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Hospitais lotados e cremações em massa: Índia desespera com segunda vaga da Covid-19

Os hospitais estão lotados, há escassez de oxigénio e realizam-se cremações em massa em locais improvisados devido ao aumento galopante de óbitos. Na capital indiana, Nova Deli, é reportada uma morte por coronavírus a cada quatro minutos.
Catarina Cruz 29 de Abril de 2021 às 17:01
Os hospitais estão lotados, há escassez de oxigénio e realizam-se cremações em massa em locais improvisados devido ao aumento galopante de óbitos. Na capital indiana, Nova Deli, é reportada uma morte por coronavírus a cada quatro minutos.
Por Catarina Cruz 29 de Abril de 2021 às 17:01
Em Nova Deli, capital da Índia, estima-se que esteja a ser reportada uma morte por Covid-19 a cada quatro minutos. O número impressiona, mas pode pecar por defeito. Os especialistas acreditam que os números da Covid-19 no País sejam 5 a 10 vezes superiores às contagens oficiais.
A Índia já ultrapassou os 250 mil mortos por Covid-19 e há mais de 23 milhões de infetados desde o início da pandemia, segundo dados do Ministério da Sáude. O País está a braços com uma segunda vaga devastadora, à qual se somam novas variantes locais do vírus, que a Organização Mundial de Saúde teme que sejam mais contagiosas. 
Mas os números não traçam o retrato completo da tragédia que se abateu sobre a Índia: os hospitais estão lotados, não há camas disponíveis, o oxigénio escasseia. Há pessoas a receber oxigénio dentro de carros e riquexós à porta dos hospitais e há quem não sobreviva à espera e morra em frente às unidades de saúde sem conseguir ser atendido.
Shruti Saha soube da morte da mãe quando esperava para encher a botija com oxigénio
Covid-19 índia
Covid-19 falta oxigénio Índia
Caos hospitais Índia
Covid-19 na Índia
Caos hospitais Índia
O caso de Shruti Saha é um dos muitos que se sucedem por todo o País. Durante dois dias, correu Nova Deli à procura de um hospital que recebesse a mãe, sem sucesso, e, à falta de melhor, fez-se à estrada à procura de oxigénio. Recebeu a notícia da morte da mãe quando estava na fila para encher a botija.
O número galopante de mortes faz com que se trabalhe 24 sobre 24 horas nos cemitérios e crematórios, onde as filas de ambulâncias aguardam durante várias horas até conseguirem deixar os mortos. Nas cidades mais atingidas por esta segunda vaga, como Nova Deli, têm-se realizado cremações em massa, com piras colocadas a arder em locais improvisados como parques de estacionamento. Fogo e morte, espalhados pelas cidades num cenário de horror.
Covid-19 na Índia
cremações em massa Covid-19 Índia
cremações em massa Covid-19 Índia
cremações em massa Covid-19 Índia
cremações em massa na Índia
cremações em massa na Índia

"A ferocidade da segunda vaga apanhou todos de surpresa", disse K. VijayRaghavan, principal conselheiro científico do governo, ao jornal Indian Express. O especialista afirma que a disponibilização de vacinas e a diminuição progressiva do número de casos de Covid-19 após a primeira vaga possam ter contribuído para que o País não tivesse antecipado a dimensão que a segunda vaga poderia atingir.

Face aos efeitos da segunda vaga nos outros países, VijayRaghavan detalha que a prioridade foi vacinar e apelar a um comportamento responsável: "Tornou-se uma corrida para vacinarmos o máximo que pudéssemos, enquanto mantínhamos um comportamento adequado à prevenção da Covid-19. Fazer o primeiro (vacinar toda a população) leva tempo. Nós abrandámos no segundo (ter um comportamento apropriado)."
O principal conselheiro científico do governo indiano acrescentou ainda ao Indian Express que as medias como o uso de máscara, o distanciamento físico e as restrições a grandes eventos precisavam de ter sido estritamente aplicadas e cumpridas.

E na origem de milhares de novos casos estiveram precisamente grandes eventos. O primeiro-ministro, Narendra Modi, está a ser fortemente contestado pelos especialistas e pela população por ter permitido e promovido grandes eventos de massas numa altura crítica para o País. Modi não só participou em comícios para as eleições estaduais, que reuniram milhares de pessoas, como autorizou o festival religioso hindu Kumbh Mela, que ao longo de todo o mês de abril juntou milhares de pessoas por toda a Índia, sem máscara nem respeito pelo distanciamento físico.
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Da falta de oxigénio às cremações em massa: as imagens da catástrofe da Covid-19 na Índia

A esperança na vacina

A Índia começou a campanha de vacinação contra a Covid-19 em janeiro, com a inoculação dos profissionais de saúde e dos idosos. Segundo a agência Reuters, apenas 9% dos 1.3 mil milhões de habitantes do país recebeu uma dose da vacina. Os especialistas acreditam que a vacinação é a melhor hipótese da Índia conter esta segunda vaga da pandemia.

O País abriu as inscrições para que todos os cidadãos com mais de 18 anos possam começar a ser vacinados, mas a escassez de vacinas pode ser um entrave à rápida inoculação da população. Apesar de a Índia ser o maior produtor mundial de vacinas contra a Covid-19, não tem doses suficientes em stock. E esta situação pode ter impacto na crise sanitária a nível global, uma vez que estão a ser desviadas para a Índia doses que seriam entregues a países pobres, nomeadamente em África.
Vacinação contra a Covid-19 na Índia
Vacinas Covid-19 Índia
Vacinação contra a Covid-19 na Índia
O governo indiano desdramatiza a situação e, em comunicado, afirma que "as estatísticas indicam que, longe de falhar ou de uma performance mais lenta, o sistema está a funcionar sem quaisquer falhas." O governo acrescentou ainda que mais de oito milhões de pessoas estão registadas para vacinação, mas não esclareceu quantas é que conseguiram, de facto, vagas.

Ajuda internacional já chegou ao país

A crise sanitária na Índia levou a que vários países oferecessem ajuda e o secretário dos Negócios Estrangeiros do País, Harsh Vardhan Shringla, confirmou que esperam receber cerca de 550 geradores de oxigénio vindos de todo o mundo. A Nova Deli já chegou ajuda da vizinha Singapura e dois aviões vindos da Rússia com 20 concentradores de oxigénio, 75 ventiladores, 150 equipamentos de monitorização e medicamentos.

Portugal também vai enviar medicamentos antivirais e oxigénio para a Índia, assim como os Estados Unidos da América, que já anunciaram o envio de mil botijas de oxigénio e 15 milhões de máscaras N95, ou a Alemanha, que vai enviar 120 ventiladores e uma instalação móvel de produção de oxigénio.

Além dos materiais de uso hospitalar, os Estados Unidos também já avançaram que vão redirecionar para a Índia um pedido de matérias-primeiras feito à AstraZeneca que permitirá à País produzir mais de 20 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19.  


Texto | Catarina Cruz
Fotografia e vídeo | Reuters

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