Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
4

GÉMEAS MORREM DURANTE CIRURGIA DE SEPARAÇÃO

Terminou de forma trágica a “Operação Esperança”, primeira intervenção cirúrgica de separação de gémeas siamesas adultas. As irmãs iranianas Bijani, Laleh e Ladan, 29 anos de idade, morreram esta terça-feira numa mesa de operações do Hospital Raffles, em Singapura, ao terceiro dia da operação e na fase final da separação das caixas cranianas.
8 de Julho de 2003 às 12:17
Laden (à esq.) e Laleh tiveram a coragem de arriscar por um futuro que não aconteceu
Laden (à esq.) e Laleh tiveram a coragem de arriscar por um futuro que não aconteceu FOTO: d.r.
A intervenção cirúrgica que fascinou a opinião pública mundial, pelo arrojo científico e pela coragem mostrada pelas gémeas Bijani, começou no domingo e chegou esta terça-feira a um fim trágico e abrupto. “O Hospital Raffles lamenta informar que as gémeas Bijani, Laleh e Ladan, morrerem durante a cirurgia para as separar. As gémeas perderam muito sangue e estavam em situação crítica à medida que a cirurgia se aproximava do fim”, anunciou o hospital de Singapura.
Segundo dados recolhidos pela agência Reuters e pela CNN, o desastre aconteceu quando os neurocirurgiões procediam à lenta e milimétrica separação de tecido cerebral, ao terceiro dia de operação. Antes tinha sido necessário garantir irrigações cerebrais separadas, um processo que obrigou à criação de um “bypass” para Ladan, usando uma veia da sua perna, mas em resultado do qual os médicos deixaram de conseguir controlar eficazmente a pressão sanguínea em ambas as gémeas. O princípio do fim terá sido esse. Durante a separação do tecido cerebral, esta madrugada, Ladan perdeu muito sangue e morreu. Os médicos esforçaram-se ainda por tentar estabilizar Laleh, mas em vão. A segunda gémea morreu pouco depois de a sua irmã também ter sucumbido.
Um total de 18 especialistas e 100 assistentes tentaram durante quase três dias concluir uma inédita separação de gémeas siamesas adultas. O Hospital Raffles assumiu todas as despesas, numa iniciativa que começou a ser encarada por alguns especialistas mundiais como uma operação mais de marketing que de medicina. Em Portugal, o cirurgião Gentil Martins afirmou claramente que ele próprio podia fazer semelhante operação com menos assistentes e em 16 horas. O especialista português, que separou recentemente com êxito duas siamesas moçambicanas, ressalvou o facto de não ter conhecimento de todos os pormenores sobre a cirurgia em Singapura, mas levantou dúvidas sobre os métodos seguidos pelos seus colegas em Singapura.
Gémeas unidas pela cabeça são o caso mais raro de siamesas, com um registo médio de uma ocorrência em cada dois milhões de nascimentos. Siamesas pegadas noutras partes do corpo ocorrem uma vez em cada 100 mil nascimentos. O caso das gémeas Bijani era ainda mais raro, por se tratar da primeira tentativa de separação cirúrgica de siamesas adultas. Ambas tinham uma esperança de vida normal mantendo-se unidas, necessitando apenas de cuidados médicos para controlar o previsível aumento da pressão intracraniana no futuro, o que lhes poderia provocar dores de cabeça persistentes e diminuição das capacidades de visão e raciocínio, caso não fosse tratado. Mas as gémeas insistiram em ser submetidas à cirurgia. Queriam levar vidas separadas e mostraram sempre uma grande coragem até chegar à mesa de operações. O destino não quis o êxito da ciência médica... mas levou-as em separado.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)