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Correio da Manhã

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GOLPISTAS PROMETEM ELEIÇÕES

Um grupo de militares ligados a um partido da oposição tomou ontem o poder em S. Tomé e Príncipe, num golpe de Estado sem violência, que aproveitou o facto de o presidente Fradique de Menezes se encontrar fora do país. A comunidade internacional foi rápida a condenar a intentona, que visa, segundo os golpistas, "lançar um S.O.S. ao Mundo sobre a difícil situação socio-económica" no país. Mas os revoltosos pedem um 'voto de confiança' afirmando que vão convocar eleições.
17 de Julho de 2003 às 00:00
O golpe de Estado foi levado a cabo por militares descontentes
O golpe de Estado foi levado a cabo por militares descontentes FOTO: TIAGO PETINGA/lusa
A rebelião teve início por volta das três horas da madrugada de ontem (mais uma hora em Lisboa), quando um grupo de militares tomou de assalto a rádio e a televisão locais e deteve a primeira-ministra Maria das Neves e membros do governo. Alguns deputados, que foram convocados pelos revoltosos, foram detidos mas mais tarde libertados. Os revoltosos proclamaram o estado de emergência, encerraram o aeroporto e tomaram posição junto a vários edifícios governamentais. Foram escutados alguns tiros e explosões na capital, S. Tomé, mas não havia registo de vítimas.
A meio da manhã, o chefe dos revoltosos, major Fernando Pereira, que se autoproclamou Comandante-Geral do Exército, esteve reunido com os embaixadores de Portugal, Mário de Jesus Santos, e dos EUA -- que já condenaram o golpe --, Kenneth Moorefield, aos quais explicou as razões da intentona. Os revoltosos, que formaram uma "Junta Militar de Salvação Nacional", anunciaram ainda a intenção de "estruturar e organizar o Estado" através da convocação de eleições, e comprometeram-se a respeitar os princípios democráticos.
O presidente Fradique de Menezes, que estava na Nigéria para participar numa cimeira regional, apelou ao apoio internacional e disse estar disposto a regressar ao país assim que o aeroporto for reaberto, provavelmente na companhia de um grupo de mediadores nigerianos.
O chefe da diplomacia são-tomense, Mateus Meira Rita, que estava em Portugal para participar numa reunião de ministros da CPLP, foi recebido pelo seu homólogo luso, Martins da Cruz, que condenou a intentona em nome do governo português.
Portugueses estão bem
A intentona apanhou de surpresa os portugueses em férias no país. Um recepcionista do Hotel Miramar, na capital, disse ao CM que, face aos acontecimentos "a maior parte dos hóspedes não saiu. Os turistas permaneceram durante todo o dia no hotel". Os cidadãos lusos residentes na ilha estão igualmente bem, tendo a embaixada aconselhado a que permaneçam dentro de casa.
FRENTE CRISTÃ: 'ROSTO DO GOLPE'
A Frente Democrática Cristã (FDC), um partido sem assento no Parlamento, é o rosto político da intentona. O presidente da FDC, Arlécio Costa, apareceu fardado ao lado do líder da Junta Militar, Fernando Pereira, na primeira conferência de Imprensa dada no Quartel das Forças Armadas. Os dirigentes da FDC são ex-operacionais da Divisão Búfalo da África do Sul, no regime do apartheid - já estiveram envolvidos numa tentativa de golpe, conhecida por 'invasão das pirogas', ocorrida em Fevereiro de 1988 -, foram ontem vistos juntos com os militares. A Junta é liderada pelo major Fernando Pereira, um oficial de carreira que, há dois anos, frequentou um curso na Academia Militar, em Lisboa. Considerado o melhor quadro militar são-tomense, chefiou contingentes em operações militares conjuntas a nível da CPLP.
"RESTABELECER A ORDEM"
O ministro da Presidência, Nuno Morais Sarmento, condenou, em nome do governo português, a "tentativa de alteração da ordem constitucional" em S. Tomé e apelou ao "rápido restabelecimento de ordem", reafirmando a importância da "via do diálogo".
"CONDENAMOS O GOLPE"
Joaquim Chissano, presidente de Moçambique e líder da União Africana, afirmou ter recebido "com muita tristeza" a "notícia inesperada" do golpe e exigiu aos revoltosos a "restituição da ordem constitucionalmente estabelecida".
"DIÁLOGO É A ÚNICA SOLUÇÃO"
O ex-presidente Miguel Trovoada defende o diálogo para ultrapassar a situação. Trovoada, que em Agosto de 1995 passou por uma situação idêntica, defende a criação de uma plataforma de entendimento para retirar o país da crise.
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