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Grupo português FAIART fecha a única fábrica de porcelanas da Argentina

Trabalhadores, sem salários em dia nem certezas, marcham para pressionar as autoridades locais por respostas.
Lusa 6 de Julho de 2020 às 14:04
Chávena de porcelana
Chávenas de porcelana
Chávena de porcelana
Chávenas de porcelana
Chávena de porcelana
Chávenas de porcelana
A portuguesa Faiart, Faianças e Porcelanas, decidiu pôr à venda a sua fábrica depois de 25 anos na Argentina enquanto os trabalhadores, sem salários em dia nem certezas, marcham hoje para pressionar as autoridades locais por respostas.

A fábrica da Faiart Argentina, conhecida pelo nome de Verbano, parou de produzir no dia 20 de março, quando o país entrou em quarentena obrigatória para conter a propagação de coronavírus. No entanto, há um mês, quando a região passou do isolamento ao distanciamento total, a fábrica não voltou mais a abrir, deixando os trabalhadores à deriva.

Depois da pressão dos funcionários no Ministério do Trabalho e na porta da fábrica, o gerente de Recursos Humanos e sócio-gerente da Verbano/Faiart, Luis Zilli, informou os 120 operários que a empresa está à venda.

"Um dos dois gerentes da fábrica, Luis Zilli, disse-nos que a dona da Faiart em Portugal avisou a Diretoria aqui na Argentina que não quer mais investir na empresa e que procuravam um investidor para comprar a empresa", conta à Lusa Daniela Resumi, há 20 anos na empresa, delegada da comissão interna da fábrica e membro da Diretoria do Sindicato de Operários Ceramistas, Porcelanas e Azulejos da Argentina (SOCPA).

"Segundo a Diretoria da Faiart Argentina, a dona em Portugal não está mais interessada na empresa, não quer mais investir e deu sinal verde para a venda da fábrica", confirma à Lusa Carina Mugracci, operária na linha de produção e tesoureira no SOCPA. Carina trabalha na Verbano/Faiart há 24 anos, desde 22 de julho de 1996, primeiro dia em que a fábrica passou a funcionar sob direção portuguesa.

O diretor da Faiart Argentina, Walter Martínez, não respondeu a nenhuma das inúmeras tentativas de contacto da agência Lusa.

"É por essa falta de comunicação e de clareza na informação que hoje vamos marchar. Precisamos de respostas. Estamos numa situação de total incerteza sem saber se vamos receber os salários atrasados e por mais quanto tempo", diz Daniela Resumi.

"Gostaríamos de ouvir a informação por parte da própria dona da empresa em Portugal. Não sabemos se aqui nos estão a dizer a verdade", acrescenta Carina Mugracci.

A concentração em frente à porta da fábrica na pequena cidade de Capitán Bermúdez, na província de Santa Fé, estava agendada para as 14:00 de Lisboa. Horas depois, os trabalhadores da Verbano e de outras indústrias em solidariedade, além de comerciantes, vão marchar por 1,5 quilómetros até a sede do governo municipal. A manifestação deve durar até ao final da tarde.

Depois que o país entrou em quarentena, os 120 funcionários passaram a receber metade do salário através do programa de Assistência de Emergência ao Trabalho e à Produção (ATP), criado pelo Governo argentino para financiar as empresas que, devido à paralisação imposta pelo isolamento obrigatório, têm dificuldade para continuar a pagar os salários. Não se sabe até quando o programa vai continuar.

A outra metade do salário que deveria sair da própria Verbano/Faiart tornou-se um problema. Há quatro dias, os funcionários terminaram de receber os salários de abril, pagos em seis parcelas. A Verbano/Faiart ainda não pagou nem maio nem junho.

A empresa pertencia ao empresário português Ramiro Neves Vieira, quem morreu em outubro passado, deixando o grupo Faiart à filha herdeira, Rita Neves Vieira, quem, segundo a Diretoria na Argentina, decidiu desfazer-se da Verbano/Faiart.

Com a pandemia, bares, restaurantes e hoteis, principais clientes da Verbano/Faiart, deixaram de consumir. A área metropolitana de Buenos Aires, responsável por metade do Produto Interno Bruto (PIB) do país e pela maior parte do consumo, continua num rígido e prolongado regime de isolamento que, segundo a Câmara de Comércio da Argentina, deve levar à falência, pelo menos, de 100 mil lojas, bares e restaurantes no país.

Os problemas de solvência da Verbano/Faiart não surgiram com a pandemia. A empresa já apresentava problemas económicos, a ponto de suspender os operários, por um mês, em março do ano passado. Há três anos, os trabalhadores passaram a receber os salários mensais em duas parcelas.

A empresa na Argentina foi fundada em 1953 sob o nome de Verbano com o qual ficou famosa no país. Em 1995, o grupo português Faiart comprou a fábrica, mantendo o nome e acrescentando novas máquinas e um novo forno mais modernos.

O objetivo de grupo era, a partir da Argentina, exportar 80% da produção para Brasil, Paraguai, Uruguai e Chile. O plano deu certo até à altura em que os importados chineses ganharam os mercados. Os mais de 300 funcionários reduziram-se aos atuais 120.

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