A arma utilizada no crime, provavelmente um revólver Smith & Wesson modelo Magnum, nunca foi detetada pelas autoridades suecas.
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O investigador sueco Jan Stocklassa diz estar convencido de que a arma utilizada para matar o primeiro-ministro da Suécia Olof Palme em 1986 está guardada num cofre mantido por um cidadão sueco atualmente a residir em Israel.
"Jakob Thedelin tinha um cofre no banco. Um espaço fechado na caixa-forte de um banco, à qual apenas ele tinha acesso - mais ninguém (...), um cofre suficientemente grande para colocar um revólver que serviu para assassinar Olof Palme [página 451]", escreve Stocklassa no livro "Stieg Larsson - Os arquivos secretos" que vai ser publicado em Portugal.
A arma utilizada no crime, provavelmente um revólver Smith & Wesson modelo Magnum, nunca foi detetada pelas autoridades suecas, que também nunca chegaram a conclusões definitivas sobre o assassinato do primeiro-ministro, ocorrido há mais de três décadas em Estocolmo.
Segundo a investigação de Stocklassa, o indivíduo que é identificado como Jakob Thedelin terá sido um dos "papalvos" suecos com ligações a organizações de extrema-direita utilizados pelo regime do 'apartheid' sul-africano que dirigiu a alegada operação para aniquilar Olof Palme, porque o primeiro-ministro se preparava para obstaculizar o negócio de armas entre Pretória e Teerão, no quadro do esquema Irão-Contras, em meados dos anos 1980.
Stocklassa deteta, em 2016, o homem a quem chama Jakob Thedelin (o nome foi alterado para "proteger a integridade" do indivíduo) numa povoação sueca, cujo nome também não é revelada no livro.
Após cruzar o conteúdo de "estranhas" mensagens de correio eletrónico entre Thedelin e Bertil Wedin, um antigo agente e ex-mercenário residente na República Turca de Chipre do Norte, obtidas por um pirata informático, o autor conclui que a arma do crime está guardada num cofre na Suécia.
O antigo agente dos serviços secretos sueco Bertil Wedin, ex-capacete azul da ONU no Congo, mais tarde conectado com redes de mercenários que combateram a soldo na Rodésia, é apontado como colaborador externo dos serviços secretos sul-africanos e terá supostamente desempenhado o papel de intermediário no assassínio de Palme.
Wedin nega em entrevista a Stocklassa o envolvimento no crime e Thedelin, após contactos com uma colaboradora do autor do livro, "foge" para Israel.
Com base nos documentos, recortes de jornal e notas arquivados ao longo dos anos pelo jornalista e escritor Stieg Larssen, sobre a morte Olof Palme, o investigador Stocklassa persegue "a pista sul-africana".
"Entre outras hipóteses, existe aquela em que interesses sul-africanos poderão estar envolvidos no homicídio", escreveu Stieg Larssen, numa nota que consta dos arquivos que manteve sobretudo nos anos em que publicou um jornal em que denunciava as atividades da extrema-direita nórdica.
Em síntese, segundo a tese de Jan Stocklassa, o primeiro-ministro sueco poderá ter sido vítima dos negócios de armamento que envolvia o regime do 'apartheid' e do "cartel da pólvora" de empresários suecos que negociavam com o regime de Teerão.
Jan Stocklassa refere que, em meados dos anos 1980, a guerra entre o Irão e o Iraque "era o maior conflito armado que agitava o mundo", recordando que Olof Palme tinha sido mediador da ONU para o conflito.
Paralelamente, "outro conflito estratégico desenrolava-se entre o governo socialista da Nicarágua e a guerrilha dos Contra", apoiado pelos Estados Unidos.
"O terceiro [conflito] era a guerra na África Austral, entre o regime do 'apartheid' e os movimentos de libertação africanos, em que o ANC [Congresso Nacional Africano] era o líder principal", escreve Stocklassa.
Com base em informação aberta sul-africana, Stocklassa sublinha que Pretória desempenhou um papel-chave numa das "maiores e mais complexas conspirações do século XX, aquela que foi chamada de o 'Caso Irão-Contras'", durante a presidência de Ronald Reagan, um esquema montado pelo então diretor da CIA, William Casey.
Devido às sanções internacionais, a África do Sul tinha dificuldades em manter as reservas de petróleo, mas, graças a um "acordo secreto", o Irão recebia armas da África do Sul e, em troca, o regime do 'apartheid' garantia o petróleo que não podia adquirir no mercado oficial.
"O negócio foi conseguido com a ajuda da CIA que recebia, de passagem, um bónus que lhe permitia financiar e armar os Contras na Nicarágua, assim como outros movimentos anticomunistas pelo mundo", frisa Stocklassa.
A toda a trama exposta por Stocklassa juntam-se as atividades do empresário sueco Karl-Erik Schimtz, apelidado de "Bobbo", na indústria de armamento e as encomendas de material de guerra, nomeadamente 4500 toneladas de pólvora sul-africana, com destino ao Irão, para carregar peças de artilharia americanas.
O armamento intermediado pelo empresário sueco foi transportado em aviões da mesma companhia aérea usada pelo tenente-coronel Oliver North para entregar mísseis ao Irão e que serviam também "para fornecer armas à guerrilha angolana UNITA, apoiada conjuntamente pelos Estados Unidos e pela África do Sul".
Olof Palme recuperou o governo da Suécia após as eleições de 1985 e opôs-se ao esquema de venda de armas do regime sul-africano, o que pôde ter conduzido a uma reação violenta das autoridades de Pretória.
"A polícia sueca tinha-se, pura e simplesmente, desinteressado da questão de saber se o regime do 'apartheid' tinha alguma coisa a ganhar ao assassinar Olof Palme", critica Jan Stocklassa no livro.
O livro "Stieg Larsson - Os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme" de Jan Stocklassa (editora Planeta, 468 páginas) foi traduzido para o português por Eulália Pyrrait, e encontra-se nas livrarias a partir de terça-feira.
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