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Correio da Manhã

Mundo

GUARDAS PORTUGUESES NO INFERNO DO IRAQUE

Os militares da GNR que em breve partirão para o Iraque vão encontrar um verdadeiro "inferno".
26 de Junho de 2003 às 00:00
As forças americanas e britânicas redobraram a vigilância após os recentes ataques
As forças americanas e britânicas redobraram a vigilância após os recentes ataques FOTO: Radu Sigheti/Reuters
Os ataques contra as forças da coligação aumentam em número e violência de dia para dia, e já nem as zonas consideradas seguras, como o sul do Iraque (para onde vão os soldados portugueses), escapam à onda de instabilidade que varre o país. A morte de seis soldados britânicos, na terça-feira, prova que a guerra ainda não acabou.
O incidente - que causou o maior número de baixas aos britânicos desde o início do conflito - ocorreu na zona administrada pelas tropas do Reino Unido, a qual era considerada até agora como a região mais segura do país, e ilustra bem que a instabilidade se está a alastrar a todo o território iraquiano. Uma zona com população de maioria xiita, inimiga do regime deposto de Saddam Hussein.
Recorde-se que é precisamente no sul do Iraque, mais concretamente na região de Umm Qasr, que vão ficar estacionados os 120 militares da GNR que partirão em breve para o Iraque. Os militares portugueses ficarão na dependência de um regimento de Carabinnieri italianos e sob comando britânico, tendo por missão zelar pela ordem pública e ajudar na formação das forças policiais iraquianas.
PREOCUPAÇÃO ACRESCIDA
Contactado pelo CM, José Manageiro, presidente da Associação dos Profissionais da GNR, afirmou que estes incidentes são motivo de "preocupação acrescida", uma vez que ocorreram na região onde vão operar os militares portugueses. "Havia a ideia de que os militares da GNR iriam operar numa área que estava pacificada e constatamos agora que não é isso que acontece", justifica, acrescentando que "a actividade desenvolvida nessa região deve ser prestada por militares preparados para fazer guerra e não policiamento".
Desde que a Casa Branca decretou, a 1 de Maio último, o fim da fase dos "grandes combates" já morreram pelo menos 25 soldados aliados (19 americanos e 6 britânicos) vítimas de ataques de guerrilha ou de escaramuças com a população. Foi este último o caso dos britânicos mortos terça-feira em Majjar. Segundo testemunhas, seis elementos da Polícia Militar deslocaram-se àquela localidade para desarmar a população local e procurar armas escondidas, mas depararam com uma manifestação de protesto da população contra os métodos "intrusivos" com que estão a ser levadas a cabo as operações. Os ânimos exaltaram-se e algumas crianças começaram a apedrejar os soldados, que responderam com o disparo de balas de borracha. Julgando estar a ser alvejados, os civis responderam com armas automáticas, matando os militares.
As forças britânicas estão a investigar os incidentes, mas já admitiram que estes podem ter sido provocados por alguns "excessos" dos soldados, como o facto de levarem cães para fazer buscas no interior das casas (os muçulmanos consideram o cão um animal impuro) ou de passarem revista às gavetas de roupa interior das mulheres, o que é considerado ofensivo. Certo é que estes incidentes parecem ter acabado com a "lua-de-mel" entre os militares britânicos e a população civil no sul do Iraque.
GOE PROTEGE EMBAIXADOR
Refira-se, entretanto, que além dos militares alguns Elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP vão ficar encarregados da segurança do embaixador português em Bagdad, anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz. O envio dos GOE foi decidido com base na recomendação feita pela administração civil dos EUA às representações diplomáticas estrangeiras para que mantenham a sua própria segurança.
BLAIR DEBAIXO DE FOGO
A morte de seis soldados britânicos no Sul do Iraque está a colocar o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, sob uma autêntica 'barragem de fogo' . Fortemente criticado pela oposição e sectores do seu partido (que já causaram inclusive baixas no governo) por ter "exagerado" as informações sobre os arsenais iraquianos, Blair enfrenta agora novas acusações pela forma como foi conduzida a operação que vitimou os militares britânicos. Uma pressão tremenda que encontra eco junto da opinião pública britânica: as sondagens mostram que a vantagem dos trabalhistas em relação aos conservadores é agora de apenas quatro pontos, o valor mais baixo nos últimos três anos. Para esta descida muito contribuiu também a polémica em relação às informações sobre os arsenais iraquianos. Ainda ontem, o chefe da diplomacia, Jack Straw, admitiu no Parlamento, que está a investigar o caso, que o referido relatório continha 'erros' e que foi baseado, em parte, num trabalho feito por um estudante há mais de dez anos.
INSTABILIDADE
REFORÇOS
O Reino Unido está a ponderar a possibilidade de enviar mais alguns milhares de soldados para o Iraque para reforçar a segurança, na sequência do ataque que vitimou seis militares britânicos.
ULTIMATO
As forças britânicas deram 48 horas às autoridades civis da localidade de Majjar para entregarem os responsáveis pela morte dos seis soldados britânicos, abatidos num tiroteio com civis na terça-feira.
SABOTAGEM
Um óleoduto que abastece uma das principais refinarias iraquianas explodiu terça-feira à noite, em mais um aparente acto de sabotagem. Este foi o terceiro ataque do género nos últimos dias.
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