema nacional.

Na sexta-feira, a Polícia Nacional apanhou em flagrante delito dois indivíduos a realizarem o abate ilegal de um bovino na zona de Cidadela, na Praia, e a consequente "venda ilegal e insegura" de carne verde (sem a devida conservação).

Um dos detidos, de 38 anos, é, segundo a IGAE, reincidente em casos de abate clandestino de bovino e comércio ambulante ilegal de carnes verde.

A lei prevê contraordenações para os prevaricadores, em montantes que, por acumulação, poderão atingir o milhão de escudos (9.093 euros), disse Elisângelo Monteiro. Por cada cabeça de animal abatido, o responsável fica sujeito a uma coima de 50 mil escudos (454 euros).

Quando uma situação destas é identificada, a carne do animal é apreendida e sujeita a análises laboratoriais. Este controlo tem confirmado a presença de micro-organismos nocivos para a saúde humana, segundo o inspetor-geral das Atividades Económicas.

Na próxima semana as autoridades vão intensificar as ações de fiscalização destes casos, as quais vão decorrer durante todo o verão.

Elisângelo Monteiro acredita que, com a devida formação que entretanto receberam, tanto a polícia como os elementos camarários vão saber dar resposta a esta situação e combater as ilegalidades.

"São hábitos que é necessário erradicar. O pessoal acha que é normal o que não é nada normal", disse.

A IGAE está ainda a efetuar uma campanha nas redes sociais direcionada à população, alertando para o facto de as carnes provenientes de abates clandestinos poderem ser de animais doentes, roubados e que colocam em perigo a saúde de quem a consome.
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