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Soldados portugueses esquecidos em França

"A participação portuguesa é pouco conhecida", diz o historiador Emmanuel Saint-Fuscien.
25 de Junho de 2014 às 10:50
"A participação portuguesa é pouco conhecida", diz o historiador Emmanuel Saint-Fuscien.

O historiador francês Emmanuel Saint-Fuscien, professor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris considerou que a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial "é um ângulo morto da historiografia europeia", sobretudo francesa.

"A participação portuguesa é pouco conhecida e pouco desenvolvida. Por um lado, a participação das unidades portuguesas à escala da guerra é tardia e ocorre pouco tempo antes do falhanço da Ofensiva Nivelle de 16 de abril de 1917, a qual vai provocar motins no exército francês e é um evento que passa por cima de tudo o resto", explicou.

A segunda hipótese prende-se com a determinação de França "em insistir na participação do conjunto da nação", ou seja, nas "regiões até aqui consideradas como periféricas - como o oeste da Bretanha, a Córsega, algumas partes do Midi e as colónias - o que apaga algumas participações estrangeiras", concluiu Emmanuel Saint-Fuscien.

O professor não conteve, por isso, uma gargalhada quando questionado sobre se a participação portuguesa na Grande Guerra era ensinada nas escolas francesas.

"Quando se fala nos não franceses que participaram na guerra pensa-se nos ingleses, que eram os principais aliados, e nos Estados Unidos. As outras nações que ajudaram França - como Portugal - são um pouco esquecidas. No conjunto dos soldados, os 50 mil enviados por Portugal não fizeram uma diferença maior", apontou à Lusa Victor Pereira, historiador e professor na Universidade de Pau, no sul de França.

Por outro lado, o especialista em história contemporânea acrescentou que como "Portugal não participou na Segunda Guerra Mundial e nas grandes guerras do século XX, há muitas vezes a ideia que Portugal sempre esteve fora dos assuntos europeus".

Jean Yves Lenaour, especialista francês da Grande Guerra, também admitiu que "os franceses ignoram geralmente a participação de uma unidade portuguesa na Frente Ocidental" porque "a participação de Portugal é acima de tudo simbólica e garante-lhe um bom lugar na Conferência de Paz" e porque "Portugal está longe do teatro da guerra".

O 'apagão' dos soldados portugueses na memória coletiva francesa reflete-se na falta de publicações sobre o tema e na falta de monumentos aos soldados mortos, sendo exceção a região da Flandres Francesa, onde combateram os portugueses e onde foi criado um cemitério militar em Richebourg, havendo também um talhão português no Cemitério de Boulogne-sur-Mer e um monumento ao soldado português em La Couture.

Em Paris, há apenas uma pequena rua (55 metros de comprimento e 26 metros de largura) chamada 'Avenida dos Portugueses', no 16.° bairro, batizada a 14 de julho de 1918, "em memória da entrada de Portugal na guerra de 1914-1918, ao lado dos Aliados", pode ler-se no site da câmara municipal da capital francesa.

Uma magra consolação para Manuel do Nascimento, autor de livros sobre a Primeira Guerra Mundial, que contestou a nomenclatura de 'avenida' e fala em "ruela onde não há moradores", atribuída a um país que "participou com soldados e materiais de guerra".

O tema também não merece destaque no universo editorial francês, o que levou Manuel do Nascimento a publicar dois livros sobre o tema, 'A Batalha de La Lys' e 'Primeira Guerra Mundial: Os soldados portugueses das trincheiras da Flandres e a mão-de-obra portuguesa a pedido do Estado francês'.

"Quando apresentei o primeiro livro à editora disseram-me que os franceses desconheciam o tema. Sempre que vou a palestras, todos os franceses ficam de boca aberta porque desconhecem a participação portuguesa", afirmou.

Também o historiador Victor Pereira admitiu a existência de poucas publicações sobre o tema e afirmou que quando se fala de Portugal é de forma breve, exemplificando com autores como Jean Jacques Becker, Jean Derou e até o marechal Pétain, com um texto publicado recentemente "que fala em duas ou três linhas dos portugueses, dizendo até que eram maus soldados".

"Depois há o livro do antigo ministro e historiador Nuno Severiano Teixeira cuja tese sobre os motivos da entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial foi traduzida para francês há uns anos. Ele é o único autor citado em francês", acrescentou.

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